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Fortaleza,
24 de Maio de 2003 |
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RESENHA Os
cantos de um astro maldito que nos
sorri
A socióloga Simone
Oliveira Lima lança seu olhar sobre Cantos de
Outono - o romance da vida de Lautréamont, obra
de ficção a partir de pesquisa do escritor Ruy Câmara
sobre a vida de Isidore Ducasse, que ficou para a
posteridade pelo pseudônimo de Conde de Lautréamont,
autor de Cantos de
Maldoror
Simone
Oliveira Lima Especial para O
POVO
[24
Maio 03h25min]
Uma das figuras mais
misteriosas da literatura ocidental, Isidore Ducasse, o
Conde de Lautréamont, nascido no Uruguai e criado na
França no século XIX, deixou poucos registros da sua
curtíssima existência: uma certidão de nascimento, um
livro publicado em 1868, sete cartas manuscritas e uma
certidão de óbito expedida pela prefeitura do Sena, em
Paris. O autor de Cantos de Maldoror tem
sua vida devassada pelo escritor Ruy Câmara, no seu
livro de estréia Cantos de Outono - o romance da
vida de Lautréamont (Editora Record).
Cantos de Outono deve ser
decifrado como uma obra de ficção fundamentada na
história de uma época e na biobliografia de Isidore
Ducasse catalogada na Biblioteca Nacional de Paris. Para
escrever o romance da vida de Lautréamont, Ruy Câmara
realizou uma minuciosa pesquisa, percorrendo a vida e a
invenção literária do inspirador do surrealismo, num
mergulho profundo em diversas fontes, entre o Uruguai,
França e Bélgica. Nos alerta o romancista que a ficção,
nos Cantos de Outono, ''é criada a partir
dos enfrentamentos do personagem com suas carências, com
os desafios impostos pela realidade que o cercava, num
universo metafórico, repleto de imagens e de
circunstâncias supra-reais. (...) recorri à
verossimilhança do absurdo, para abordar o desencanto da
imensa maioria de indivíduos que vive à margem das
grandes decisões mundiais. As imagens bizarras e
metáforas estão em todas as páginas: garras contra
garras, criatura contra criador, indivíduo contra a
sociedade e vice-versa.''
Esta figura
emblemática conquista, pois, um roteiro inédito na
história da literatura brasileira, erguida por um autor
que reinventa um mundo de duelos e desafios, povoado
pelas mais radicais necessidades humanas. Em seu
romance, Ruy Câmara consegue ''devolver a Isidore
Ducasse a sua tão cobiçada negação existencial, a
negação existencial do seu tempo, que é, em parte, um
problema do nosso tempo, ato contínuo da lógica e da
ilógica vigente''.
A
trajetória da vida de Isidore Ducasse,
reconstituída desde seus dois anos de idade, ainda em
Montevidéu, passa por sua viagem a bordo do navio que o
levou à França, atravessa seu itinerário nos liceus
imperiais de Tarbes e Pau, reconstrói seus trajetos e
aventuras em Paris, seu encontro com um Baudelaire
afásico na Bélgica e, finalmente, acompanha seus passos
numa Paris incendiada pela guerra franco-prussiana, seu
último refúgio.
As poucas cartas que deixou -
dissecadas em Cantos de Outono -
testemunham a passagem de Isidore Ducasse pelas prisões
escolares do sul da França, onde viveu em regime de
internato; mostram seu interesse pela leitura de
filósofos, poetas e romancistas, entre eles, Flaubert,
Poe, Gautier, Balzac, Fichte, Schiller, Byron, Sócrates,
Platão, Aristóteles, Demócrito, Epícuro, Kant,
Schopenhauer; realçam o seu repúdio ao convívio escolar,
às rígidas disciplinas; à monotonia do cotidiano e, de
maneira especial, expõem a grandiosa solidão de um jovem
senhor de si, emancipado em suas impressões do mundo,
livre em pensamento e insubmisso aos rigores do seu
tempo.
Os embates dialógicos com mestres e
colegas revelam sua negação a moral burguesa, o
questionamento das medidas da felicidade terrena e
expõem seu desencantamento do mundo. Em suas digressões,
podemos ouvir a voz interior de um jovem que constrói
seu refúgio na filosofia e na literatura, como
manifestação dos fatos que derivam à sua volta, sensível
às incertezas postas, no que havia de vicioso e
dissonante da moral vigente na França.
Incômodo
hóspede de uma Paris em crise de pensamentos, invadida
por manifestações sociais e guerras, num momento
histórico de mudanças, de impregnâncias do espírito
anárquico bakuniano e do pensamento marxista, Isidore
Ducasse experimenta, em sua própria carne, a ruptura com
os valores socialmente estabelecidos, que lhes pareciam
impróprios aos preceitos de coexistência humana. A
escolha do universo da literatura, para ser e viver como
poeta, em detrimento de uma carreira diplomática sonhada
por seu pai, o cônsul François Ducasse, evidencia que
seu afastamento das banalidades circundantes, as
transgressões, a rejeição a tudo que era posto como
verdadeiro, tornava sua vida mais intensa.
Ciente da imortalidade de sua obra, Les
Chants de Maldoror, Isidore Ducasse prescreveu
seu desígnio literário: ''O final do século dezenove
verá o seu poeta, e somente um século mais tarde, quando
outros romances vierem à luz, compreendereis melhor o
prefácio do renegado, de rosto fuliginoso.'' Oxalá já
soubesse que sua obra varreria a lógica aristotélica das
narrativas bem comportadas, destruiria a verossimilhança
dos fatos, criaria imagens absurdas, grotescas,
insolentes e seria objeto de estudo e fonte de
inspiração para as futuras gerações de autores.
Quais volições poderiam sustentar Isidore
Ducasse, transeunte de um ambiente contaminado pela
mesmice, filho único de uma família abstrata, confinado
a um eterno exílio interior, vivendo numa Europa onde
tudo sugeria a elevação do inatingível e irreal?
Nos seus sonhos e delírios, descritos por Ruy
Câmara, o impossível se concilia com a razão e
transforma o inimaginável em realidade intangível. Eis
pois, o insólito da existência de Isidore Ducasse, a
epígrafe dos Cantos de Maldoror, assinada
por Lautréamont, seu cognome postumamente famoso.
Na leitura de Cantos de
Outono, o leitor segue o rastro de Isidore
Ducasse por dois caminhos contrários que se bifurcam: o
da sua conspiração contra a própria vida e o da
possibilidade de superação da monotonia cotidiana, que
seria um modo de acalentar a dor da alma. Cantos
de Outono desenha as formas e gradações do
extravasamento destes caminhos. Uma impressão de êxtase
contamina o romance que em momentos assemelha-se à
vida-obra de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont,
numa narrativa que adquire a aparência de sonhos e
espelhos estilhaçados, de símbolos insistentes, de
imagens saturadas, um moto-contínuo supra-real que
abrange uma multiplicidade de olhares. Nas páginas do
romance paira uma aura de fantasmas, gestados
naturalmente no imaginário ducasseano, que é algo
assombroso, sufocado pelas carências que povoam o
espírito, a alma desfigurada, manchada e deslocada da
noção que temos de tempo-espaço e também a aterrorizante
monotonia humana, o desalento moral de uma época e toda
sorte de inquietações intimistas que anunciam o duelo de
Isidore Ducasse contra si próprio, para ao final
submergir num mundo para o qual nunca estivera apto.
Isidore Ducasse, um espírito em agonia que
deambula no inefável há mais de um século, ressurge vivo
ao lado de um Olhar que a tudo abrange e do alto em que
se encontra aceita a provocação de uma Voz que insiste
em se expressar através das páginas de Cantos de
Outono, postos ao alcance dos leitores de forma
sublime pelo romancista brasileiro Ruy Câmara, e que de
certo faz sorrir a alma espectral de um poeta genial, um
astro maldito.
Simone Oliveira Lima
é socióloga, mestre em Sociologia (UFC),
professora da Unifor e da Fanor
SERVIÇO: Cantos de
Outono - o romance da vida de Lautréamont - Obra
do poeta, romancista, dramaturgo e sociólogo Ruy Câmara.
Lançamento Editora Record. 458 páginas. Preço: R$ 48,00.
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