Portal
Campeão!
De Olho no Dinheiro
Diversão e Arte
Esoterismo
Guerra no Iraque
Horóscopo
Tecnologia
Tudo Sobre...
Vestibular
Últimas
Populares
Fórum
Jornal
Capa
Brasil
Ceará
Charge
Colunas
Economia
Esportes
Fortaleza
Há 30 Anos
Há 50 Anos
Internacional
Opinião
Política
Vida e Arte
Allmanaque
Buchicho
Ciência e Saúde
Clubinho
Jornal do Leitor
People
Turismo
Veículos
Comercial O POVO
Fale com a gente
Pesquisa
Pesquisa Histórica
AM do Povo
Calypso FM
Maxi Rádio
Carnaval 2002
Carnaval 2003
Casa Cor
Cine Ceará
ClickLab
Copa 2002
Edições D. Rocha
Eleições 2002
Fortal 2002
Festival Vida & Arte 2003
F. Demócrito Rocha
Retrospectiva 2002
Nordestão 2002
Sem Limite 1
Sem Limite 2
 
Vida e Arte Fortaleza, 24 de Maio de 2003  
 
 
RESENHA
Os cantos de um astro maldito que nos sorri

A socióloga Simone Oliveira Lima lança seu olhar sobre Cantos de Outono - o romance da vida de Lautréamont, obra de ficção a partir de pesquisa do escritor Ruy Câmara sobre a vida de Isidore Ducasse, que ficou para a posteridade pelo pseudônimo de Conde de Lautréamont, autor de Cantos de Maldoror

Simone Oliveira Lima
Especial para O POVO


[24 Maio 03h25min]


Uma das figuras mais misteriosas da literatura ocidental, Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont, nascido no Uruguai e criado na França no século XIX, deixou poucos registros da sua curtíssima existência: uma certidão de nascimento, um livro publicado em 1868, sete cartas manuscritas e uma certidão de óbito expedida pela prefeitura do Sena, em Paris. O autor de Cantos de Maldoror tem sua vida devassada pelo escritor Ruy Câmara, no seu livro de estréia Cantos de Outono - o romance da vida de Lautréamont (Editora Record).

Cantos de Outono deve ser decifrado como uma obra de ficção fundamentada na história de uma época e na biobliografia de Isidore Ducasse catalogada na Biblioteca Nacional de Paris. Para escrever o romance da vida de Lautréamont, Ruy Câmara realizou uma minuciosa pesquisa, percorrendo a vida e a invenção literária do inspirador do surrealismo, num mergulho profundo em diversas fontes, entre o Uruguai, França e Bélgica. Nos alerta o romancista que a ficção, nos Cantos de Outono, ''é criada a partir dos enfrentamentos do personagem com suas carências, com os desafios impostos pela realidade que o cercava, num universo metafórico, repleto de imagens e de circunstâncias supra-reais. (...) recorri à verossimilhança do absurdo, para abordar o desencanto da imensa maioria de indivíduos que vive à margem das grandes decisões mundiais. As imagens bizarras e metáforas estão em todas as páginas: garras contra garras, criatura contra criador, indivíduo contra a sociedade e vice-versa.''

Esta figura emblemática conquista, pois, um roteiro inédito na história da literatura brasileira, erguida por um autor que reinventa um mundo de duelos e desafios, povoado pelas mais radicais necessidades humanas. Em seu romance, Ruy Câmara consegue ''devolver a Isidore Ducasse a sua tão cobiçada negação existencial, a negação existencial do seu tempo, que é, em parte, um problema do nosso tempo, ato contínuo da lógica e da ilógica vigente''.


A trajetória da vida de Isidore Ducasse, reconstituída desde seus dois anos de idade, ainda em Montevidéu, passa por sua viagem a bordo do navio que o levou à França, atravessa seu itinerário nos liceus imperiais de Tarbes e Pau, reconstrói seus trajetos e aventuras em Paris, seu encontro com um Baudelaire afásico na Bélgica e, finalmente, acompanha seus passos numa Paris incendiada pela guerra franco-prussiana, seu último refúgio.

As poucas cartas que deixou - dissecadas em Cantos de Outono - testemunham a passagem de Isidore Ducasse pelas prisões escolares do sul da França, onde viveu em regime de internato; mostram seu interesse pela leitura de filósofos, poetas e romancistas, entre eles, Flaubert, Poe, Gautier, Balzac, Fichte, Schiller, Byron, Sócrates, Platão, Aristóteles, Demócrito, Epícuro, Kant, Schopenhauer; realçam o seu repúdio ao convívio escolar, às rígidas disciplinas; à monotonia do cotidiano e, de maneira especial, expõem a grandiosa solidão de um jovem senhor de si, emancipado em suas impressões do mundo, livre em pensamento e insubmisso aos rigores do seu tempo.

Os embates dialógicos com mestres e colegas revelam sua negação a moral burguesa, o questionamento das medidas da felicidade terrena e expõem seu desencantamento do mundo. Em suas digressões, podemos ouvir a voz interior de um jovem que constrói seu refúgio na filosofia e na literatura, como manifestação dos fatos que derivam à sua volta, sensível às incertezas postas, no que havia de vicioso e dissonante da moral vigente na França.

Incômodo hóspede de uma Paris em crise de pensamentos, invadida por manifestações sociais e guerras, num momento histórico de mudanças, de impregnâncias do espírito anárquico bakuniano e do pensamento marxista, Isidore Ducasse experimenta, em sua própria carne, a ruptura com os valores socialmente estabelecidos, que lhes pareciam impróprios aos preceitos de coexistência humana. A escolha do universo da literatura, para ser e viver como poeta, em detrimento de uma carreira diplomática sonhada por seu pai, o cônsul François Ducasse, evidencia que seu afastamento das banalidades circundantes, as transgressões, a rejeição a tudo que era posto como verdadeiro, tornava sua vida mais intensa.

Ciente da imortalidade de sua obra, Les Chants de Maldoror, Isidore Ducasse prescreveu seu desígnio literário: ''O final do século dezenove verá o seu poeta, e somente um século mais tarde, quando outros romances vierem à luz, compreendereis melhor o prefácio do renegado, de rosto fuliginoso.'' Oxalá já soubesse que sua obra varreria a lógica aristotélica das narrativas bem comportadas, destruiria a verossimilhança dos fatos, criaria imagens absurdas, grotescas, insolentes e seria objeto de estudo e fonte de inspiração para as futuras gerações de autores.

Quais volições poderiam sustentar Isidore Ducasse, transeunte de um ambiente contaminado pela mesmice, filho único de uma família abstrata, confinado a um eterno exílio interior, vivendo numa Europa onde tudo sugeria a elevação do inatingível e irreal?

Nos seus sonhos e delírios, descritos por Ruy Câmara, o impossível se concilia com a razão e transforma o inimaginável em realidade intangível. Eis pois, o insólito da existência de Isidore Ducasse, a epígrafe dos Cantos de Maldoror, assinada por Lautréamont, seu cognome postumamente famoso.


Na leitura de Cantos de Outono, o leitor segue o rastro de Isidore Ducasse por dois caminhos contrários que se bifurcam: o da sua conspiração contra a própria vida e o da possibilidade de superação da monotonia cotidiana, que seria um modo de acalentar a dor da alma. Cantos de Outono desenha as formas e gradações do extravasamento destes caminhos. Uma impressão de êxtase contamina o romance que em momentos assemelha-se à vida-obra de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont, numa narrativa que adquire a aparência de sonhos e espelhos estilhaçados, de símbolos insistentes, de imagens saturadas, um moto-contínuo supra-real que abrange uma multiplicidade de olhares. Nas páginas do romance paira uma aura de fantasmas, gestados naturalmente no imaginário ducasseano, que é algo assombroso, sufocado pelas carências que povoam o espírito, a alma desfigurada, manchada e deslocada da noção que temos de tempo-espaço e também a aterrorizante monotonia humana, o desalento moral de uma época e toda sorte de inquietações intimistas que anunciam o duelo de Isidore Ducasse contra si próprio, para ao final submergir num mundo para o qual nunca estivera apto.

Isidore Ducasse, um espírito em agonia que deambula no inefável há mais de um século, ressurge vivo ao lado de um Olhar que a tudo abrange e do alto em que se encontra aceita a provocação de uma Voz que insiste em se expressar através das páginas de Cantos de Outono, postos ao alcance dos leitores de forma sublime pelo romancista brasileiro Ruy Câmara, e que de certo faz sorrir a alma espectral de um poeta genial, um astro maldito.

Simone Oliveira Lima é socióloga, mestre em Sociologia (UFC), professora da Unifor e da Fanor


SERVIÇO:
Cantos de Outono - o romance da vida de Lautréamont - Obra do poeta, romancista, dramaturgo e sociólogo Ruy Câmara. Lançamento Editora Record. 458 páginas. Preço: R$ 48,00.

   
 
 

Portal
03:11 O perigo mora ao lado

23 Maio
 
Futebol
22:29 Ceará joga com três desfalques

Política
22:13 Brasil e México proporão criação de fundo para infra-estrutura

Futebol
22:12 Noolhar.com estréia coluna de esportes

Brasil
22:11 Rio vai investir R$ 400 milhões no Fundo Estadual da Pobreza

 
Digite login:
 
 
 
Digite login:
Digite senha:
 
Não tem Webmail do NoOlhar?
inscreva-se grátis!
Esqueceu a senha? Clique Aqui!
 
  Política de Privacidade   Aviso Legal   Publicidade Online   Faça desta sua Home   Contato
© Copyright 2001 Noolhar.com Todos os direitos reservados Produzido por ClickLab