Uma das figuras mais misteriosas da literatura ocidental, Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont, nascido no Uruguai e criado na França no século XIX, deixou poucos registros da sua curtíssima existência: uma certidão de nascimento, um livro publicado em 1868, sete cartas manuscritas e uma certidão de óbito expedida pela prefeitura do Sena, em Paris. O autor de Cantos de Maldoror tem sua vida devassada pelo escritor Ruy Câmara, no seu livro de estréia Cantos de Outono - o romance da vida de Lautréamont (Editora Record).
Cantos de Outono deve ser decifrado como uma obra de ficção fundamentada na história de uma época e na biobliografia de Isidore Ducasse catalogada na Biblioteca Nacional de Paris. Para escrever o romance da vida de Lautréamont, Ruy Câmara realizou uma minuciosa pesquisa, percorrendo a vida e a invenção literária do inspirador do surrealismo, num mergulho profundo em diversas fontes, entre o Uruguai, França e Bélgica. Nos alerta o romancista que a ficção, nos Cantos de Outono , ''é criada a partir dos enfrentamentos do personagem com suas carências, com os desafios impostos pela realidade que o cercava, num universo metafórico, repleto de imagens e de circunstâncias supra-reais. (...) recorri à verossimilhança do absurdo, para abordar o desencanto da imensa maioria de indivíduos que vive à margem das grandes decisões mundiais. As imagens bizarras e metáforas estão em todas as páginas: garras contra garras, criatura contra criador, indivíduo contra a sociedade e vice-versa.''
Esta figura emblemática conquista, pois, um roteiro inédito na história da literatura brasileira, erguida por um autor que reinventa um mundo de duelos e desafios, povoado pelas mais radicais necessidades humanas. Em seu romance, Ruy Câmara consegue ''devolver a Isidore Ducasse a sua tão cobiçada negação existencial, a negação existencial do seu tempo, que é, em parte, um problema do nosso tempo, ato contínuo da lógica e da ilógica vigente''.
A trajetória da vida de Isidore Ducasse, reconstituída desde seus dois anos de idade, ainda em Montevidéu, passa por sua viagem a bordo do navio que o levou à França, atravessa seu itinerário nos liceus imperiais de Tarbes e Pau, reconstrói seus trajetos e aventuras em Paris, seu encontro com um Baudelaire afásico na Bélgica e, finalmente, acompanha seus passos numa Paris incendiada pela guerra franco-prussiana, seu último refúgio.
As poucas cartas que deixou - dissecadas em Cantos de Outono - testemunham a passagem de Isidore Ducasse pelas prisões escolares do sul da França, onde viveu em regime de internato; mostram seu interesse pela leitura de filósofos, poetas e romancistas, entre eles, Flaubert, Poe, Gautier, Balzac, Fichte, Schiller, Byron, Sócrates, Platão, Aristóteles, Demócrito, Epícuro, Kant, Schopenhauer; realçam o seu repúdio ao convívio escolar, às rígidas disciplinas; à monotonia do cotidiano e, de maneira especial, expõem a grandiosa solidão de um jovem senhor de si, emancipado em suas impressões do mundo, livre em pensamento e insubmisso aos rigores do seu tempo.
Os embates dialógicos com mestres e colegas revelam sua negação a moral burguesa, o questionamento das medidas da felicidade terrena e expõem seu desencantamento do mundo. Em suas digressões, podemos ouvir a voz interior de um jovem que constrói seu refúgio na filosofia e na literatura, como manifestação dos fatos que derivam à sua volta, sensível às incertezas postas, no que havia de vicioso e dissonante da moral vigente na França.
Incômodo hóspede de uma Paris em crise de pensamentos, invadida por manifestações sociais e guerras, num momento histórico de mudanças, de impregnâncias do espírito anárquico bakuniano e do pensamento marxista, Isidore Ducasse experimenta, em sua própria carne, a ruptura com os valores socialmente estabelecidos, que lhes pareciam impróprios aos preceitos de coexistência humana. A escolha do universo da literatura, para ser e viver como poeta, em detrimento de uma carreira diplomática sonhada por seu pai, o cônsul François Ducasse, evidencia que seu afastamento das banalidades circundantes, as transgressões, a rejeição a tudo que era posto como verdadeiro, tornava sua vida mais intensa.
Ciente da imortalidade de sua obra, Les Chants de Maldoror , Isidore Ducasse prescreveu seu desígnio literário: ''O final do século dezenove verá o seu poeta, e somente um século mais tarde, quando outros romances vierem à luz, compreendereis melhor o prefácio do renegado, de rosto fuliginoso.'' Oxalá já soubesse que sua obra varreria a lógica aristotélica das narrativas bem comportadas, destruiria a verossimilhança dos fatos, criaria imagens absurdas, grotescas, insolentes e seria objeto de estudo e fonte de inspiração para as futuras gerações de autores.
Quais volições poderiam sustentar Isidore Ducasse, transeunte de um ambiente contaminado pela mesmice, filho único de uma família abstrata, confinado a um eterno exílio interior, vivendo numa Europa onde tudo sugeria a elevação do inatingível e irreal?
Nos seus sonhos e delírios, descritos por Ruy Câmara, o impossível se concilia com a razão e transforma o inimaginável em realidade intangível. Eis pois, o insólito da existência de Isidore Ducasse, a epígrafe dos Cantos de Maldoror , assinada por Lautréamont, seu cognome postumamente famoso.
Na leitura de Cantos de Outono , o leitor segue o rastro de Isidore Ducasse por dois caminhos contrários que se bifurcam: o da sua conspiração contra a própria vida e o da possibilidade de superação da monotonia cotidiana, que seria um modo de acalentar a dor da alma. Cantos de Outono desenha as formas e gradações do extravasamento destes caminhos. Uma impressão de êxtase contamina o romance que em momentos assemelha-se à vida-obra de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont, numa narrativa que adquire a aparência de sonhos e espelhos estilhaçados, de símbolos insistentes, de imagens saturadas, um moto-contínuo supra-real que abrange uma multiplicidade de olhares. Nas páginas do romance paira uma aura de fantasmas, gestados naturalmente no imaginário ducasseano, que é algo assombroso, sufocado pelas carências que povoam o espírito, a alma desfigurada, manchada e deslocada da noção que temos de tempo-espaço e também a aterrorizante monotonia humana, o desalento moral de uma época e toda sorte de inquietações intimistas que anunciam o duelo de Isidore Ducasse contra si próprio, para ao final submergir num mundo para o qual nunca estivera apto.
Isidore Ducasse, um espírito em agonia que deambula no inefável há mais de um século, ressurge vivo ao lado de um Olhar que a tudo abrange e do alto em que se encontra aceita a provocação de uma Voz que insiste em se expressar através das páginas de Cantos de Outono , postos ao alcance dos leitores de forma sublime pelo romancista brasileiro Ruy Câmara, e que de certo faz sorrir a alma espectral de um poeta genial, um astro maldito.
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