My dear poet, Baudelaire: May these lines never fall into your hands, ever. The voice that expresses itself here is that of another, not just my own, but also part of you, which calms me down, since by reading your poems I hear the screams of your heart. The most that can be understood here is just an addition to your opinions.


Editoras que Publicam Obras do Autor.


Prêmio de Ficção da Academia Brasileira de Letras Melhor Romance de 2004

Finalista do Prêmio JABUTI 2004.






Obrigado pela sua visita.

Apoio Cultural

Leia os Dois Primeiros Capítulos nos Outros Idiomas

1

A tristeza que cava fundo na alma é sempre mais intensa nas monótonas noites natalinas. São noites intermináveis para quem mira a lareira com os olhos pestanudos, abrasados pelo pranto. Não vale a pena chorar na lentidão da queima quando só as brasas parecem vivas. O vento frio e úmido que orvalhou os campos nessa primavera não é o mesmo que logo mais irá soprar as folhas secas na rua apagada. Ninguém por aqui ousa desafiar a quem manipula com tenaz precisão essas estranhas metamorfoses climáticas, tampouco irá insinuar que os elementos apocalípticos se sustentam apenas nas palavras proféti¬cas que ressoam para além dos cumes montanhosos. Quem continua cabis¬baixa, remoendo o seu dilema, pressente que deve abordar o que cairá do alto com parcimônia e respeito, do contrário suas palavras estancarão nos lábios ressequidos e a língua ficará presa numa boca murcha, definitivamente impedida de maldizer a chegada da próxima estação. A cidade se ilumina de clarões e estremece com o início de uma sinfonia macabra, orquestrada por estrondos encadeados que vão despencando sobre os velhos telhados, refeitos quase sempre de última hora. Nem mesmo os acordes mais altos dos violinos conseguem abafar os estrondos que à distância se ouvem. Desde há muito se diz que, nesses instantes nostálgicos, quem abrir os olhos para espreitar o que está ocorrendo dentro de si verá, no cromatismo apavorante dos relâmpagos que fraturam com veios prateados o negrume dos céus, que nunca se deve maldizer a vida ou o que está sendo refeito em seu benefício.

Também é noite na imensidão dos pensamentos de Célestine, que continua acrisolada numa idéia triste, remoendo um rancor agressivo a cada vez que mastiga pétalas opiáceas para conter uns estremecimentos que vêm do íntimo das suas fibras. Nesses instantes dilemáticos em que já começa a ouvir os sinos alucinantes das dedaleiras e beladonas orvalhadas, colhidas há pouco no pomar, o escuro vai apagando as cores da sua vida, fazendo prevalecer uma única, que não se define. Contudo, sendo a escuridão mãe de todos os matizes, não é propriamente uma cor, nem apenas ausência de luz, por isso mesmo não pode ser traduzida com estas palavras. O firmamento apagado, deitando-se com sua envolvente atmosfera sobre as mentes atribuladas que cruzam a rua Yerbal e vão chegando ao casarão 9, da rua Camacuá, da família Ducasse, parece ser a causa dessa estranha sensação de acossamento espiritual que paira no ar. Mas tudo isso é mantido em silêncio, tanto que quem tentar adivinhar o que cairá do alto, sentir-se-á tão acuado entre o chão molhado e aquela imensa espessura vazia, quanto acuada está Célestine, que depois de sentir um medo remoto de comprometer seus planos devido à afetação beladonal, novamente abaixa os olhos e tem a impressão de que nalgum lugar daquela escuridão há um poder sinistro desafiando uma inteligência secreta a abrir atalhos no seu caminho, a ponto de deixá-la indecisa entre continuar ali parada ou entrar em casa.

Mal os últimos convidados chegam, começa a chover com tamanha intensidade e violência que a lavação caída dos céus logo se transforma numa amea¬ça capaz de inundar os leitos vazios de sentido e conteúdo. Nesse preciso instante, um barulho de granizo no telhado invade o amplo salão, abafando os sussurros bizarros que se escutavam entre ouvidos muito íntimos, provavelmente sobre um escândalo que envolve o cônsul François Ducasse com sua secretária. Rapidamente o abafamento atmosférico acentua o cheiro de comida que vem da cozinha e também a expressão nervosa e patética da anfitriã, que se sente ridícula não só por adivinhar os pensamentos de cada uma das senhoras e senhoritas que mussitam nos recantos do salão, mas também pelo rigor como se veste, num longo azul-marinho de mangas compridas, sem decote, com a cintura enforcada por uma tira de seda, o que lhe dá o aspecto austero de uma beata em declínio ou de mulher submissa ao marido.

“Tão bela e, no entanto, parece infeliz”, diz consigo um cavalheiro que dela se aproxima cheio de esperanças, porém, ao cumprimentá-la, sente o frio hostil do seu olhar, um olhar maligno, que revela coisas do íntimo, talvez um suplício mórbido, ou algo ainda mais assustador, que parece combinar muito bem com a palidez do rosto mudo da anfitriã, ali sentada, esforçando-se como pode para esboçar um sorriso insignificante. Mas ao notar que o intrometido colhera do jarro um punhado de clematites perfumadas com amarílis, ela, sem aparente motivo e sem apresentar nenhuma desculpa, se retrai num gesto pu¬silânime.

Nesses tempos de universais confraternizações e de imutáveis intrigas entre seres tão complexos, ninguém ousará quebrar o brilho de uma festa natalina¬ comentando negativamente sobre a intervenção repentina de uma tem¬pestade. Mas há, entre esses que acabaram de chegar, aqueles que irão tentar amenizar a geral inquietação, dizendo que, sendo o dilúvio uma coisa enviada do alto, será sempre bem-vindo, tanto que as repentinas lufadas de vento frio parecem ajudar a transformar a vida individual dos cristãos, ateus, pagãos, hereges e agnósticos em milagre divino.

Tamanho é o aguaceiro que lava o duro chão e deifica as consciências gerais, que os convidados mais fideístas poderão confundi-lo com um batismo coletivo, mas nunca com um castigo grotesco dos céus, como logo mais será dito do que veremos acontecer no estuário do Prata, local aprazível da América meridional, sudoeste da América do Sul. Muito menos irão insinuar que todos aqueles que lá fora tateiam na laica escuridão são também filhos do Eterno e das doutrinas universais, essas que no plano filosófico e moral a nada explicam, mas a todos precisam acolher, como acolhedora é a presença da morte para quem supõe, no íntimo de si mesmo, que sua alma é imortal, e por ser eterna chegará a um porto esplêndido, lugar paradisíaco concebido graças à genialidade inventiva dos moribundos antepassados que criaram, no amálgama dos ritos e dos dogmas, uma natureza soberana que tem o dom de perpetuar a impostura dos crentes e traçar o destino trágico dos perdidos.

Nesse comenos em que as falas se misturam e de longe ninguém identifica quem mais alto se expressa ou se torna mais ridículo, Célestine parece hesitante em se pronunciar ao ser perguntada por que razão está tão calada, tão estranha e se gostaria de desabafar com uma amiga compreensiva. Com muito esforço e alegando cansaço, ela pára, pensa um pouco, puxa o cordão do bisaco de cetim azul, põe-no tapando as insígnias douradas na capa de um caderno vermelho e se limita a dizer que o barulho da chuva não está sendo indulgente. A uma nova pergunta ela traz para si esses pertences e diz com severidade que detesta comemorar o Natal nas noites de breu. Outra senhora da vizinhança, desconfiando de que ela estaria escondendo algo, ou mesmo sob o efeito da alquimia beladonal, aproxima-se e diz num tom amistoso que está sentindo a falta da bela anfitriã no salão, não só dela, mas do seu riso, da sua fala comedida, enfim, de uma demonstração de amizade e consideração. Célestine esboça um riso sem graça, olha para o amplo salão, mas torna a abaixar a vista. Continua sentada próximo a uma luz tênue, por isso mesmo tem o lado esquerdo do rosto precariamente iluminado. Provavelmente não está lendo o que há pouco escrevera no seu caderno de capa vermelha, mas ouvindo os sinos alucinantes das dedaleiras ou tentando adivinhar o que sucederá tão logo se decida.

“O que será que a aflige tanto? Seria a chuva?”, pergunta-se o marido. Somente ele e os mais íntimos sabem que Célestine detesta receber visitas, talvez porque nunca foi capaz de demonstrar a mínima aptidão para gerenciar uma casa, ainda mais sendo uma mansão imensa, parte da França no Uruguai, mas não tão imensa quanto a sua indiferença ao cumprimentar de longe umas beldades exageradamente perfumadas, que se esforçam como podem para atrair a atenção do cônsul François Ducasse. Certamente desconhecem as razões pelas quais a anfitriã se ocupou durante todo o dia na orientação da criadagem, na arrumação da mobília, arrastando móveis pesados para locais mais adequados, polindo cristais, objetos de prata e bronze, pondo flores nos jarros, velas novas nos candelabros, azeite nos vasos das lâmpadas, sem contar que, apesar da falta de habilidade para as artes culinárias, fez pessoalmente a seleção das aves, aviou as receitas das sobremesas mais finas e selecionou as bebidas segundo a etiqueta exigida pelo marido para essas ocasiões. Até mesmo o cônsul François Ducasse está surpreso com a nobreza e o requinte que Célestine deu ao ambiente, só não quer entender por que motivo sua mulher está tão isolada, até mesmo do filho, que parece muito contente com seus presentes de Natal.¬

Lá fora, enquanto a chuva continua a vazar dos leitos para encher os mares por onde chegavam outrora os saqueadores de ouro e prata que enfeitam as igrejas e palácios do Velho Mundo, e também por onde ainda hoje saem os piratas nacionais que ajudam a abarrotar de riquezas e cobiças os cofres de reis corruptos, rainhas adúlteras e seitas espúrias, Célestine-Jacquette Davezac fecha novamente seu caderno, esvazia a taça de vinho com desastrosa displicência e sente que é hora de agir. É preciso pressa e frieza para que as intenções não a traiam furtivamente. Exorciza um raciocínio benigno que emerge em seu auxílio e deixa-se levar pela armadilha silenciosa que vem ao seu encontro como uma nau sem rumo, flutuando sorrateira para abrir um hiato em sua consciência, conquanto nessas circunstâncias todas as suas hipóteses são apenas sombras, e a certeza de que a existência só existe nos sentidos não passa de torpe ilusão ou de uma insuportável espera.

Sem dar tempo para interrogar-se sobre o significado imperioso da sua decisão, Célestine arrebenta do pescoço um colar de pérolas, levanta-se da poltrona onde lia uma versão corrompida do poema “o vinho do assassino” de Baudelaire, enxuga as lágrimas na manga do vestido, abraça-se com remorso seráfico e beija várias vezes o filho Isidore-Lucien Ducasse de dois anos incompletos, desculpa-se com gestos tímidos e repetidos ao marido, que não lhe dá a mínima importância pois conversa alegremente com dezenas de convidados na sala de estar do grande casarão, onde a senhora Marthe Damaré Ducasse, mãe do anfitrião, percebendo o desinteresse da nora pela festa, faz as vezes da dona da casa. Célestine olha-a com acridade volta-se novamente para o filho, mas não se atreve a interrompê-lo entre os brinquedos. Na pressa de se livrar das aflições, nem percebeu que seu filho pusera na boca um punhado de pétalas. Também não viu quando ele golfou no tapete e sussurrou que vira um pássaro negro cruzando velozmente o salão. Célestine desvia-se de uns convidados que vinham em sua direção, vai à cozinha, faz algumas recomendações aos serviçais, que se esforçam para entender sua voz embargada, entra no quarto, passa a chave, anda quatro passos em direção à cômoda, ao lado da cama, agacha-se, abre a gaveta inferior e retira a arma. Inobstante a tríplice recusa que fizera ao carregá-la momentos antes, sua mão direita enlaça com exatidão o cabo de madrepérola talhado sob medida, enquanto o indicador desprende-se instintivamente e avança trêmulo até o gatilho. Ouve pelas frestas do janelão entreaberto a voz severa da sogra pedindo silêncio a um grupo de crianças na varanda da casa. Alguém bate à porta com discrição e avisa que a ceia já está servida. Célestine sente vontade de retroceder, mas nada responde. Está pálida e as pernas não a sustêm com dignidade para a hora da celebração. Senta-se à cabeceira da cama, engole a salivação com gosto vinoso, comprime a ânsia que sobe do estômago à boca e, num impulso impetuoso, ergue-se triunfante, não para propugnar seu ato diabólico, mas para fixar a arma numa posição a qual por dedução será infalível. Célestine pressente que é observada por um Olhar oculto, mas infelizmente não irá abrir a porta do quarto para expulsar dali um hematófago que continua dependurado no teto como um pêndulo negro. Com a mão esquerda, afasta da fronte e prende por detrás da orelha suas madeixas ruivas, vira-se em direção oposta à janela, olha-se no espelho, exorciza os efeitos hipotéticos da última tentativa e deixa-se arrebatar pela decisão insubmissa. No salão alguém pergunta onde está Célestine. O silêncio da sua imagem parece cumprir à risca o repugnante papel de cúmplice, o que lhe dá a ilusão de poder desafiar-se para um duelo em que poderá controlar ou prever, de algum modo, o próprio destino. Toda a inquietação dos sentidos é refletida desse rosto imaculado, que se redime a um olhar oblíquo, tão cobiçado pelo filho, mas que agora parece débil e ao mesmo tempo apavorante diante de uma ameaça iminente. Faz uma pausa reflexiva e sente o apelo cruel dos anjos da desolação e o frio inebriante da sórdida trapaça invadindo o seu corpo. “Meu filho deve ser poupado”, pensa. Mas uma força horrífica ou mesmo a lei atroz que desregula a ordem de todas as coisas nos momentos mais inoportunos a induz submeter o mundo à medida de si mesma. Olha-se novamente no espelho, desta vez com os olhos ofuscados pelo ouro fulvo da luz de um candelabro e parece mais firme no propósito de seguir as curvas do ignoto para, ao final, assistir à própria condenação. Está claro que há nisso tudo uma ordem superior que exerce o controle da ordem natural. Mas a insubmissão de Célestine é alheia e superior à desordem que sugere uma ordem nova, a qual, se for incoerente com os seus anseios, ficará submetida à ordem estabelecida. Porém ela sabe por comprovada experiência que a sua vontade não irá se impor senão pela força da própria vontade. Como que submetida a uma desordem inferior, a mesma que tem o controle contínuo da sua mente, a chuva pára, os relâmpagos e trovões também. E ali, dominada pela potência sinistra de quem comemora um ato diabólico sem dar um só passo em tal direção, e indiferente ao tilintar dos cristais durante a ceia, Célestine recoloca a arma na posição, cinge a testa, contrai-se como uma felina ofegante diante de um cão, prende a respiração e, no preciso instante em que o céu é fraturado por um raio, aciona o gatilho. Um estampido ensurdecedor irrompe do quarto para além do estuário do Prata, quebrando o breve silêncio dessa quinta-feira natalina do dia 24 de dezembro de 1847, precisamente às vinte e uma horas, para anunciar o desastre fatal que aqui se dera, antecipando o que uns poucos desconfiavam, apesar da incredulidade. Desprende-se do íntimo dos que no salão se encontram uma única possibilidade, a qual, por dedução, já se pressente soberana. Subitamente, uma onda descomunal de histeria toma a todos de assalto no instante em que o cônsul François Ducasse, secretário geral da embaixada francesa em Montevidéu, homem inteligente, cortês e honrado, mas excessivamente autoritário, arromba a porta e vê, entre a cômoda e a cama, com a têmpora estourada e o sangue a jorrar por sobre o corpo, sua mulher desfalecer após um gesto de obstinação e violência contra si, e mais cruamente contra a pequena família. Nesse comenos, os primeiros que aí adentram, seguindo o cônsul François Ducasse, olham com desmedido assombro um hematófago girando desesperadamente sobre o cenário da ação. Em seguida um rufar de asas cruza a porta do quarto, contorna velozmente o grande salão e some na vastidão do Prata. Com a voz constrita e o sangue represado nas veias salientes do pescoço, o que lhe dá a expressão de quem gostaria de sumir no interior de um negro abismo, François Ducasse diz frases sem sentido e blasfêmias assustadoras, como se quisesse exorcizar a maldição do ato inumano.

Eugène Baudry e Eulalie Agregné Baudry, amigos do cônsul François Ducasse desde a juventude no Liceu Imperial de Tarbes, e padrinhos de batismo do pequeno Isidore Ducasse, abraçam-se aos prantos, apesar da escassez de sentimentos que os une. Maná, ama-de-leite e nicho de ternura do menino, larga as tarefas na cozinha e surge como um raio, olhando fixamente para o patrão com uma astúcia diabólica. Apesar das dificuldades de expressar-se devido à gagueira e ao seu francês de terceira categoria, todos percebem no seu olhar hipnótico e nos gestos de espanto e revolta que o cônsul François Ducasse não é poupado da condição de testemunha insuspeita. Como bene¬ficiária do próprio delito, Célestine já está ausente ao drama imperscrutável que precedeu a sua decisão. Seu mundo acabara de despencar sobre os pequenos objetos espalhados no soalho tosco do quarto. O casarão, como que incendido pelo desespero geral, enche-se de tristezas, brados, gritos e falatórios con¬trastantes. Ao mesmo tempo os olhares dos convidados, vizinhos e curiosos são invadidos pela angustiante visão estética do desastre. François Ducasse afasta Maná com um gesto brusco e tenta desesperadamente ressuscitar sua mulher. Não percebe que a cabeça de Célestine afrouxa-se do pescoço e derrapa no travesseiro do ombro, curvando-se em queda livre à frente, até não poder mais. Ainda não completamente convencido, ele insiste inutilmente em recostá-la à parede, mas os braços despregados dos ombros arqueados formam dois pêndulos perdidos, carnudos e flácidos de tanto ócio. Com as pálpebras caídas sobre¬ os olhos inundados pelos espasmos autômatos do derrame, Célestine des¬contrai o pulso, sua mão se abre, deixando a pistola de miquelete catalã escorregar lentamente. Ainda solta um suspiro curto, silencioso e, num rapto misterioso, alivia-se exangue, sem nada dizer ou deixar escrito. Seus olhos, meio abertos, denotam uma placidez distante e rapidamente seu rosto é encoberto por um veio rubro que vai se esgotando com suavidade, como numa fonte que brota e esgota-se no curso do próprio silêncio. Parece vingada de todos que a olham consternados, atraídos que estão pelo ímã da tragédia. Nada mais poderá afetá-la, senão a intensidade do mistério que desvela e o sentido contraditório de um poema que plagiara de Baudelaire e que lera para Maná, momentos antes de sorver a vida por negação.

Livre, afinal! Estarei morta!…

Ninguém me entende.

Algum canalha, dentre esses ébrios enfadonhos,

Conceberia em seus maus sonhos,

Fazer do vinho uma mortalha?

Esmagar-me a fonte culpada,

Ou cortar-me ao meio, que ao cabo,

Eu zombo de tudo: do Diabo, de Deus ou da Ceia Sagrada!

Quem ousaria dizer se Célestine levara consigo uma acusação na memória? Ou se o presente natalino, abandonado ao lado da sua mão direita, condenará a quem jamais esteve preparado para varar séculos e séculos transportando a máxima culpa? Exceto as suas confidências com Maná, ainda completamente estática, com as mãos tapando a boca para abafar o pranto e olhando absorta para o nada ou avaliando se é prudente ou não dizer o que pensa a respeito de um ato ímprobo, que transcende seu próprio aspecto expiatório, ninguém mais sabe, nem mesmo o marido, que Célestine aventara, naquela mesma tarde, a possibilidade de atentar contra a própria vida. Acariciando-a em absoluto silêncio e com os olhos turvos de lágrimas, Maná recorda o que dela ouvira momentos antes de começar a tempestade, que a ingestão de vinho, mesmo em quantidade moderada, propiciava-lhe depressões profundas, a ponto de torná-la capaz de grandes cometimentos.

Apesar dos gravíssimos comentários que ouvia sobre o envolvimento do diplomata com Vienne Duby, a jovem e bela secretária da embaixada da França em Montevidéu, Maná se esforça para não agravar a situação diante do menino. No entanto não consegue disfarçar o seu desequilíbrio quando é convidada a se retirar do quarto. Isidore Ducasse também está aflito ao ver manchas de sangue nas mãos da sua ama, que também se aflige ao vê-lo engulhar a angústia estrangulada no peito que soluça. François Ducasse sabe que fora estúpido com Maná, mas não se atreve a dar um passo adiante para se desculpar. Agora chora baixinho, acocorado no canto da parede, como se quisesse abafar a dor que sente, mas não sabe onde. Obviamente que Maná não ousa externar suas dúvidas, mas no íntimo continua intrigada com o propósito da sua expulsão. Fosse outra a sua condição social e se não temesse pecar por “falso testemunho”, não hesitaria em denunciar o nome de quem por aqui se considera insuspeito. Nenhum dos presentes parece disposto a levantar suposições acusatórias, nem mesmo a autoridade policial ousa inquirir as testemunhas que vão saindo do quarto totalmente mudas ou falando com as pausas e os receios naturais. Essas tampouco sabem explicar o que de fato aconteceu a quem vai chegando. Quanto ao misterioso aparecimento de um hematófago no espaço da tragédia, uns dizem mais do que testemunharam, outros muito mais do que ouviram dizer, os que nada viram nem ouviram logo começam a inventar histórias ainda mais absurdas, até que os desen¬con¬trados boatos sobre coisa satânica se propagam por toda a cidade. O vigário do Cordon, dr. José B. Lhamas, ao ser avisado do ocorrido, interrompe sua ceia particular e já vem vindo apressado prestar socorro espiritual, pois só ele tem o dom de transformar um cadáver em objeto de profundo respeito. Pelo que acabara de dizer ao legista, seguramente não sabe ou não quer admitir que a ética suprema é a ética do suicida, para quem a morte é uma solução definitiva, e não uma possibilidade de libertar a alma do claustro corpóreo. Abraçado ao cadáver, que ainda permanece numa incômoda posição, com a cabeça tombada na lateral da cama, o tronco retorcido contra a parede, esmagando as pernas no récamier e os braços caídos sobre a poça de sangue, François Ducasse, completamente fora de si, interroga a quem chega com gritos e gestos desesperados, ora de afeto e censura, ora de repulsa e raiva. Os crédulos mais fideístas, tentados a vincular tudo isso com algo que se associe à coisa satânica, não ousam entrar nesse casarão sem que antes se protejam com palavras em favor dos espíritos apenados, que nessas ocasiões costumam vagar nos espaços simbólicos de cada um.

Siderada pela frieza do legista diante da morta, Maná retorna ao quarto sem pedir licença. François Ducasse entende perfeitamente o que ela diria se os dois estivessem a sós: “É nessas horas que um pecador renitente é compelido a pedir ajuda do céu.” Em seguida ajoelha-se, levanta a cabeça em direção ao Altíssimo e pede forças para cumprir o seu restrito papel de mãe-de-leite e ama dedicada ao pequeno Isidore Ducasse. Nos seus ouvidos beatíficos ainda ecoam as últimas palavras de Célestine, agora confundidas com a voz rigorosa do inspetor de polícia, ordenando-a novamente a sair dali. Sem se importar com ninguém, Maná aperta com uma vontade preênsil a mão de Célestine e promete-lhe secretamente que cuidará de Isidore Ducasse como filho. Ao certo não está cien¬te de que terá pela frente um grande desafio.

Com os olhos cerrados em orações e murmúrios e as mãos agindo virtuosamente sobre o corpo decadente, François Ducasse implora ao vigário para que seu filho seja poupado de tanto sofrimento, como se pedisse também que o laudo obituário não coincidisse com a autópsia que será realizada logo mais pelas autoridades uruguaias. “Tudo isso deve ser abafado como um sonho”, pensa ele. Seu abraço indestrinçável ao filho contagia a todos que ouvem o seu pranto copioso e as súplicas virtuosas, repetindo seguidamente as mesmas perguntas: “Célestine, por que você fez isso comigo? O que será do nosso filho?” Os mais íntimos logo percebem que aquele desespero não coincide com a acusadora expressão de Maná, mas no íntimo admitem que o trágico acidente manchará de negrume a boa reputação do diplomata.

Marthe Ducasse, viúva de Louis Bernard Ducasse, preocupada em preservar a carreira diplomática do filho na chancelaria francesa em Montevidéu e temerosa quanto ao futuro incerto do seu único neto, dá a entender, antes mesmo de o médico-legista concluir o seu trabalho, que ali não há culpados e atestado de óbito não se faz necessário, já que pelo menos a vizinhança inteira está presente para confirmar o ocorrido. Alguma dúvida tendenciosa ou suspeição leviana, notadamente a suscitada tempestivamente por Maná, deveria excluí-lo de culpa. Mas a senhora Marthe Ducasse parece determinada a preservar o futuro da sua família, ali resumida a filho e neto, tanto que já decidiu adiar seu regresso ao sul da França para restabelecer a honra do cônsul perante a sociedade de Montevidéu.

Os curiosos continuam chegando e aglomerando-se nervosos em derredor do cadáver para ver com os próprios olhos o ocorrido. Os boatos são contraditórios e dão conta de que Célestine passara a semana antecedente ao Natal reclusa ao quarto, sem comer ou beber, mergulhada em profunda crise psíquica, a ponto de não saber da existência do filho ou do marido. Dentro e fora do casarão as bocas delatoras comentam reservadamente sobre a incômoda situação do diplomata, inegavelmente o mais assíduo freqüentador do Grand Hotel Pyramides, localizado na esquina das ruas Sarandi e Ituzaigó, na Place Constitución, onde os homens mais importantes de Montevidéu mantêm contas correntes em nome de suas cortesãs.

Ruminando velhos rancores, mas pedindo reservas ao senhor Eugène Baudry, a senhora Lorna Figueroa, viúva de um ex-sócio do hotel, aproveita a ausência de Vienne Duby, que no momento é consolada por Eulalie Baudry, e alfineta: “Não estou julgando ninguém aqui, mas esses senhores que fazem a família tremer de medo quando chegam em casa, que privam suas mulheres de uma convivência mais íntima de afeto, que restringem-lhes aos afazeres do lar e impõem-lhes rígida obediência, quando estão nos braços de uma meretriz qualquer são românticos, dóceis e gastadores. Isso é prova de que o adultério é uma fraude bisonha, comum aos amantes de hoje, mas pode denotar um erro retumbante, principalmente quando uma fadista desleixada já não consegue mais ocultar um adiantado estado de gravidez.”

Atenta ao que ouvira e com a consciência a acusá-la, não apenas pelo fato de haver contado o que sabia a Célestine, mas por haver facilitado o envol¬vi¬mento do cônsul François Ducasse com aquela que se tornou sua secretária particular, Eulalie Baudry, considerada a amiga mais próxima do casal, isso porque seu marido, além de conselheiro consular, é também importante agente comercial no Uruguai, sai à procura de um local reservado para conversar com Maná. Intenciona orientá-la naquilo que para todos se constitui motivo de maior preocupação: o menino. Indignada com mais uma intromissão inoportuna, Maná afasta-se de Eulalie Baudry, pois não concorda que os hábitos de sua patroa se tornaram estranhos para seus vinte e nove anos, ou ina¬pro¬priados para a posição social que ocupava ao lado do cônsul francês, considerado entre amigos um sujeito de fidalguia irrepreensível e, entre as senhoras da corte, um cavalheiro surpreendentemente bonito, jovem e viril, não raras vezes adoravelmente excêntrico ou soberanamente atrevido. Como resposta a uma nova pergunta, Maná fixa-se como uma parede diante de Eulalie Baudry, impedindo-a de abraçar o menino. Toma-o nos braços e diz, contendo o ódio, que ninguém deve subestimar os sentimentos trancados no coração de uma mulher, e que certas confidências são tão assassinas quanto as mãos que presenteiam alguém deprimido com um colar de pérolas e uma arma de fogo. Eulalie Baudry descontrola-se ao sentir nas firmes palavras de Maná que a abrupta apartação de mãe e filho será tão amarga para o menino quanto a chaga da solidão, que arrancar-lhe-á um pouquinho de vida a cada dia. Vendo as lágrimas que escorrem no rosto do seu afilhado de batismo, Eulalie Baudry balbucia algo sem nexo, que felizmente Maná não entendeu, e se tivesse entendido certamente diria em voz alta que as portas do casarão da família Ducasse nunca mais se abrirão para a corte provincial de Montevidéu, pelo menos em respeito à memória da sua patroa, que ultimamente andava muito triste, calada, sobretudo quando percebia o marido completamente dominado pelos olhares lascivos de umas aventureiras desejosas de prestígio e luxo.

Sem entender o que se passa, mas com uma angústia estrangulada no peito e correndo do quarto para a sala, onde minutos antes brincava com seus presentes, o pequeno Isidore Ducasse silencia como uma chama que sucumbe nas próprias cinzas, e se abate em prantos fortuitos diante da fixidez de dezenas de olhares intumescidos. Evidentemente que nos refúgios labirínticos da sua inocência, não percebe que a sombra sórdida desse triste episódio percorrerá seus passos por toda a vida e o privará de compreender que uma punição só tem sentido quando é compatível com a boa justiça, ou quando pretende uma recuperação útil para conduzir o condenado por um caminho luminoso na escuridão.

Com o esforço de oito mãos ou mais, o corpo de Célestine é parcialmente limpo e removido do chão para a cama e coberto com uns agasalhos de lã. “Era a primeira coisa que os senhores deviam ter feito”, grita Maná, que olha com desprezo para esses senhores de iniciativa tardia. De fato tardaram muito, por receio de mover o que por lei deveria ficar inamovível até a perícia concluir seu trabalho, porquanto, perito que se preza ignora que providência assim deveria ser urgente, nem que a limpeza do local da tragédia pode causar relativa diferença na instância dos julgamentos gerais.

A noite é entediante e muito longa. Na manhã seguinte, o cônsul François Ducasse mal se serve das pernas ao imaginar que sua mulher, a quem um dia jurou amor eterno, logo mais será depositada nas entranhas da terra. Como se não bastasse a opulência da tragédia sobre a sua consciência, o vigário do Cordon, depois de exigir, em troca de uma ajuda para sua igreja, uma missa diária durante o primeiro mês, decorrido o prazo uma missa de réquiem ao final de cada mês e mais tarde uma missa anual até o fim dos tempos, ainda o sentencia dizendo: “Em podendo o chefe desta família, que se penitencie e sinta na alma a dor e a contrição dos seus pecados e faça Deus vir à sua presença quando estiver aflito.” Nessas horas solenes em que todas as consciências se submetem às leis autoritárias, ninguém ousa adiantar-se aos hábitos mentais do seu tempo, por isso o cônsul François Ducasse tolera os argumentos pouco convincentes do vigário do Cordon, mas não repete em voz alta o compromisso de ignorar os seus desejos abundantes de manter a sina de uma austera viuvez, de honrar o Criador com sacrifícios eucarísticos, nem de orar pelas almas aflitas com a mesma devoção do sacerdote. Compenetrado como está no momento em que renuncia à hóstia consagrada, não há dúvidas de que o cônsul François Ducasse não tomara para si a máxima culpa, nem que carregará nos ombros o suplício de Célestine. O vigário do Cordon emudece por uns instantes. Talvez esteja arrependido por haver sido muito duro ao exigir deste homem em ruínas o que nenhum mortal pode cumprir. Mas o vigário não é nenhum sicofanta a ponto de dizer aos seus fiéis o que gostaria, ou seja, que o suicídio é uma forma radical de ruptura com qualquer fundamentação absoluta de valores e crenças. Talvez diga o óbvio, que a melhor verdade é aquela que melhor se impõe sobre as demais. Mas nada dirá, mesmo tendo a certeza de que é ultrapassada a fundamentação absoluta em que a tradição cristã confia. Porém, se mais tarde tiver a coragem de prestar os necessários esclarecimentos ao pequeno Isidore Ducasse, talvez lhe diga que o único sentido possível para quem se torna algoz de si mesmo é conhecer a verdade prática, não a absoluta, já que para um suicida nada é mais absoluto do que a morte.

Maná, que assiste à cerimônia final ao lado do menino, supõe que seu patrão tentará por todos os meios fazê-la esquecer o nexo causal de tudo que se relacione ao incidente natalino, antes que Deus, com a sua soberana compaixão, venha ressuscitar os mortos e revogar todas as leis que condenam os culpados ao fogo do inferno. Parece certo que o cônsul François Ducasse e seu filho continuarão por muito tempo ainda a ouvir o vigário dizer que os suicidas são almas penitentes e pessimistas por excelência, e que jamais descansarão em paz na eternidade, pois todo assassino de si mesmo é condenado ao sacrifício expiatório até o juízo final, quando Deus poderá ou não perdoá-lo.

Quando finalmente fecharam o ataúde de Célestine, o pequeno Isidore Ducasse, que também está trancado no seu universo privado, percebe-se condenado a cumprir um destino sinistro, cercado de mimos estranhos e de atenções¬ meramente compensatórias. Nesse momento tenso, nem mesmo a pro-messa sincera de Maná o impede de recriminar secretamente a atitude da mãe pela obviedade do privilégio de fazer justiça com as próprias mãos. Para desgosto geral, ele quer saber por que trancaram sua mãe ali, quer vê-la andando, brincando consigo, suplica a um e a outro que deseja ficar juntinho dela, saltita nervoso, mas a sua falação aos poucos vai perdendo o vigor, vem o pranto incontido, seguido dos engasgos convulsos provocados por essa tosse comprida, encatarrada, restos de uma coqueluche mal curada, ou início do mais puro suplício de uma alma ingênua que chora a sua dor, e, por doer tanto, suas lágrimas ardem e migram, e migram com mais ardência quando não se derramam só dos olhos, mas das profundezas escuras dos sentidos, sentidos virgens, nunca antes tocados pelos espinhos da vida, nem pela dor que escorre no seu rosto como um regato sem fim, e novamente ele demonstra uma certa incompreensão, um certo desespero, e se torna igualmente incompreendido quando olha para cada um e percebe o desfitar dos olhares que se escondem por detrás de cada mão ou de cada culpa.

2

Dormem no breu invulgar desse alvor árvores nuas, sem fragrância, quase mortas. Os ventos de invernia, salivados pelo orvalho da noite, ajudam a sepultar, por entre as folhas caídas, sementes exsudadas de frio, que haverão de germinar mais tarde, com o vigo da primavera. Os galos não cantaram ainda e os pássaros também dormem nas vastas planícies às margens do rio Prata, su¬doeste da América do Sul. Dentro de instantes veremos despontar ali, por detrás das fileiras de imensas colinas, a amena claridade daquela sexta-feira brumada e fria do dia 10 de junho de 1859, quando Isidore Ducasse dará sinais de que experimentara pela primeira vez uma noite insone. Levantar-se-á da cama e verá suas malas arrumadas sobre um criado-mudo. Procurará o pai, mas provavelmente não o verá em casa ao amanhecer. Tampouco receberá o rotineiro abraço da sua ama na cozinha. Maná pode ser vista no pomar, enchendo de milho os comedouros dos porcos e galinhas. Também se ressente por não haver dormido nenhum cochilo durante a noite e nesse dia não mostrará seu sorriso a ninguém, nem mesmo ao seu filho de leite, que já está de pé e aí vai aparecer, murcho como um galho decepado. O cônsul François Ducasse, que não dormiu em casa, por esta hora deve estar se despedindo da sua secretária no hotel das Pirâmides para ir saber notícias de sua mãe, que convalesce de uma grave enfermidade no hospital do Exército. Seguramente retornará para o almoço de despedida do filho. Assim deixou prometido ontem, mas já sabemos o que dirá ao menino se dele partir alguma pergunta, porque, como está con¬vencionado e aceito, ao pai compete decidir o momento para revelar ou negar certas coisas, razão pela qual raramente a verdade é a mesma para toda a fa¬mília.

Ainda não são cinco da manhã, e, quando os galos cantarem, veremos como as evasivas inutilizam as mais firmes convicções, e nós leitores entenderemos por que um alvorecer nem sempre é esplendoroso para quem desperta e não vê a luz do dia. Mas aquele sol virá e, quando a última estrela no céu se apagar, tudo que existe nas lonjuras e abismos às margens do Prata estará desperto para a vida ou a morte, porque nenhum destino se cumprirá neste influxo imaginativo, se não burlarmos os seculares paradigmas narrativos e as universais leis da tragédia, pois que esse alvorecer que antevemos não se findará num triste entardecer. E num descuido brevíssimo de quem adultera e controla a flecha do tempo, adiantam-se novamente os minutos, para que Isidore Ducasse adian¬te-se também e observe pela fresta do janelão, que dá vista para o pomar, uma imagem turva enxugando as lágrimas na manga do vestido. “Mãe, mãe…”, murmura ele, mirando a imagem eterna. Incrédulo, ele se apressa, abre a porta, pára os passos no alpendre e vê Célestine agitando os braços no relento, como se quisesse abrir caminho no espesso nevoeiro.

Há ocasiões em que a imaginação é mais fecunda do que as análises e previsões, como, por exemplo, quando propicia as mais amplas constatações interpretativas das coisas e dos fatos inexistentes. Noutras, quando os olhos são os únicos mediadores naturais para a apreensão de certos fenômenos visuais, todas as convicções tendem a declinar quando não estão indexadas a um conjunto de mecanismos interligados ao real. Mas não é fácil para o menino encarar o perfil que aí se revela na penumbra, ou melhor, se oculta, graças a essa luz difusa do alvor, a mesma que todos os dias alumia tantos destinos com impressionante fugacidade. Isidore Ducasse avança três passos, faz um gesto para alcançar o braço da mãe, mas recua desolado. Parece temeroso ante uma drástica mudança de definição da luz. Procura ordenar os pensamentos, mas nem isso consegue, pois teme perdê-la de vista no meio do espesso nevoeiro, onde as imagens criadas há instantes não invalidam as disputas recíprocas entre tantas subjetividades que conformam o seu desassossegado cotidiano. Tenta prosseguir, mas a sua indecisão é proporcional à tomada de consciência de outros fatos que irão acontecer se mais um passo adiante for dado. Um impulso de curiosidade aumenta muitas vezes a sua vontade de ir ao encontro. No entanto, submetida a uma alumiação opaca, sem uniformidade e simetria, a imagem que agora aparece diante de si não tem a mesma qualidade da que vira há pouco, colhendo o orvalho das flores no pomar. O menino faz um esforço enorme para deslocar-se de onde está, mas o esforço parece insuficiente. Seu corpo treme, os poros estão eriçados e nem mesmo o chão ele sente pisar. Também não percebe que nesses momentos qualquer displicência vem sempre acompanhada de alguma lembrança, esta que o fará sentir o quanto o panorama abrangido é obra da sua imaginação. Antes mesmo de tomar a débil decisão de correr para abraçar a mãe, ele pisca os olhos tentando limpar o natural ofuscamento, une as mãos contra o peito, eleva o olhar para o alto, como se lá procurasse algo que está dentro de si, mas infelizmente, nessa impensada distração, quem agora aparece lá adiante é Maná, iniciando mais uma longa jornada de trabalho a céu aberto. Agasalhada com um manto branco que herdara de Célestine, sua cútis pardo-escura realça bem mais a sua descendência banza, por certo a causa da sua mansidão, a sua sina. Brevemente Maná fará quarenta e cinco anos, mas o seu rosto já mostra rugas, sulcos e outras tantas impressões do desgaste. O olhar de Isidore Ducasse está perdido no nada. Nessa imobilidade, sequer pode ouvir o viço dos voadores que despertam na matutina paisagem, nem sabe que irá testemunhar uma cena de sacrifício que vem sendo celebrada há milênios. Maná abaixa-se bruscamente, pega um peru que está amarrado numa estaca, perscruta o altíssimo, faz o sinal-da-cruz com a mesma mão que usara para quebrar o pescoço da ave, e senta-se sem olhar para a atrocidade que acabara de cometer. Parece estar adivinhando que aquela será a última refeição que fará para Isidore Ducasse. O ato grotesco não deve ser conclusivo como uma síntese às vistas desse menino magro e alto, de olhar ígneo, cara seca e comprida, que se aproxima devagar, cheio de censura. Aí vem Isidore Ducasse, aos treze anos, protegendo-se do frio, e agora seu alvo acaba por ser mais vasto. Ainda não completamente desperto para pensar no que irá suceder no almoço, nem à noite, quando estiver em alto-mar, a bordo do Pireus, ele senta-se no retângulo da mesma pedra em que sua mãe costumava mascar pétalas opiáceas para se aliviar das enxaquecas, enquanto observava a bicharada comendo sobras no pomar. Num gesto automático, sua mão esmaga uma flor lilás e leva-a à boca. Tal atitude permanece indexada ao seu estado de espírito, mas seus olhos continuam divididos entre o que vira antes e o que agora assiste. Está completamente mudo ante a agonia frenética da ave. Bem mais silente está a bicharada, a passarada, em estado de alerta. Abalada com a inoportuna presença, Maná levanta-se, pára adiante da pedra, mas não o impede de ver a cena final. Isidore Ducasse não ouviu o que ela dissera, nem o que agora repete, convicta que é nos presságios e superstições, que toda criança, após assistir à morte do bicho que irá comer, carregará por toda a vida um trauma insuperável. A cada novo olhar o panorama se alterna inexplicavelmente. Isidore Ducasse salta da pedra, aproxima-se ainda mais, e só deixa de olhar para o chão quando não ouve mais o rufar de asas da ave abatida. Ao ouvir um trissar triste no espaço, ele vira-se rapidamente e acompanha com atenção o vôo de um hematófago solitário que atravessa as curvas de um arco-íris e desaparece na fundura celeste. Ali adiante, encimando a velha castanheira do pomar, passa grasnando uma águia negra, de olhos azuis e bico vermelho. Ao ouvir esses sons agourentos e já estando ciente de que algo sinistro irá acontecer, Maná se benze três vezes e pede proteção aos céus. Apesar de reprimido entre tantos olhares ocultos, Isidore Ducasse eleva o seu para o alto e vê com atenção o frenesi alar de uma coruja branca pairada sobre a cumeeira do estábulo.

“Mãe, mãe, olha aquelas garras. Tenho medo delas. Vai-te daqui, vai-te daqui”, grita ele com pavor. Não sabemos em que língua ou dialeto Maná expressou o seu nervosismo, mas o menino entendeu e até pôde lembrar que a última aparição desses voadores ocorreu precisamente na manhã do sinistro dia em que sua mãe pôs fim à vida. Nesse comenos, eis que novamente a mão trêmula de Isidore Ducasse leva à boca umas pétalas salivadas pelo orvalho da manhã. Em seguida, volta-se e olha com dignidade para uma galinha aninhando seus pintinhos no pedregulho do estábulo, como se tirasse sombrias conclusões a respeito daquela união ameaçada. Percebendo a fragilidade reticente e ambígua que persiste entre tantas espécies movidas por vorazes instintos, ele vira-se para Maná como se quisesse dizer algo. Está pálido, trêmulo e, num espasmo estomacal, golfa no peru morto o que acabara de comer e também o pó-de-siba com o qual esfregara os dentes ao levantar-se. O silêncio entediante de Maná não é interrompido nem mesmo quando a coruja branca aproveita um brevíssimo descuido da galinha, captura um pintinho e vai esconder-se nas matas mais escuras, longe da luz, onde o milagre da sobrevivência não é uma brutal violação das leis naturais. A melancolia que empasta os olhos de Isidore Ducasse tem uma razão jamais dita, mas seus pensamentos são facilmente dedutíveis. Uma morte operada por mãos que acariciam e amamentam as crias¬ apartadas no pomar e outra, por garras traiçoeiras, são contradições grotescas para quem ainda tem aversão a todo tipo de violência e suas variantes de causalidade. Compreendendo o que se passa e tendo a certeza de que suas mãos ficarão definitivamente impedidas de acariciar o filho de leite, Maná arrepanha o peru pelos pés e segue apressada para a cozinha. Doravante, a tarefa que tomará todo o seu tempo será a de enxugar as lágrimas após se consumar uma separação que roga ou supõe temporária.

A refeição já estava servida quando o cônsul François Ducasse sentou-se à cabeceira e apoiou os cotovelos no tampo da mesa. Apesar da precária lumi¬nosidade do ambiente, percebe-se que ele está tenso, soturno, e a sua frente senta-se o filho, em estado pétreo, olhando com repugnância para uma coxa de peru que Maná pusera no seu prato. É agora, mais do que nunca, um desamparado tristonho, como toda criança insegura, e nutre pelo pai um sentimento obrigatório que consiste exatamente em respeito e medo. Maná, ali de pé, disposta a alimentá-lo, finge que não ouviu o patrão dizer, num tom queixoso, que ela deveria ter esperado um pouco mais, pois ele convidara sua secretária para o banquete de despedida do filho. Mas esse tropel de ferraduras puxando o fiacre diplomático é por demais conhecido por aqui, tanto que Maná já se prostrou à porta para dar entrada a esta que chega desvestindo o casaco, as luvas e, após uns cumprimentos cheios de falsas reservas, já vai sentando-se à mesa como se o banquete fosse em sua honra. Maná volteia a mesa e posiciona-se novamente ao lado do menino, que lança um olhar de reprovação ao ver que a convidada sentou-se ao lado do seu pai. Bem mais desprezível é o olhar de Maná, que por óbvias razões não moverá as travessas de comida para Vienne Duby, pelo menos enquanto não for ordenada pelo patrão, que se demora um pouco acendendo os candelabros da sala. Enquanto a convidada improvisa a mudança das louças e talheres para si, o silêncio reina no salão e certamente ninguém aqui ousará quebrá-lo antes do cônsul, que por falta de palavras já começou a devorar o fígado do peru. “Este é o melhor pedaço”, diz ele ao filho, que não levanta o olhar e pelo visto não pretende descruzar os braços. Vienne Duby procura disfarçar o constrangimento fazendo um elogio ao banquete, aos potes de doces no apoiador, aos arranjos de flores, mas Maná continua muda, remoendo-se por dentro. Sob a luz suave do candelabro a expressão que se observa no rosto de Isidore Ducasse é de tortura. Seguramente que já percebeu os olhares de cumplicidade entre seu pai e a secretária da embaixada, que também está tensa, e tem motivo para tanto, afinal só ela tem conhecimento de que o cônsul François Ducasse passara as últimas semanas remoendo uma decisão dificílima, supostamente para o bem e a segurança do filho. Poupá-lo das epidemias ou perdê-lo por omissão ou cobiça seria o pior dos egoísmos paternos, um risco que ele não pretende correr. Maná conhece bem o seu lugar e sabe que não deve opinar sobre o que sucederá após o almoço, ou mesmo durante, afinal não é em si que pensa, e agora mesmo já começa a dar sinais de arrependimento por haver dito ao patrão que preferia saber notícias de Isidore Ducasse obtendo boas notas na França a vê-lo submetido à tirania de uma madrasta desleixada, ou ameaçado pelo vibrião da cólera, peste bubônica e outras doenças que avolumam os cadáveres nos aterros públicos e nos cemitérios uruguaios.¬ Incomodada com a constrangedora situação, Vienne Duby diz ao menino que estivera no hospital do Exército visitando sua avó, Marthe Damaré Ducasse, e que ela, se Deus quiser, em poucos dias estará curada. Como não há prosseguimento do assunto, ela chama para si o garrafão de vinho, abastece as taças e sugere um brinde. “Um brinde a quê, senhorita?”, pergunta Maná, que a olha com nítida reprovação. “Ora, vamos brindar primeiro pelo sucesso de Isidore Ducasse na França, segundo pela recuperação da minha futura sogra”, responde ela com vigor e em seguida despeja a taça de vinho garganta abaixo, num gesto que é correspondido com uma certa frieza pelo cônsul. Enquanto Maná vai movimentando as travessas para que todos possam se servir com mais comodidade, Isidore Ducasse observa com repugnância a falação da inoportuna convidada. Indiferente ao drama da família, Vienne Duby confidencia ao amante que não suporta mais o patrulhamento que vem sofrendo da parte do subsecretário geral da embaixada e diz que prefere pedir demissão do cargo a ficar impossibilitada de acompanhar o cônsul durante suas viagens. Com destreza e fome, ela espeta o garfo no peito do peru e vai trinchando e comendo aos bocados gulosamente. Maná continua de pé, despejando o olhar sereno nesse que finge estar comendo, mas que de fato apenas desliza o olhar nos objetos da sala, como se o seu mundo ficasse resumido ao que os olhos alcançam.

Lisonjeada com a promessa de acompanhar o cônsul francês em suas viagens, não só ao Brasil, mas nas missões que se estenderão por todo o continente sul-americano, a secretária continua tagarelando como se não percebesse que as fisionomias começam a revelar os constrangimentos de recordar um passado que juraram sepultar para sempre. François Ducasse continua mastigando lentamente, não para dar tempo a sua secretária de se servir outra vez, mas porque precisa decidir se retomará ou não um assunto delicado, interrompido tempestivamente na última conversa. Olhando para o filho, o que agora sente não é muito diferente do que sentiu há onze anos, quando as más línguas insinuavam que Isidore Ducasse talvez não fosse seu filho legítimo, mas fruto de uma relação espúria de Célestine com seu compadre, o agente francês Eugène Baudry. Em dado momento o cônsul se impacienta com a falação da amante e diz grosseiramente que precisa de silêncio para tratar de uns assuntos domésticos com o filho. Incomodada com a hostilidade do olhar de Maná, a moça desculpa-se, alega um compromisso inadiável no consulado, pede licença, recolhe seus pertences e sai.

Aceitável é, portanto, que neste preciso momento, pai e filho, como que dominados pelos mesmos receios, não se olhem diretamente. Mas quando cruzam os olhares, nenhum dos dois se mostra capaz de se exprimir com palavras, senão quando percebem que as lágrimas já embaçam todos os olhares. Maná também não resiste e pede licença, deixando-os a sós. Já supõe o que será dito e em que circunstância acabará a reunião familiar. Tentando restabelecer a harmonia, o cônsul François Ducasse pede que Maná faça o obséquio de levar ao quarto do filho um atado de cartas que está na gaveta da sua escrivaninha. Em seguida pede a atenção do filho, que continua cabisbaixo, para falar dos seus avoengos tempos de estudante no sul da França. Quer aproveitar o ensejo para preveni-lo quanto aos inconvenientes de uma possível relação de amizade com uns parentes que ainda vivem nas cercanias das vilas de Tarbes e Pau.

“Meu filho, graças ao desprendimento afetivo do seu avô, o velho Louis Bernard Ducasse, que você não chegou a conhecer, pois faleceu quando eu tinha vinte e um anos, a 30 de agosto de 1830, e também aos meus esforços individuais, fui o único da família a prosperar na vida. Ainda lembro do dia em que seu avô chegou à colônia agrícola em Bazet, por volta de 1821, e disse que havia me matriculado numa escola pública em Sarniguet. Chorei desconsoladamente. Nem mesmo a mudez de mamãe conseguiu demovê-lo da firme idéia. Foi terrível deixar as facilidades de casa aos doze anos, tendo de ouvir meu pai dizer secamente: ‘Esforce-se para ser aceito na sétima série.’ Tempos depois, novamente contrariando a geral opinião, seu avô apareceu na escola e me persuadiu a prosseguir o ciclo ginasial em Tarbes e o colegial em Pau. Sem contar os cinco anos do primário, passei mais sete, até completar o liceu, em 1828. Tendo em mãos um baccalauréat, quando pensei que poderia regressar para casa com intenção de instalar uma sala de aula em Bazet, eis que novamente fui despachado para iniciar os estudos superiores em Paris. Nem despedida houve, pois era tempo de colher uvas e seus avós precisavam de dinheiro para custear as minhas despesas. Depois de cinco anos de privações em Paris, finalmente consegui o diploma e um posto burocrático na Chancelaria, onde trabalhei até 1838. Portanto, sei perfeitamente o que você sente agora. Passei por tudo isso. Mas acredite-me, meu filho, ao final você será vitorioso e se orgulhará das suas conquistas.”

Isidore Ducasse tem algo a fazer no pomar, mas permanece impávido, ouvindo o pai dizer que é prudente não contar com a ajuda de estranhos e muito menos de parentes invejosos. Após uma pausa para recompor-se, o cônsul François Ducasse insinua que tem um importante assunto a tratar. Isidore Ducasse imagina o pior, mas logo se recompõe quando o pai começa a elogiar um amigo de infância, que é professor e procurador de justiça em Tarbes. Apontando para a imagem de uma mulher branca, rosto fino, e olhar singelo, que usa cabelos ao ombro, repartidos ao meio, o cônsul François Ducasse diz ao filho: “Jean Dazet é um sujeito extraordinário e Madeleine, sua mulher, cuidará tão bem de você quanto cuida de Alexis-Edouard-Georges Dazet, seu filho de sete anos. Confio mais nesse casal do que nos meus parentes do sul da França, que são invejosos, mesquinhos e odeiam a quem prospera na vida. Meus primos, que vivem do campo, são avarentos, carolas e muito desconfiados. Os que venderam suas glebas para os latifundiários da uva dilapidaram tudo nas aventuras ateístas e hoje vivem miseravelmente à custa do Estado. Lamento dizer isto, mas é pura verdade. Os familiares da sua mãe são ainda piores do que os meus. Além de pobres de espírito, são pessimistas, violentos e rancorosos. Até hoje nada se sabe sobre o envenenamento de Dominique Davezac e Marie Bédouret, seus avós maternos, ocorrido em 1848. Mas há quem diga por lá que a partilha da herança deixada pelos velhos foi motivo de muitas desavenças familiares. Soube que os Davezac, por falta de ocupações definidas em Tarbes, vivem pregando a doutrina comunista nas glebas camponesas, instigando a revolta, a luta armada e o esfacelamento do Estado. Eu mesmo não quero aproximação com eles, não só por esses motivos, mas devido a umas insinuações que fizeram sobre o que aconteceu com sua mãe. Da parte deles, suponho que também repudiam qualquer aliança conosco.”

Habituado a chorar sozinho, Isidore Ducasse levanta-se sem pedir licença ao pai e segue em direção ao pomar. “Volte aqui, filho, precisamos conversar sobre a viagem.” O menino retorna e senta-se calado. Tem agora apurada convicção de que vãs serão as palavras encorajadoras do pai e mais ainda um gesto de afeto de Maná, interrompido porque fora mandada apanhar água na cozinha. Descabido é, portanto, depois de tantos anos de silêncio, François Ducasse pretender suscitar o que houve noutros tempos, quando o nome de Célestine era pronunciado com reservas em Montevidéu. Isidore Ducasse diz ao pai que sente ânsias de vômito e que seu estômago dói. Já demonstra possuir certos princípios éticos e morais, que ainda não são princípios consolidados, mas receios ou mesmo medo, por isso não tarda em desculpar-se com Maná pela falta de apetite. Do outro lado da mesa, seu pai larga os talheres, afasta de si o prato, engole sem mastigar a porção de sobremesa que ia comendo, abaixa a cabeça e quando começa a dizer que tudo o quanto se sabe a respeito do acidente natalino não é inteiramente verdadeiro, e que chegou o momento de esclarecer a verdade, Isidore Ducasse não retém um gesto intempestivo e diz: “Pai, não quero saber. Não quero saber…” “Calma, filho. Sei que não é hora, mas, enfim, precisamos dar um fim a esse embaraço que fingimos ignorar. Já não há tanto tempo, você viajará logo mais, uma viagem longa e sabe Deus quando nos veremos outra vez.” Mal François Ducasse começa a falar do passado, o menino aparteia-o e diz: “Minha mãe ainda estaria comigo não fosse…” “Não fosse o quê? Diga claramente.” “Aquela maldita secretária, sua amante, e aquele infeliz presente de Natal.” “Filho, não seja injusto. Ninguém teve culpa.” “Teve sim, por isso odeio esta casa, odeio os Baudry, odeio minha avó, odeio o mundo…” Já ia levantando-se quando François Ducasse ordena-o a continuar¬ sentado. Ele alega que precisa vomitar, mas o pai não se importa. Com nítida agressividade, à luz do salto de fúria, Isidore Ducasse atira uma taça de vinho contra a parede, manchando de rubro o retrato da família. Maná corre para ver o que se passa. François Ducasse parece aturdido com a reação inesperada do filho, agora de pé, sobressaltado. Ao vê-lo saindo sem pedir licença, seu único gesto consiste em desafrouxar o cinturão. Maná alinha-se entre pai e filho implorando calma e paciência. Súbito, Isidore Ducasse começa a vomitar o pouco que comera e também uns desaforos contra o pai, até que recebe uma dura chicotada. Isso já era esperado, como esperado é o arrependimento que vem trazendo um pranto bem mais inconsolável do que se podia imaginar numa véspera de despedida. François Ducasse está profundamente abalado, mas não sabe como demonstrar o seu arrependimento senão forçando o filho a surrá-lo com o mesmo cinturão. “Vamos, bata em mim, bata em mim.” Mas não há rea¬ção. Profundamente constrangida com a forma inédita de um pai punir o filho, Maná lança-se de encontro ao cônsul e retém consigo o instrumento de açoite. François Ducasse arrepanha o cinto e diz: “Saiba que surrá-lo dói muito mais em mim do que você imagina, meu filho.”

Até então Isidore Ducasse nunca havia sido desatencioso, descortês, nem rebelde com seu pai, mas desta vez já não o escuta, não o olha nos olhos, nem quer saber o que estará ele pretendendo desabafar. No atordoamento das próximas horas, permanecerá trancado e não sairá do quarto, pelo menos até ouvir novamente o tropel de cavalos e os sinos da carruagem que anunciarão o prazo que se vai findando. Nenhum êxito teve Maná para que ele abrisse a porta. No quarto contíguo o cônsul François Ducasse aguarda ansiosamente uma oportunidade para provocar a reconciliação. Se entrementes deseja fazer as pazes com o filho, que se apresse em tomar uma decisão. Há coisas que só o tempo sabe resolver, uma delas é abrandar os ódios, a outra é revogar o que não é sentimento verdadeiro. Se a expectativa da despedida é tão forte quanto as mágoas recíprocas e os orgulhos feridos, nesses momentos conflitantes não convém a quem manda tornar a importunar a quem obedece, pois é nessas horas que mágoas e orgulhos se convertem num tédio insuprimível.

Insone e sem ter o que fazer nas próximas horas que precedem o embarque, Isidore Ducasse deita-se de peito para cima e sua mão esquerda topa no atado de cartas que Maná pusera sobre sua cama por ordem do patrão. A tímida claridade que vem pelas frestas da janela desenha no seu olhar um atado de envelopes desbotados, aparentemente sem nenhuma organização lógica. Quando o cuco anuncia a hora no salão, Isidore Ducasse sobressalta-se. Maná, que já cumpriu suas tarefas sem dar uma única palavra, é tentada a ir espiá-lo pelas frestas da janela. Na ponta dos pés, ela sai pelos fundos do casarão, contorna a cozinha, sobe os batentes do alpendre pelo lado do pomar, olha em derredor, como nada vê, espera o abrandamento da respiração, em seguida achega-se à janela e vê sua cria-de-leite enfiando na mala o bisaco de cetim azul, supostamente o mesmo que ela guardara consigo por todos esses anos, e se for aquele que encontraram na cômoda de Célestine, deve estar cheio de pétalas opiáceas desidratadas. Em seguida ele levanta o colchão da cama, retira com cuidado um caderno de capa vermelha, com as insígnias de Célestine em dourado desbotado, e enfia-o na mala. Só depois retorna à cama e põe a mão no atado de cartas. “Não vale a pena começar a ler o que não haverá tempo de terminar”, pensa Maná, que nesse momento afasta-se da janela para enxugar os olhos.

Igualmente contraído e abafado deve estar o cônsul François Ducasse, que dera os nós nesse atado num dia em que seu peito rosnava de tristeza. Amarradas continuam as cartas, agora sobre a cômoda de mogno, à espera de uma atitude. “Quem ao invés de um laço dera nós sobre nós num atado de papéis, a intenção não teria sido outra senão dificultar a vida de quem aí vai pondo as mãos”, foi o que traduzimos dos pensamentos de Maná. Se calma tiver Isidore Ducasse, tentará desfazer o atado sem cortar os cordões. De outro modo, não vamos estranhar que tanto poderá ele abandonar a tarefa, o tempo é escasso, como poderá recorrer a um instrumento cortante, a navalha do pai, que guardara consigo, não sabemos para quê, se ainda é imberbe, mas temos certeza de que não fora com a intenção de libertar rapidamente os conteúdos das amarras em questão. Se decididamente ele pretende fazer uso dessa navalha, só mais tarde saberemos. Por enquanto seu pensamento está voltado para a adoção de um critério que facilite a ação dos sentidos sobre a ordem dos conteúdos. Talvez que, tão logo desfaça os nós, seus olhos possam identificar aí alguma organização prévia, que facilite a distinção dos assuntos, que tanto poderá ser por ordem alfabética de destinatário, por hierarquia relativa de sua importância no contexto, como por ordem cronológica, ou ainda pela aspereza das palavras, mas nunca por simples justaposição aleatória, ou simples juntar de¬sordenado de papéis, como ficarão estes após a leitura que já começou.

Tarbes, 10 de novembro de 1822 — madrugada de domingo.

Senhor meu pai e senhora minha mãe: esta carta não é uma ameaça. Mas se decididamente não vierem no fim do mês, no dia seguinte fugirei daqui e vocês nunca mais terão notícias minhas. Saibam que ainda sou ligado à nossa casa, às comodidades do campo, razão por que estranho tudo aqui. Por melhor que sejam as diversões, prefiro voltar. Escrevam-me, dêem-me boas notícias. Lê-las é como se conversássemos durante o dia inteiro. F. Ducasse.

Pau, 1.º de outubro de 1827 — segunda-feira, fim de tarde.

Meu pai, faça-me o favor de dizer à mamãe que estou emagrecendo. Não me atrevo a insinuar se de saudade, de fome ou de ódio. Mas se esse maldito fastio continuar, não sei o que será de mim. Agora vem o pior: ontem mesmo recebi outra notificação do proprietário. Se o aluguel do quarto não for pago em trinta dias, serei despejado sumariamente. Isso implica que perderei a vaga, e tudo o que vocês planejaram para o meu futuro irá por água abaixo. Pensando nisso, só nos resta pedir ao bom Deus uma boa safra de vinho… F. Ducasse.

Pau, 1.º de novembro de 1828 — sábado feio e chuvoso.

Meus queridos pais: vejam o que me disse ontem o professor de retórica deste insuportável Liceu Imperial: “François Ducasse, decididamente o senhor não tem nenhuma vocação para filosofia. Por mais que tente mostrar um ar intelectual, sempre irão te achar mais afoito do que preparado e mais falastrão do que reflexivo, principalmente estando tu por perto de alunos mais adiantados.” Pai, não é um imbecil? Tive vontade de quebrar-lhe a cara. A boa nova: estou a um passo de terminar o ciclo do liceu. Curso terrível. O diretor já selecionou os repetentes e meu nome não está na lista. Graças a Deus. Escapei por pouco. Notas de louvor, nem pensar. Mas o que isso importa? Até breve. F. Ducasse.

Pau, dezembro de 1828.

Mamãe, hoje fui severamente criticado por haver recusado a prestar serviços na caserna. Escapei milagrosamente. Pai, segui os teus conselhos à risca. Aleguei que sofria da vista, da coluna, de asma e de dores de cabeça. Ora, a quem devo provar que sou consciencioso? Se houver uma guerra, os primeiros mortos serão justamente os patriotas, depois os inocentes e só depois os comandantes. Eu me alistaria se me garantissem um posto de comando. Mesmo assim seria desprezar a oportunidade de me tornar alguém mais importante, talvez um professor em Bazet ou Sarniguet, onde poderei ser mais útil ao meu país. F. Ducasse.

Paris, 10 de junho de 1830 — quinta-feira.

Meus queridos pais, quanta saudade. É terrível imaginar que depois de doze anos de estudos, ainda faltam mais três para a minha formatura, isso sem falar que ainda terei mais um de prática diplomática. Estou lutando com ardil para conseguir uma vaga na Chancelaria Geral. Só depois, se a sorte me aprouver, poderei restituir os gastos que vocês tiveram e continuam a ter comigo. Quando será que poderão vir a Paris? Papai, muito obrigado pela mensalidade extra, deu para comprar os dois livros de que preciso. Faça-me um favor: dê muitos beijos em mamãe por mim. Até breve, se Deus quiser. F. Ducasse.

Paris, 10 de agosto de 1830.

Minha querida mãe, venho lamentando profundamente não ter podido ir assistir ao enterro do nosso velho Louis Ducasse… Hoje, mais do que nunca, estou com muitas saudades dele. Tanto esforço para me dar um futuro glorioso e sequer pôde ver o meu diploma do liceu. Às vezes temo que tu morras, como ocorreu com o nosso pai, sem que ao menos eu possa chegar a tempo para assistir ao teu velório. Semana passada ele me apareceu em sonhos. Seria pedindo rezas? Diga-me o que tu achas… F. Ducasse.

Paris, 6 de maio de 1832 — domingo de sol.

Mamãe querida, hoje estou radiante. Nem pareço aquele solitário que vivia chorando toda vez que lembrava do meu finado pai. Ontem tive momentos encantadores no palácio dos Ministros, à rua de L’Université, 36. As donzelas ficaram esvoaçantes quando me viram chegar na carruagem oficial da Chancelaria Geral. Toda aquela pompa se fazia acrescer do meu perfil de aristocrata e intelectual. Mais atiradas ficaram quando descobriram a minha erudição em História. Já começo a sonhar com os loiros da vitória. Imagine o que papai diria, vendo o seu filho sendo escoltado por auxiliares empoados, vestidos em trajes agaloados, indo para um jantar no palácio de Versalhes. Ocorre que fiquei amigo do cocheiro e ele, em troca de uma propina, arranjou-me tudo isso… F. Ducasse.

Paris, terça-feira, 1.º de junho de 1833.

Mamãe, estamos há mais de três anos sem um único encontro, sem nenhum abraço. As tuas cartas estão ficando esporádicas. O que está havendo? Já fui esquecido? Tu, querida mãe, não podes imaginar a importância de uns afagos nas horas difíceis. Sei das dificuldades, mas se a safra for boa venha passar uns dias comigo em Paris. Faremos uns passeios inesquecíveis. F. Ducasse.

Nesse comenos em que as palavras de seu pai expressam fielmente toda a sua inquietação sentimental, o cuco anuncia que é chegada a hora dos preparativos finais para a partida. Isidore Ducasse sobressalta-se ao ouvir as pisadas do pai na passagem do quarto para o gabinete, contíguo à biblioteca. Já ia largando as cartas sobre a cama, quando lembrou-se de que precisaria deixar o atado em ordem, tal como ali o pusera Maná. Na pressa, ele envelopa a primeira carta, a segunda, a terceira relê nesta uma frase de afeição do seu pai para seu avô, prossegue o serviço, quando então lembra de sua avó, que está hospitalizada, formula o primeiro juízo, o segundo, foram-se os dois, surge o terceiro, que não deve ser revelado aqui, pois não se trata de um pedido de desculpa ao pai, mas a Maná, que seguramente gostaria de estar ao seu lado até o último instante.¬

Diante do espelho, fazendo rápidas e precipitadas consultas à consciência, François Ducasse começa a lembrar dos momentos angustiantes que antecederam sua ida para o internato, e também das circunstâncias terríveis em que escrevera aquelas cartas, ora tratando seu pai com afeto, ora secamente, verdade seja dita, sofrendo muito, pois nesse tempo a dor em família ainda era objeto de profundo respeito.

Quando retorna ao salão, culpando-se pelo sofrimento do filho-de-leite, Maná abre as janelas e repara bem longe, para além das colinas, uma formação de nuvens chuvosas. “Será que vem tempestade?” Já ia pedindo uma graça ao santo, ou soltando um esconjuro contra o demônio que consentiu a vinda da senhorita Vienne Duby ao banquete de despedida de Isidore Ducasse, quando um rufo de asas passa rente aos seus ouvidos. Nada pôde ver no instante do susto, ou do mau-presságio, porque num átimo de tempo, seu olhar correu na direção de um impacto seco contra a parede dos quadros de família. Simultaneamente ao rufar de asas e ao impacto, Maná teve a impressão de que vira na parede a imagem de um casarão em ruínas, como em geral andam a maioria dos lares do mundo. Pressagiada com a súbita visão, Maná pronuncia o nome de Célestine, o de Pedrito, mas ninguém responde. Já ia se inclinando para apanhar o retrato da família que se espatifara no soalho, quando sentiu uma fisgada muito aguda no peito. Obviamente que sua mão foi mais rápida do que sua vontade, tanto que antes mesmo de alcançar os destroços no soalho, acorreu ao peito para aliviar a dor. Se pudéssemos deduzir que a causa dessa fisgada tem ligação com o mau-presságio súbito, isso facilitaria o nosso ofício narrativo, porquanto, limitados pelos signos de linguagem, não sabemos descrever precisamente que intensidade tem a dor alheia, nem por que um gesto de socorro é quase sempre tardio. Que essa dor passe por si mesma, como de fato já passou numa elipse verbal, duplicando o tédio de quem, por ofício cegante de servir, jamais dirá que as causas das nossas dores quase sempre estão muito perto de nós.

Os soluços de Isidore Ducasse agora podem ser ouvidos do gabinete onde o cônsul François Ducasse se esforça para apagar as lembranças do tempo em que sua família vivia feliz e que se podia respirar docilidade em tudo. Mas infelizmente os tempos mudam, levando impiedosamente tudo que lhe é contem¬porâneo. A cria mimada de Célestine, nessa enigmática atitude de iso¬la¬mento, não esconde que também sabe guardar rancores, ódios e outros sentimentos que amanhã se expressarão melhor nos seus desvios de conduta. Depois de haver lido muitas cartas tristes, Isidore Ducasse está ciente de que nem sua mãe, se viva fosse, teria chance de persuadir seu pai a mudar de idéia. Por mais legítima que seja a sua decisão de não demonstrar sentimentos, dificilmente haverá de conter as lágrimas no instante em que começar a ouvir o trotar dos cavalos e o ronco grave e contínuo das rodas do fIacre que irá levá-lo ao porto. Como que antevendo o que irá suceder, ele começa a sentir o peso de uma depressão insuperável, que o mais das vezes se exprimirá por uma agudíssima dor no íntimo, dor que há dias retine no peito desse pai que o aprisiona com seus fantasmas familiares ou com suas neuroses de angústias, as quais, em verdade, são heranças patológicas antiqüíssimas que amanhã traduzir-se-ão no filho por uma inibição desmedida, degeneração de afetos, desânimo, insônia e outros sintomas que poderão ser confundidos com melancolia, ou com algo que só haveremos de compreender quando a relação doentia entre opressores e oprimidos chegar ao fim, ou provavelmente quando os fatos a serem narrados puderem se acomodar na sua própria dimensão. O leitor, certamente, que como nós acredita mais na Providência celeste do que nas próprias fibras, logo entenderá que, não podendo Isidore Ducasse superar a sua dor, haverá de admitir mais tarde que as dores preexistem ao ser, como intuíam os seculares poetas, a psicanálise ainda não, conquanto por esse tempo Sigmund Freud andava de calças curtas nas ribeiras escorregadias em Freiberg, cujas margens deviam ser bem mais firmes do que o inconsciente humano, em cujo lodo derrapam todos que acreditam ter a depressão um remédio definitivo. Queiram os céus que sim, e também as criaturas que desse mal sofrem, pois quem luta em desvantagem contra si próprio sabe, por experiência vivida, que indivíduo e dor formam uma só unidade, afinal ambos são termos contíguos, que surgiram por descuido da Criação, e bem que poderia ser a família Ducasse uma trindade perfeita, tal a mais gloriosa, que de certo se formou quando uma vítima da repressão descobriu ser um milagre celestial sua alma gozar com as tremuras da carne, e quiçá sua descoberta tenha ocorrido numa manhã de sol esplêndido, e não numa tarde cinzen¬ta como esta, de friagens intensas, em que os ventos céleres parecem deter¬minados a levar para longe um menino aflito.

No outro lado do Atlântico, enquanto os europeus vão ampliando um ideal de grandeza universal, Isidore Ducasse, que vai deixando seu quarto, provavelmente acometido por um pessimismo doentio, esse que afeta os navegantes das metáforas e também os que labutam e ao relento se anulam como resultado último de tantas incoerências históricas, dentro de instantes embarcará para enfrentar a vida e sua sorte. Está temeroso de não ser capaz de demonstrar afeto quando encarar o pai, ou quando for abraçado por Maná. Sente que não conseguirá demonstrar a mesma admiração por ambos e já começa a imaginar que nada por aqui, nem mesmo os bichos no pomar, sentirá a sua falta. Mas há algo nesse espaço que não está feliz com a sua partida, talvez seja o silêncio das paredes, um silêncio que não deve ser interpretado como quietude ou frieza das coisas mortas, mas como inquietação. Seu baú está vazio, deu carga a duas malas cheias. Ele olha tudo pela última vez, mas sente que o quarto já não é seu, devendo o pai fazer dele bom uso, assim como desses brinquedos de madeira que estão ao lado da cama. Aliás, assim teria mesmo de ser, posto que esses objetos nunca lhe pertenceram de fato, conquanto raramente deles fizera uso. Numa rápida mirada sobre as coisas em desuso por aqui, Isidore Ducasse compreende que melhor tem quem melhor usa, e não poder usar é o mesmo que não possuir. Dirá isso mais tarde ao banqueiro Jean Darasse, seu futuro tutor e atual procurador do seu pai em Paris, quando começar a desconfiar de que, apesar de ser legítimo herdeiro de posses e haveres, não poderá desfrutar antecipadamente da sua herança.

É notável como os pensamentos e as palavras fazem as previsões mais absurdas e ainda conseguem traçar o destino de alguém, e fazê-lo acreditar que nesse esfoliar de ressentimentos, um dia terá o espírito livre para estabelecer um nexo com uma contradição de indefinível intensidade. Nesse momento, ele abre a janela e se põe a olhar para as matas. Fugir agora? Para onde? Não é capaz de eliminar a extrema rejeição quando a voz do pai tornar a invadir os seus ouvidos. Resta-lhe aceitar mais esta condenação arbitrada por voz autoritária e deixar para trás todas essas coisas a que assistira envelhecer de tanto desuso. Por certo saberá cumprir fielmente um destino que não havia sido antevisto por Célestine, que sem saber, projetou no filho sua consciência falibilista.



Imprimir |

Enviar





Enviar

One Response to “Leia os Dois Primeiros Capítulos nos Outros Idiomas”

  1. 1
    louis vuitton Says:

    Greetings, I enjoy your website. This is a great site and I wanted to post a little note to let you know, nice job! Thanks Jessica

    [url=http://www.luxurygiftsbags.com]Louis Vuitton[/url]

    vuitton

Leave a Reply





Compartilhe idéias, sugestões e críticas com o escritor RUY CÂMARA.


Registre-se Aqui




Leia Dois Capítulos



Compre Aqui.





  • RUY CÂMARA
    Cantece de Toamna 46.00Lei

  • RUY CÂMARA
    Cantos de Otoño 26€

  • RUY CÂMARA
    Los Cantos de Maldoror
    15.00€

  • RUY CÂMARA
    Novela de La Vida De Lautreamont
    25,00€

  • RUY CÂMARA
    Cantos de Outono
    R$47,90

  • Clique aqui para comprar seu livro nas Lojas Americana

    RUY CÂMARA
    Cantos de Outono
    R$51,00

  • Clique aqui para comprar seu livro na loja Iuniverse

    RUY CÂMARA
    THE LAST SONGS OF AUTUMN
    Softcover - $25.95
    Hardcover - $35.95

Todos os direitos reservados ao autor © 2009 by Ruy Câmara
Nenhuma parte deste site pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer forma sem permissão por escrito do autor, exceto no caso de citações incluídas em artigos e resenhas críticas. Contato:ruycamara@uol.com.br.Criado por: André Lima Art & Design.