Conheci Ducasse no Liceu de Pau, no ano de 1864. Ele estava comigo e com Minville na classe de retórica e no mesmo curso. Ainda vejo aquele rapaz grande, magro, as costas meio curvas, a tez pálida, os cabelos compridos caindo atravessados sobre a testa, a voz meio estridente. Sua fisionomia nada tinha de atraente.

Habitualmente, era triste e silencioso, como se estivesse dobrado sobre si mesmo. Por duas ou três vezes, falou-me com uma certa animação dos países de além-mar onde se levava uma vida livre e feliz.

Com freqüência, na sala de estudos, passava horas com os cotovelos apoiados na carteira, mãos na cabeça e os olhos fixos em um livro clássico que não lia. Via-se que estava mergulhado em um devaneio. Eu achava, como meu amigo Minville, que ele sentia saudades e que a melhor coisa que seus pais poderiam fazer seria levá-lo de volta a Montevidéu.

Durante a aula, parecia às vezes interessar-se vivamente pelas aulas de Gustave Hinstin, brilhante professor de retórica, antigo discípulo da escola de Atenas. Apreciava muito Racine, Corneille e, principalmente, o Édipo Rei, de Sófocles. A cena em que Édipo, finalmente, sabendo a terrível verdade e soltando gritos de dor, com os olhos arrancados e maldizendo o seu destino, parecia-lhe muito bela. Lamentava, contudo, que Jocasta não houvesse levado o horror trágico a seu cúmulo, matando-se diante dos espectadores!

Ele admirava Edgar Poe, cujos Contos havia lido antes mesmo de sua entrada no Liceu. Enfim, vi em suas mãos um volume de poesias, Albertus, de Théophile Gauthier, que lhe havia sido passado, creio, por Georges Minville.

Nós o tínhamos no Liceu por um espírito fantasioso e sonhador, mas no fundo era um bom rapaz, não ultrapassando, então, o nível médio de instrução, provavelmente em virtude de um atraso em seus estudos. Certo dia, mostrou-me alguns versos à sua maneira. O ritmo, até onde fui capaz de julgar em minha inexperiência, pareceu-me um pouco estranho e o pensamento, obscuro.

Ducasse tinha uma aversão particular por versos latinos. Hinstin nos deu, certo dia, para traduzir em hexâmetros, a passagem relativa ao pelicano em Rolla de Musset. Ducasse, que estava sentado atrás de mim no banco mais alto da classe, praguejou em meu ouvido contra a escolha de um tal tema.

         No dia seguinte, Hinstin comparou duas composições, classificadas como as melhores, com as dos alunos do Liceu de Lille, onde havia lecionado retórica antes.

         Ducasse manifestou vivamente sua irritação:

         -Para que tudo isso? disse-me. É feito para se desgostar do latim.

         Havia, creio, coisas que ele não queria entender, para não perder nada de suas antipatias e desprezos.

         Muitas vezes queixou-se a mim de enxaquecas dolorosas que, ele mesmo o reconheceu, não deixavam de influenciar seu espírito e seu caráter.

         Durante a canícula os alunos iam banhar-se no curso d’água do bois-Louis. Era uma festa para Ducasse, excelente nadador.

         -Precisaria muito, disse-me ele certo dia, refrescar meu cérebro doente com mais freqüência nesta água de nascente.

         Todos esses detalhes não têm grande interesse, mas há uma lembrança que acho necessário recordar. Em 1864, perto do fim do ano letivo, Hinstin, que já havia repreendido Ducasse com freqüência por aquilo que ele chamava de seus excessos de pensamento e de estilo, leu uma composição do meu colega.

         As primeiras frases, muito solenes, imediatamente excitaram sua hilaridade, mas ele logo se zangou. Ducasse não havia soltado antes as rédeas de sua imaginação desenfreada a tal ponto. Não havia frase onde o pensamento, de certa forma feito de imagens acumuladas, de metáforas incompreensíveis, não fosse, além do mais, obscurecido por invenções verbais e formas de estilo que nem sempre respeitavam a sintaxe.

         Hinstin, puro clássico, cuja fina crítica não deixava escapar nenhuma falta de gosto, acreditou tratar-se de uma espécie de desafio lançado ao ensino clássico, uma brincadeira de mau gosto com o professor. Contrariando seus hábitos indulgentes, deixou Ducasse de castigo. Essa punição feriu profundamente nosso colega; queixou-se amargamente a mim e meu amigo Georges Minville. Não tentamos fazê-lo entender que havia ultrapassado todas as medidas.

         No Liceu, em retórica como em filosofia, Ducasse não revelou, que eu saiba, nenhuma aptidão especial pelas matemáticas e pela geometria, cuja beleza encantadora celebra com entusiasmo nos Cantos de Maldoror. Mas gostava muito de história natural. O mundo animal excitava vivamente sua curiosidade. Eu o vi admirar demoradamente uma joaninha de um vermelho vivo que havia achado no parque do Liceu durante o recreio do meio-dia.

         Sabendo que Minville e eu havíamos sido caçadores desde a infância, indagava-nos às vezes sobre os hábitos e as migrações dos diversos pássaros na região dos Pirineus, e sobre as particularidades de seu vôo.

         Tinha o espírito atento da observação. Por isso, não me surpreendi ao ler no início do primeiro e do quinto canto de Maldoror as notáveis descrições do vôo dos grous e principalmente das andorinhas, que ele havia estudado bastante.

         Nunca voltei a ver Ducasse desde minha saída do Liceu, em 1865.

         Alguns anos depois, porém, recebi em Bayonne os Cantos de Maldoror. Este foi, sem dúvida, um exemplar da primeira edição, a de 1868. Nenhuma dedicatória. Mas o estilo, as idéias estranhas às vezes se entrechocando como um emaranhado, me fizeram supor que o autor só podia ser mau antigo colega.

         Minville me disse que também havia recebido um exemplar, sem dúvida enviado por Ducasse.

         Perguntamos ao senhor Lespés se Os Cantos de Maldoror não haviam sido constituídos, em partes, por um desejo de brincadeira estudantil, se não eram uma manifestação.

         “Não creio, respondeu-nos.

         No Liceu, Ducasse relacionava-se mais comigo e com Georges Minville do que com os demais alunos. Mas sua atitude distante, se posso empregar essa expressão, uma espécie de gravidade desdenhosa e uma tendência a considerar-se um ser à parte, as questões obscuras que nos apresentava à queima-roupa, às quais nos era embaraçoso responder, suas idéias, as formas de seu estilo do qual nosso professor Hinstin relevava o exagero, enfim, a irritação que ele às vezes manifestava sem um motivo sério, todas essas esqui-sitices nos inclinavam a crer que seu cérebro carecia de equilíbrio.

         A loucura se manifestou inteiramente em um discurso onde ele aproveitou a oportunidade para acumular, com um luxo apavorante de epítetos, as mais horríveis imagens da morte. Só havia ossos partidos, entranhas penduradas, carnes sangrentas ou se desmanchando. Foi a lembrança desse discurso que me fez, anos depois, reconhecer a mão do autor dos Cantos de Maldoror, embora Ducasse nunca me houvesse feito nenhuma alusão a seus projetos poéticos.

         Ficamos convencidos, Minville e eu, assim como outros colegas, que Hinstin se havia equivocado ao infligir a Ducasse a punição por seu discurso.

         Não havia sido uma brincadeira de mau gosto com o professor. Ducasse ficou profundamente ferido pela censurar de Hinstin e por essa punição. Estava convencido, creio, que havia feito um excelente discurso, cheio de idéias inovadoras e de belas formas de estilo. Sem dúvida, ao comparar Os Cantos de Maldoror e as Poesias. Pode-se supor que Ducasse não tenha sido sincero. Mas se ele o foi no Liceu, como o acredito, por que não o haveria de ser mais tarde, quando se esmerou em ser poeta em prosa, e, em uma espécie de delírio da imaginação, convence-se talvez que conduziria ao bem, pela imagem do deleitar-se no mal, as almas desiludidas com a virtude e a esperança.

         No Liceu, considerávamos Ducasse um excelente rapaz, mas um pouco, como diria? maluco. Não era sem moral e nada tinha de sádico.

         Lembro-me bem do julgamento humorístico feito por meu amigo Georges Minville, espírito muito fino, amável, poeta nas horas vagas. Cada um de nós havia recebido um exemplar da primeira edição do Maldoror. Você se lembra de seu discurso? Disse-me ele. Havia uma aranha no assoalho, mas ela cresceu muito!!!

        

 

Impressões do escritor François Alicot sobre Paul Lespés.

 

 

Para o senhor Lespés e para G. Minville, morto em Pau em 1923, a imaginação e originalidade do estilo de Ducasse deviam-se a uma constituição cerebral particular.

         Para o senhor Lespés, não é difícil reconhecer as influências que atuaram sobre Ducasse. Foram, independentemente dos clássicos e de Gauthier, já citados, Shakespeare, Shelley, “que ele saboreou”, pois Ducasse falava bem o inglês e, sem dúvida, o espanhol, como todos os sul-americanos – e principalmente Byron, que foi certamente seu grande inspirador.

         “Acha, perguntamos finalmente ao senhor Lespés, que, como disse Soupault no prefácio da última edição de Maldoror, houve identidade entre seu colega e o agitador revolucionário retratado por Jules Vallés em L’Insurgé?”

         “Tudo o que posso dizer a respeito é que o Ducasse que eu conheci se exprimia sempre com dificuldade, e às vezes com uma espécie de rapidez nervosa. Certamente, nunca foi um orador capaz de sublevar as massas e nunca, no Liceu, falou em política ou em revolução social. O retrato que Vallés faz do agitador Ducasse não me parece de uma semelhança perfeita, embora lembre alguns traços da fisionomia de meu colega. Este não escanchava nem as pernas, nem os braços, e tinha cabelos mais para o castanho que para o ruivo.”

 

Entrevista de FRANÇOIS ALICOT publicada no Mercure de France em 01 de janeiro de 1928.