REFLEXÕES

 

 

Como nem tudo vai bem sob o céu, nem sob a ótica que termina em padecimento ou expiação, alguns conceitos sobre o mundo precisam estar sempre num nível mais elevado da realidade imediata. Nas linhas a seguir prometo ao leitor que não pisarei no vale onde as improbidades dos governos acabam em solilóquios.

 

 

Mundo:

O mundo concreto e real é um paradoxo perdido no Universo, um lugar encafuado na história que se refaz nas sombras de uma infinidade de entidades vagas que povoam a nossa rude especulação. Mas também pode ser uma aglomeração exponencial de culturas que se aculturam abstratamente em pedaços de tempos e de espaços cada vez mais contraídos, nos quais a única condição essencial e imputável em que um indivíduo pode realmente se sentir livre, é no exercício da fabulação. 

 

História:

É factual alguém recorrer a história e nela se sentir perdido.

 

Dor:

A dor humana é tão-só uma duração.

 

Invernia:

O frio sempre chega antes do previsto, quando então recomeça a infernação de lavar as partes pudendas do corpo.

 

Plágio:

Dos sarcófagos literários dos velhos alfarrabistas retirei a idéia de recontextualizar o que está escrito noutro livro meu. Seria fraude plagiar a mim mesmo?

 

Liberdade:

Confio no caráter subversivo e transgressor. É daí que brota a liberdade.

 

Influência:

Prefiro a influência burlesca dos poetas malditos à influência doutrinária dos sábios ou convertidos.

 

Contradição:

São nas ratoeiras monoteístas dos testamentos onde o absurdo acontece e é louvado.

 

Cotidiano:

O cotidiano é sempre banal porque é regido por um princípio de mutação perpétua em que tudo implica em incoerência.

 

Banalidade:

Banal como a metalinguagem que tematiza a falsa moral é a baixa literatura dos códigos legalistas.

 

Narcisismo:

As inflexíveis leis da ótica não me afastam do espelho porque também sou narciso.

 

Acumulação:

A teoria geral da acumulação monetária acaba de descer pelo esgoto. Já não é preciso cofres imensos para se trancar os grandes tesouros. Toda a riqueza monetizada do planeta cabe num disquete de computador. A razão que estabeleça logo o tamanho dessa decrepitude e não será um poema negro como o corvo da bruxa que carregará o luto injustificado pelo excesso de otimismo que se nos infundem as leis autóctones da acumulação, essa filosofia de superioridade que faz apodrecer a árvore frondosa nos locais onde a civilização prática continua muito bem compenetrada na fabricação de leis e bagulhos. Cultura infrutífera essa ante o elevado grau de dependência que se amplia por toda a era que equivocadamente denominamos de pós-clássica, já que clássica mesma são apenas as expressões artísticas e nada mais.

 

Gravidade:

O desastre capitalista depende agora da força da gravidade. Seguros como estão os sistemas de satélites no espaço, só uma queda coletiva redundaria no caos econômico do planeta.

 

Leis Divinas:

Não vou me deixar arrastar pela cupidez dos eruditos, nem quero ouvir as lisonjas místicas dos sermões. Deus não seria maluco de autorizar a um sujeito que vive da exploração social da fé, a falar em seu nome para manipular suas leis.

 

Castigar:

Melhor é invocar Platão e deixemo-lo dizer que a perversidade é arte humana e pode muito a mão que chicoteia e pode mais quando num ato de perversidade surge uma revelação divina, a presença de Deus na terra, lugar onde se ensina a mãe ninar o filho para mais tarde castigá-lo.

 

Homem Universal:

Se não é possível a um corpo ocupar dois espaços ao mesmo tempo, pela real impossibilidade do espaço que o comporta não poder do mesmo modo ser deslocado, a idéia do homem universal é um utopia incomportável na mais precária lógica, pois que, em sendo o homem um ente territorial, atado a um quinhão que supõe seu, mas não o é, nem será, é apenas legado transferível aos que atrás de si estão vindo para disputar seus espaços com quem agora os ocupa, desse modo o homem universal é cada vez mais regional.

 

Vida e Riqueza:

Se a vida começa com a luz e termina na escuridão, assim como a riqueza que começa na transformação da matéria natural e concreta e termina no nada absoluto, tanto a vida como o que a ela se acresce é uma ilusão concreta e real.

 

Justiça:

Flaubert livrou-se da justiça, graças a intervenção da princesa Mathilde, prima do imperador; Baudelaire livrou-se graças a senhora Sabatier, amiga dos ministros, e eu, como poderei me livrar?

 

Vozes:

Os poetas já falaram de tudo. Baudelaire, da dor humana e do Criador; Flaubert, das paixões de Bovary; Balzac, das mulheres de trinta; Fulano, cantou os céus... e eu, cantarei mudo.

 

Pesadelo:

Acordei lembrando do momento em que desceram a campa do meu sepulcro. Pensei naquela escuridão medonha e tive a impressão momentânea de que o fim dos tempos é um simples fechar de pálpebras.

 

O Bem:

O bem mais duradouro só pode ser encontrado no interior de uma relação de dominação e sujeição.

 

Calúnia:

Tudo que era caluniado em defesa do pensamento ocidental, ganhava contornos substantivo quando uma fantasia começou a entorpecer a dor da finitude, que é a visão real e trágica que custamos admitir.

 

A voz da Justiça.

Ela fala com a voz estrangulada sobre o desmaio do Estado, um desmaio fingido.

 

O Mercado:

O mundo rege-se pela antologia do direito do mais apto e esse direito estabelece regras de moral que são inexoravelmente repressivas e dominantes. Por isso a competitividade tem como norma a eliminação do outro.

 

Disfarce:

A vida urbana já não reconhece mérito no homem sincero, mas no seu disfarce, na sua polidez e civilidade, que são máscaras.

 

O Cárcere:

E agora, rompido com as instâncias normativas da vida, faço da arte literária o refúgio da minha fuga e do isolamento no quarto o meu cativeiro, tal aquele que ao longo de uma prisão começa a amar as paredes do próprio cárcere.

 

Chão:

Tirar Deus do cérebro de um homem dogmatizado é tirar o chão aonde ele supõe pisar firmemente.

 

Divórcio:

O divórcio pode se consumar com a falta de comunicação, mas só se materializa nas conversas cifradas que se misturam aos rancores sonoros entre pessoas que se portam como soldados: sempre prontos para um ataque.

 

Fato Puro:

No sentido de redução eidética, que objetiva transformar os fenômenos em essências, nenhum fato é puro. Buscar um fato puro seria decretar a pura esterilidade da empiria, assim com é estéril na era da ditadura da ciência, o fenômeno da reificação, que se torna utilidade científica.

 

Neutralidade:

Assim como qualquer outro, o olhar imparcial está carregado de escolhas. 

 

Verdade:

Só é possível esgotar uma verdade quando dela se retirar todas as virtualidades.

 

Ascese:

Assim como qualquer indivíduo, a metáfora também precisa de um lugar para ter significado, para adquirir uma forma transfigurada de ascese.

 

Empiria:

Como é estéril o empirismo tosco que se arroga científico na recente era da ditadura da ciência. Nesse terreno, nenhum fato é puro, nem no sentido de redução eidética, que objetiva transformar os fenômenos em essências, porque em verdade, a tentativa de alcançar um fato puro, seria o mesmo que decretar a esterilidade científica.

 

Compondo:

Quando escrevo, tremores velhos estão transpassando a minha atmosfera intelectual. É só uma questão de ter coragem para estar diante deles, para ouvir os seus ecos silentes. Sofro os calafrios do conhecimento, calafrios velhos, que se propagam num estirão de uma curtíssima glória.

 

Silêncio:

Às vezes o meu silêncio é tão inútil quanto certas reticências semeadas ao vento...

 

Interjeições:

Entre os falares arcaicos e dialetos que inundam o mercado editorial, ainda me fascina a loquacidade do grandes romances de cavalaria. Neles as interjeições não têm lugar.

 

Transgressão:

Morrer é mera conseqüência de quem vivi. Já o suicídio, sim, no universo niilista, representa a verdadeira transgressão da existência humana.

 

Omissão de autor:

Nunca omiti que no romance, Cantos de Outono, há uma tentativa real de sufocar o leitor arrebatado pela fúria prospectiva de uma história narrada entre o delírio e o desespero do autor, um desespero alargado para um universo circular no qual se exercita a perfeita harmonia da filosofia, metafísica, apenas como pano de fundo, que se rasga para abrir caminhos no real. O personagem, mestre da narrativa imagética, viveu pouco e ao mesmo tempo muito para escrever tanto e o fez com a teimosia de quem nunca se conformaria em não fazer parte da história. Tenho convicção de que fiz uma ponte entre o real e o absurdo para desvelar o mistério ducasseano nas cenas do seu próprio universo e imaginário. Ao final do livro acabei revelando uma misogonia muito próxima do real, já que meu personagem pode perfeitamente se fazer representar por toda essa geração de jovens sem rumo.  

 

Crítica:

Toda análise crítica é, de certo modo redutora, isso porque o crítico nem sempre alcança o caráter subjetivo da própria análise.

 

Tentação:

Nenhum inferno poderá existir sem seus ídolos, do contrário não haveria ordem nem tentação.

 

Patriarca:

É desastroso para o velho patriarca, que tanto lutou para manter sua honra, sua palavra, viver uma rotina que se repete todos os dias longe daqueles que dele esperam apenas o prévio direito de herança. Quão inútil foi sua vida se tudo que realizou será dilapidado como o será sua carne. Aquele gesto lento não é de entusiasmo, nem de ternura. Mal traçado é o destino deste homem velho e cansado de lutas, que antes mesmo de morrer já é esquecido até mesmo pelos seus entes mais queridos. Doente, profundamente doente, ele é visitado esporadicamente por alguns filhos, apenas alguns, todos jamais, pois já agora nem todos mostram ao patriarca a sua própria descendência. Ai está o neto primogênito, com olhar autoritário de fidalgo. Aí está a filha bêbada com o namorado. E se o mostrasse a barriga seria inútil. Nenhum dos seus netos teria paciência de ouvi-lo por mais de três minutos. Duas ou três palavras são suficientes para devolver o silêncio do leito de morte, aonde o homem cansado e desiludido não se mostra mais capaz de demonstrar aborrecimentos, porque já é impotente para desagradar. Sua alma gelada, na véspera da morte, espera um lenitivo que nunca virá. O drama de morrer se acirra quando a carne começa a sentir o poder da desolação e sua abominável espera. Nada mais possui o patriarca além de um sorriso triste e gotas de lágrimas que se demoram a cair devido o enrugamento das peles faciais.