Cantos de Maldoror
Canto
Primeiro
...
Assentemos em poucas linhas como Maldoror foi bom
nos seus primeiros anos, em que viveu feliz; está dito. Reparou depois que
tinha nascido mau: fatalidade extraordinária! Ocultou o seu carácter enquanto
pôde, durante um grande número de anos; mas, por fim, por causa desta
concentração que lhe não era natural, todos os dias o sangue lhe subia à
cabeça; até que, não podendo mais suportar tal vida, se atirou resolutamente
para a carreira do mal... doce atmosfera! Quem diria que, ao beijar uma criança
de rosadas faces, gostaria de lhe arrancar as bochechas à navalha, e que muitas
vezes o teria feito, se a Justiça, com seu longo cortejo de castigos, o não
tivesse impedido sempre! Não era mentiroso, ele, confessava a verdade e
dizia-se cruel. Humanos, ouvis?
...
Durante toda a minha vida vi os homens, de ombros
estreitos, fazerem, sem uma única excepção, actos estúpidos e numerosos,
embrutecerem os seus semelhantes e perverterem as almas por todos os meios. Aos
motivos das suas acções chamam glória. Ao ver estes espectáculos, quis rir como
os outros; mas isso, estranha imitação, era impossível. Peguei num canivete,
cuja lâmina tinha um afiado gume, e rasguei a carne nos sítios onde os lábios
se reúnem. Por um momento julguei ter atingido o objectivo. Contemplei num
espelho esta boca ferida por minha própria vontade! Era um erro! O sangue que
abundantemente corria dos dois ferimentos não deixava aliás distinguir bem se
era realmente aquele o riso dos outros. Mas, após alguns instantes de
comparação, vi claramente que o meu riso não se assemelhava ao dos humanos, que
eu não ria.
...
Deve-se deixar crescer as unhas durante quinze dias.
Oh! como é doce arrancar brutalmente da cama um menino que nada tem ainda sobre
o lábio superior, e, de olhos muito abertos, fingir passar-lhe suavemente a mão
na testa, puxando-lhe para trás os lindos cabelos! Depois de repente, quando
ele menos espera, enterrar-lhe as unhas compridas no peito mole, de modo a que
não morra; porque, se morresse, não se teria mais tarde o espectáculo das suas
misérias. Seguidamente, bebe-se o sangue, lambendo as feridas; e, enquanto
isto, que devia durar tanto como dura a eternidade, a criança chora. Nada é tão
bom como o seu sangue, extraído do modo que acabo de descrever, e ainda
quentinho; a não ser as suas lágrimas, amargas como o sal. Homem nunca provaste
o teu sangue quando por acaso deste um golpe num dedo? É bom, não é verdade? -
porque não tem gosto nenhum. Além disso, não te lembras de, um dia , nas tuas
lúgubres reflexões, teres levado a mão em concha ao rosto enfermiço molhado
pelo que dos teus olhos caía - mão que depois se dirigia fatalmente para a
boca, a qual absorvia as lágrimas a grandes tragos, nesta taça tremente como os
dentes do aluno que olha obliquamente aquele que nasceu para o oprimir? Como
elas são boas, não é verdade? - porque sabem a vinagre. Dir-se-ia que são
lágrimas da que mais amou; mas as lágrimas da criança são melhores ao paladar.
Ela não trai, porque não conhece ainda o mal; a que mais amou trai mais tarde
ou mais cedo... - adivinho-o por analogia, embora ignore o que é a amizade e o
amor (é provável que nunca venha a aceitá-los; pelo menos na raça humana).
Portanto, visto que o teu sangue e as tuas lágrimas não te causam nojo,
alimenta-te, alimenta-te confiadamente das lágrimas e do sangue do adolescente.
Venda-lhe os olhos enquanto lhe rasgas as carnes palpitantes; e, depois de
teres ouvido durante longas horas os seus gritos sublimes, semelhantes ao agudo
estertor que as gargantas dos feridos agonizantes soltam na batalha, então,
depois de te teres afastado como uma avalancha, precipita-te do quarto ao lado
e finge vir em seu auxilio. Irás desligar as mãos de nervos e veias inchados,
farás que os seus olhos perdidos voltem a ver, e pões-te a lamber-lhe as
lágrimas e o sangue. Como então é verdadeiro o arrependimento! A chispa divina
que em nós habita e tão raramente aparece mostra-se; tarde demais! Como o
coração rejubila por poder consolar o inocente a quem fizeram mal:
"Adolescente, que acabas de sofrer cruéis dores, quem ousou cometer este
crime que não tenho palavras para qualificar! Pobre de ti! Como tu deves
sofrer! E, se a tua mãe soubesse disto, não estaria mais perto da morte, tão
detestada pelos culpados, do que eu estou agora. Oh, que são então o bem e o
mal? Serão uma só coisa pela qual testemunhamos com raiva a nossa impotência e
a paixão de extinguirmos o infinito mesmo pelos meios mais insensatos? Ou serão
coisas diferentes? Sim... devem ser uma e a mesma coisa... pois, senão, em que
me tornaria eu no dia do juízo? Adolescente, perdoa-me; foi este que está
diante do teu rosto nobre e sagrado que quebrou os teus ossos e rasgou as tuas
carnes, agora pendentes em diversas partes do teu corpo. Terá sido um delírio
da minha razão doente, terá sido um secreto instinto que não depende dos meus
raciocínios, semelhantes ao da águia que dilacera a presa, que me levou a
cometer este crime; e, porém, tanto como a minha vítima, eu sofria!
Adolescente, perdoa-me. Uma vez saídos desta vida passageira, quero que
fiquemos entrelaçados durante a eternidade; que formemos um único ser, que a
minha boca fique colada à tua boca. E nem desta maneira será completo o meu
castigo. Então serás tu a dilacerar-me, sem te deteres nunca, com as unhas e
com os dentes. Enfeitarei meu corpo de grinaldas olorosas para este holocausto
expiatório: e sofreremos os dois, eu por ser dilacerado e tu por me dilacerares...
com a minha boca colada à tua boca. Ó adolescente de cabelos loiros, de olhos
tão doces, farás tu agora o que te aconselho? Queiras ou não, eu quero que o
faças, e tornarás feliz a minha consciência". Depois de teres falado
assim, serás amado por aquele mesmo ser humano a quem fizeste mal: é a maior
felicidade que se pode conceber. Mais tarde, poderás interna-lo no hospital;
porque, imobilizado, não poderá ganhar a vida. Dirão que tu és bom, e coroas de
louros e medalhas de oiro, esparsas sobre a grande pedra tumular, de aspecto
envelhecido, virão cobrir-te os pés descalços. Ó tu, cujo nome não quero
escrever nesta página que consagra a santidade do crime, eu sei que o teu
perdão foi imenso como o universo.
...
Fiz um pacto com a prostituição para semear a
desordem nas famílias. Recordo-me da noite que precedeu esta perigosa ligação.
Vi um túmulo à minha frente. Ouvi um pirilampo, tão grande como uma casa, que
me disse: "Vou alumiar-te. Lê a inscrição. Não é de mim que vem esta ordem
suprema". Uma vasta luz cor de sangue, em face da qual me bateram os
dentes e me caíram, inertes, os braços, espalhou-se nos ares até ao horizonte.
Eu encostei-me a um muro em ruínas, pois estava quase a cair, e li: "Aqui
jaz um adolescente que morreu de mal do peito: bem sabeis porquê. Não oreis por
ele". Talvez muitos homens não tivessem tido a coragem que eu tive.
Enquanto isto, veio uma bela mulher nua deitar-se-me aos pés. E eu, para ela,
de rosto triste: "Podes levantar-te". Estendi-lhe a mão com que o fratricida
corta o pescoço à irmã. E disse-me o pirilampo: "Pega numa pedra e mata-a.
- Porquê?", disse-lhe eu. E ele: "Toma cuidado contigo, tu és mais
fraco, porque eu sou o mais forte. Esta chama-se Prostituição". De
lágrimas nos olhos e raiva no coração, senti nascer em mim uma força
desconhecida. Peguei numa grande pedra; depois de muitos esforços, erguia a
custo à altura do peito; coloquei-a em cima do ombro com os braços. Subi a uma
montanha até ao alto: dali, esmaguei o pirilampo. A cabeça enterrou-se-lhe na
terra à profundidade da altura de um homem; a pedra ressaltou até à altura de
seis igrejas. Foi cair num lago, cujas águas baixaram por um instante,
revirando-se, cavando um imenso cone invertido. A calma voltou à superfície; a
luz de sangue deixou de brilhar. "Oh!, gritou a bela mulher nua, que
fizeste?" E eu para ela: "Prefiro-te a ele, porque tenho piedade dos
infelizes. Não tens culpa por a justiça eterna te ter criado". E ela:
"Virá o dia em que os homens me farão justiça; não te digo mais nada.
Deixa-me partir, para ir esconder no fundo do mar a minha tristeza infinita. Só
tu e os monstros repelentes que fervilham nesses negros abismos me não
desprezam. Tu és bom. Adeus, a ti que me deste amor!" E eu para ela:
"Adeus! Mais uma vez: adeus! Hei-de amar-te sempre!... A partir de hoje
abandono a virtude".
...
Vós que me olhais, afastai-vos de mim, pois o meu
hálito exala um sopro envenenado. Ninguém viu ainda as rugas verdes da minha
fronte; nem os ossos salientes do meu rosto magro, semelhantes às espinhas de
um peixe ou aos rochedos que cobrem as costas do mar, ou às abruptas montanhas
alpestres, que muitas vezes percorri, quando tinha na cabeça cabelos de outra
cor. E quando rondo as habitações dos homens, pelas noites tempestuosas, de
olhos ardentes, os cabelos flagelados pelo vento das tempestades, isolado como
uma pedra no meio do caminho, cubro a minha face desbotada com um pedaço de
veludo, negro como a fuligem que enche o interior das chaminés: importa que os
olhos não sejam testemunhas da fealdade que o Ser supremo, com um sorriso de
poderoso ódio, pôs em mim.
...
Não julgueis que estou a morrer, pois não sou
ainda um esqueleto, e a velhice não está colada à minha fronte. Afastemos, por
consequência, toda a ideia de comparação com o cisne, no momento em que a existência
lhe foge, e não vejais diante de vós mais que um monstro, cujo rosto,
felizmente para mim, não conseguis distinguir; e isto ainda que o rosto seja
menos horrível que a alma.
...
Na minha hora extrema (escrevo isto no meu leito
de morte) não me verão rodeado de padres. Quero morrer embalado pela vaga do
mar tempestuoso ou de pé no alto do monte... não de olhos voltados para cima:
sei que a minha destruição será completa. De resto, não tenho qualquer graça a
esperar. Quem abre a porta da minha câmara funerária? Eu tinha dito que ninguém
entrasse. Quem quer que sejas, afasta-te; mas, se julgas descobrir um sinal
qualquer de doçura ou de temor no meu rosto de hiena (uso esta comparação
embora a hiena seja mais bela do que eu, e de mais agradável aspecto),
desengana-te: aproxima-te. Estamos numa noite de Inverno, quando os elementos
por toda a parte se entrechocam, o homem tem medo e o adolescente medita um
crime qualquer a praticar na pessoa de um dos seus amigos, se for o que eu fui
na minha juventude. Que o vento, cujo assobiar dá tristeza à humanidade desde
que o vento e a humanidade existem, me leve, alguns momentos antes da última
agonia sobre os ossos das suas asas, através do mundo impaciente pela minha
morte. Gozarei ainda, em segredo, dos exemplos numerosos da maldade humana (um
irmão gosta de ver, sem ser visto, os actos dos seus irmãos). A águia, o corvo,
o imortal pelicano, o pato bravo, o viandante grou, despertados, a tiritarem de
frio, ver-me-ão passar à luz dos relâmpagos, espectro horrível e contente. Não
saberão que significa aquilo. Sobre a terra, a víbora, os grandes olhos do
sapo, o tigre, o elefante; no mar, a baleia, o tubarão, o peixe-martelo, a
informe raia, o dente da foca polar, perguntarão que excepção é esta à lei da
natureza. O homem, tremente, colará à terra a sua fronte, entre gemidos.
"Sim, a todos vos supero pela minha inata crueldade, que não dependeu de
mim apagar. É por isso que vos mostrais a mim desse modo prosternados? ou será
antes porque vedes, fenómeno novo, percorrer como um cometa assustador o espaço
ensanguentado? (Cai-me no vasto corpo uma chuva de sangue, como uma nuvem
enegrecida que o furacão leva à sua frente). Nada temais, meus filhos, não
quero maldizer-vos. O mal que me fizestes é demasiado grande, e demasiado
grande o mal que vos fiz, para que seja voluntário. Vós seguistes o vosso
caminho e eu o meu, e ambos semelhantes, e ambos perversos. Tivemos
necessariamente de nos encontrar nessa semelhança de caracter; o choque que daí
resultou foi-nos reciprocamente fatal". Então os homens irão reerguendo a
pouco e pouco a cabeça, recobrando coragem, para verem aquele que fala assim,
estendendo o pescoço como o caracol. De repente, o seu rosto ardente,
descomposto, denotando as mais terríveis paixões, fará tais caretas que os
lobos terão medo. Erguem-se ao mesmo tempo como uma imensa mola. Quantas
imprecações! Que vozes lancinantes! Reconheceram-me. Eis que os animais da
terra se reúnem aos homens e fazem ouvir seus estranhos clamores. Deixou de
existir o seu recíproco ódio; os dois ódios viram-se contra mim, o inimigo
comum; aproximam-se por um assentimento universal. Ó ventos que me sustentais,
elevai-me mais alto; temo a perfídia. Sim desapareçamos a pouco e pouco dos
seus olhos, eu mais uma vez testemunha das consequências das paixões e
completamente satisfeito... Eu te agradeço, ó rinólofo, por me teres acordado
com o movimento das tuas asas, tu, cujo nariz é encimado por uma crista em
forma de ferradura; vejo agora que na verdade não passava de passageira doença,
e, agoniado, sinto-me renascer para a vida. Há quem diga que vinhas a mim para
me sugares o pouco sangue que o meu corpo tem: Porque não será esta hipótese
verdadeira?
...
- Eis que por vezes se ouvem gritos no silêncio
das noites sem estrelas. Embora ouçamos esses gritos, aquele que os solta não
está, contudo, aqui perto; pois podem ouvir-se estes gemidos a três léguas de
distância, transportados pelo vento de cidade em cidade. Já muitas vezes me
tinham falado deste fenómeno; mas nunca tinha tido a ocasião de por mim mesmo
averiguar como é real. Mulher, tu falavas-me de desgraça; se alguma vez existiu
desgraça mais real na longa espiral do tempo, foi a desgraça daquele que está
agora perturbando o sono dos seus semelhantes...
Oiço ao longe prolongados gritos da mais pungente
dor.
- Queira o céu que o seu nascimento não seja uma
calamidade para o seu país, que do seu seio o expulsou. Vai de terra em terra,
por toda a parte detestado. Dizem uns que está atacado de uma espécie de
loucura originária, desde a infância. Outros julgam saber que é de uma extrema
e instintiva crueldade, de que ele próprio se envergonha, e que os pais
morreram de dor. Há quem pretenda que na juventude o desonraram com uma alcunha
e que por isso ficou inconsolável para o resto dos seus dias, porque a sua
dignidade ferida via nisso uma prova flagrante da maldade dos homens, que
aparece nos primeiros anos para depois ir aumentando. Essa alcunha era vampiro!...
Oiço ao longe prolongados gritos da mais pungente
dor.
- Dizem esses ainda que, de dia e de noite, sem
trégua nem descanso, horríveis pesadelos o fazem sangrar da boca e dos ouvidos;
e que se sentam espectros à cabeceira da sua cama e lhe deitam à cara,
impelidos contra sua vontade por uma força desconhecida, ora com voz doce, ora
com voz semelhante aos rugidos das batalhas, com implacável persistência, essa
alcunha sempre vivaz, sempre hedionda, e que só com o universo há-de ter fim.
Alguns chegaram a afirmar que foi o amor que o reduziu a este estado; ou que os
seus gritos são testemunho do arrependimento por um crime qualquer amortalhado
na noite do seu misterioso passado. A maioria, porém, pensa que é um
incomensurável orgulho que o tortura, como outrora a Satã, e que gostaria de
igualar-se a Deus...
Oiço ao longe prolongados gritos da mais pungente
dor.
...
O irmão da sanguessuga caminhava a passos lentos
pela floresta. Detém-se por diversas vezes abrindo a boca para falar. Mas, de
todas as vezes, a garganta fecha-se-lhe e repele o esforço abortado.
Finalmente, grita: "Homem, quando encontrares um cão morto de pernas para
o ar, encostado a uma represa que o impede de seguir, não vás, como os outros,
pegar com a tua mão nos vermes que lhe saem do ventre inchado, olhar para eles
com espanto, abrir uma navalha e depois esquartejá-los a muitos, dizendo para
contigo que também tu não virás a ser mais do que aquele cão. Que mistério
procuras tu? Nem eu nem as quatro patas natatórias do urso marinho do Oceano
Boreal pudemos encontrar o problema da tua vida. Toma cuidado, que a noite aproxima-se
e tu estás aí desde manhã. Que dirá a tua família, a tua irmãzinha, ao ver-te
chegar tão tarde? Lava as mãos e retoma o caminho que te leva ao lugar onde
dormes..."
...
Canto
Segundo
...
Raça estúpida e idiota! Hás-de arrepender-te de te
portares assim. Sou eu que to digo. Hás-de arrepender-te, olá, hás-de
arrepender-te. A minha poesia não consistirá senão em atacar por todos os meios
o animal feroz que é o homem, e o Criador, que nunca deveria ter engendrado
semelhante escória. Os livros hão-de amontoar-se uns sobre os outros até ao fim
da minha vida, e no entanto só encontrarão neles esta ideia, sempre presente à
minha consciência!
*
No meu passeio quotidiano, todos os dias passava
numa rua estreita; todos os dias uma esbelta menina de dez anos me seguia a
distancia, respeitosamente, ao longo dessa rua, olhando-me com pálpebras
simpáticas e curiosas. Era alta para a idade e tinha um corpo bem lançado.
Caíam-lhe sobre os ombros de mármore abundantes cabelos negros, separados no
alto da cabeça em duas tranças independentes. Um dia em que ela ia a seguir-me,
como de costume, o braço musculoso de uma mulher do povo agarrou-a pelos
cabelos , como o turbilhão pega na folha, deu-lhe duas bofetadas brutais numa
face altiva e muda, e fez voltar para casa aquela consciência perdida. Em vão
me fingi indiferente; ela não deixava nunca de me perseguir com a sua importuna
presença. Quando passava a outra rua para continuar o meu caminho, ela
ficava-se, fazendo um violento esforço sobre si própria, no fim daquela rua
estreita, imóvel como a estátua do silêncio, sempre a olhar em frente até eu
desaparecer. Uma vez a menina chegou primeiro que eu à rua, e acertou o passo
pelo meu, à minha frente. Quando eu andava mais depressa para a ultrapassar,
ela quase corria para manter a mesma distância entre nós; mas, se eu abrandava
o passo para que houvesse um intervalo grande entre ela e eu, então ela
abrandava também, e punha nisso toda a graça da infância. Chegada ao fim da
rua, voltou-se lentamente, de modo a impedir-me a passagem. Não tive tempo de
me esquivar e achei-me cara a cara com ela. Tinha os olhos inchados e
vermelhos. Era fácil ver que me queria falar e não sabia como consegui-lo.
Tornou-se de repente pálida como um cadáver e perguntou-me : "Podia fazer
o favor de me dizer as horas?" Disse-lhe que não usava relógio e
afastei-me rapidamente. Desde esse dia, ó criança de imaginação inquieta e
precoce, nuca mais voltaste a ver na rua estreita aquele jovem misterioso que
pisava penosamente com pesadas sandálias o chão dos tortuosos cruzamentos. Não
tornará a luzir a aparição deste cometa em chamas, como um triste motivo de
fanática curiosidade, sobre a fachada da tua observação iludida; e pensarás
muitas vezes, demasiadas vezes, e talvez sempre, naquele que não parecia
inquietar-se nem com os males nem com os bens da vida presente, e ia andando ao
acaso, com um rosto horrivelmente morto, de cabelo eriçado, passo vacilante e
braços nadando cegamente nas águas irónicas do éter, como que para procurar
nelas a presa ensanguentada da esperança, constantemente sacudida através das
imensas regiões do espaço pelo implacável limpa-neve da fatalidade. Não me
tornarás a ver e eu não te verei mais!... Quem sabe? Talvez aquela jovem não
fosse o que parecia. Debaixo de uma aparência ingénua, talvez ocultasse uma
astúcia imensa, o peso de dezoito anos e o encanto do vicio. Não é a primeira
vez que vendedoras de amor abandonam alegremente as ilhas britânicas e
atravessam o estreito. Estendem as asas, girando em doirados enxames na luz
parisiense; e quando davas por elas dizias: "São ainda umas crianças; não
têm mais que dez ou doze anos". Afinal, tinham vinte. Oh, nesta suposição,
malditos sejam os meandros daquela rua escura! Horrível! horrível o que ali se
passa! Creio que a mãe lhe bateu porque não exercia a profissão com suficiente
destreza. É possível que não passasse duma criança, e então a mãe é ainda mais
culpada. Por mim, não quero crer nesta suposição, que não passa duma hipótese,
e prefiro amar, neste caracter romanesco, uma alma que se desvenda cedo de
mais... Ah! estás a ver, menina, não quero que tornes a aparecer diante dos
meus olhos, se eu voltar a passar pela rua estreita. Podia custar-te caro! Já o
sangue e o ódio me sobem à cabeça em ferventes ondas. Eu, generoso a ponto de
amar os meus semelhantes? Não, não! Resolvi que não no dia em que nasci. Também
eles me não amam! Hão-de os montes destruir-se e o granito deslizar como um
corvo marinho sobre as ondas, antes que toque na mão infame de um ser humano. Para
trás... para trás, minha mão!... Ó menina, tu não és um anjo, e hás-de
tornar-te, afinal, como as outras mulheres. Não, não, peço-te; não apareças de
novo diante dos meus sobrolhos franzidos e vesgos. Num momento de desvario,
poderia pegar-te nos braços, torcê-los como roupa lavada para lhe tirar a água,
ou parti-los ruidosamente, como a dois ramos secos, e depois fazer-tos comer à
força. Poderia, segurando-te a cabeça entre as mãos, com ar caricioso e doce,
enterrar-te os dedos ávidos nos lóbulos do teu cérebro inocente, para extrair
de lá, com um sorriso nos lábios, um unto eficaz que me lave os olhos, doridos
da eterna insónia da vida. Poderia, cosendo-te as pálpebras com uma agulha,
privar-te do espectáculo do universo, e pôr-te diante da impossibilidade de
encontrares o teu caminho: e não seria eu a servir-te de guia. Poderia,
erguendo o teu corpo virgem com braço de ferro, agarrar-te pelas pernas,
fazer-te girar à minha volta como uma funda, concentrar as forças na última
circunferência, e lançar-te contra o muro. Cada uma das gotas de sangue irá
cair sobre um peito humano, para assustar os homens e pô-los diante da minha
maldade! Não pararão de arrancar pedaços e pedaços da própria carne, mas a gota
de sangue continua inapagável, no mesmo lugar, e brilhará como um diamante.
Fica descansada, que eu darei ordens a meia dúzia de criados para guardarem os
restos venerados do teu corpo, e os preservarem da fome dos cães vorazes. Claro
que o teu corpo ficou colado ao muro, como uma pêra madura, e não caiu no chão;
...
A multidão dispersa, e a noite não tarda a cobrir
com suas sombras os muros do cemitério. Mas consolai-vos, ó humanos, desta
perda dolorosa. Eis que avança a sua família inumerável, com a qual ele vos
gratificou liberalmente, para que o vosso desespero fosse menos amargo, como
que suavizado pela agradável presença destes quezilentos abortos, que mais
tarde se tornarão magníficos piolhos, ornados de notável beleza, monstros que
andam como sábios. Ele chocou várias dúzias de amados ovos, com a sua asa
maternal, em cima daqueles temíveis estrangeiros. Chegou prontamente o tempo de
os ovos abrirem. Não temais, eles não tardarão a crescer, esses adolescentes
filósofos, ao longo desta vida efémera. Hão-de crescer tanto que vo-lo farão
sentir com as suas garras e sugadouros.
Vós não sabeis porque é que eles não vos devoram
os ossos da cabeça, e se contentam em extrair com sua bomba a quinta-essência
do sangue. Esperai um instante e já vo-lo digo: é porque não têm força para
isso. Podem ficar certos de que, se a sua mandíbula fosse conforme a seus
desejos infinitos, os miolos, a retina dos olhos, a coluna vertebral, todos o
vosso corpo por lá passaria. Como uma gota de água. Observai com um microscópio
na cabeça de um jovem mendigo da rua um piolho a trabalhar, e depois me direis.
Infelizmente, eles são pequeninos, esse salteadores dos cabelos compridos. Não
seriam apurados para a tropa porque não têm o tamanho exigido pela lei.
Pertencem ao mundo liliputiano dos de perna curta, e os cegos não exitam em classificá-los
entre os infinitamente pequenos. Pobre do cachalote que se batesse com um
piolho. Seria devorado num abrir e fechar de olhos, apesar do seu tamanho. Nem
lhe sobraria a cauda para dar a noticia. O elefante deixa que lhe façam festas.
O piolho, não. Não vos aconselho essa perigosa tentativa. Mal de vós, se tendes
mão peluda, ou se a tendes só de carne e osso. Acabavam-se os vossos dedos.
Estalariam como se estivessem nas torturas. A pele desaparece por estranho
encanto. Os piolhos são incapazes de cometer todos o mal que a sua imaginação
medita. Se encontrardes um no vosso caminho, segui em frente e não lhe aduleis
as papilas da língua. Acontecia-vos um acidente. Já se tem visto isso. Não me
importo: já me contenta a quantidade de mal que ele faz, ó raça humana; mas
gostaria que ele te fizesse pior.
Até quando conservarás o culto carunchoso deste
deus, insensível às tuas orações e às oferendas generosas que lhe apresentas em
holocausto expiatório? Vês, ele não é grato, esse horrível figurão, pelas grandes
taças de sangue e de miolos que derramas sobre os seus altares, piedosamente
decorados com grinaldas de flores. Ele não te é grato... porque os tremores de
terra e as tempestades continuam a grassar desde o princípio das coisas. E, no
entanto (Espectáculo digno de contemplação!), quanto mais ele se mostra
indiferente, mais tu o admiras. Vê-se que não confias nos seus atributos, que
ele oculta; e o teu raciocínio apoia-se na consideração de que só uma divindade
dotada de extremo poder pode mostrar tanto desprezo pelos fieis que obedecem à
sua religião. É por isso que de país para país há diversos deuses: aqui o
crocodilo, além a vendedora de amor; mas quando se trata do piolho, a este nome
sagrado todos os povos, beijando universalmente as cadeias da sua escravidão,
se ajoelham em multidão diante do pedestal do ídolo informe e sanguinário. Povo
que não obedecesse aos seus próprios instintos de rastejar e que tentasse
revoltar-se desaparecia mais tarde ou mais cedo da face da terra, como a folha
de Outono, aniquilado pela vingança de deus inexorável.
Ó piolho de pupilas engelhadas, enquanto os rios
derramarem a queda das suas águas nos abismos do mar; enquanto os astros
giraram no caminho da sua órbita; enquanto o mundo vazio não tiver horizonte;
enquanto a humanidade rasgar suas próprias entranhas com funestas guerras;
enquanto a justiça divina precipitar seus raios vingadores sobre este globo
egoísta; enquanto o homem desconhecer o seu Criador e se rir dele, não sem
razão, com algum desprezo - o teu reinado sobre o universo estará seguro, e a
tua dinastia estenderá os seus anéis de século para século. Eu te saúdo, ó sol
nascente, libertador celeste, a ti, inimigo invisível do homem. Continua a
dizer à porcaria que se una a ele em beijos impuros, e que lhe jure, por votos
não escritos na areia, que permanecerá sua fiel amante até à eternidade. Beija
de tempos a tempos o vestido desta grande impudica, em memória dos importantes
serviços que ela te vai prestando. Se ela não seduzisse o homem com suas
lascivas tetas, talvez não pudesses existir, te que és produto dessa união
racional e consequente. Ó filho da porcaria, diz à tua mãe que, se abandonar o
leito do homem e for deambular pelas ruas solitárias, só e sem protecção, verá
comprometida a sua existência. Que as suas entranhas, que te trouxeram nove
meses dentro das suas paredes perfumadas, se comovam por um instante ao pensar
nos perigos que com isso correria o seu tenro fruto, tão delicado e tão
tranquilo, mas já frio e feroz. Porcaria, rainha dos impérios, conserva perante
os olhos do meu ódio o espectáculo do crescimento insensível dos músculos da
tua prole esfomeada. Para isso, sabes que te basta colares-te mais
estreitamente aos flancos do homem. Podes fazê-lo sem inconvenientes para o teu
podor, visto que sois casados há muito tempo. Quanto a mim, se me for permitido
acrescentar algumas palavras a este hino de glorificação, direi que mandei
construir uma fossa de quarenta léguas quadradas e de proporcional
profundidade. Ali jaz, em sua imunda virgindade, uma viva mina de piolhos. Ela
enche a parte mais funda da fossa, e serpenteia depois, em largas veias densas,
em todas as direcções. Eis como construí esta mina artificial. Arranquei um
piolho fêmea dos cabelos da humanidade. Viram-me ir para a cama com ele três
noites consecutivas, e deitei-o para a fossa. A fecundação humana, que em casos
semelhantes teria sido nula, foi desta vez aceite, por fatalidade; e, ao fim de
alguns dias, milhares de monstros, formigando num nó compacto de matéria,
vieram à luz. Este nó horrendo tornou-se, com o tempo, cada vez mais imenso,
adquirindo entretanto a propriedade líquida do mercúrio, e dividiu-se em
diferentes ramos, que actualmente se alimentam devorando-se a si mesmos (a
natalidade é maior que a mortalidade) sempre que não lhes atiro, para se
saciarem, um filho ilegítimo recém-nascido me cuja morte seja desejada pela
mãe, ou um braço que vou cortar a uma jovem qualquer, durante a noite, graças
ao clorofórmio. De quinze em quinze anos, as gerações de piolhos, que se alimentam
do homem, diminuem de maneira notável, e são elas que predizem, infalivelmente,
a época próxima da sua completa destruição. Porque o homem, mais inteligente
que o seu inimigo, consegue vencê-lo. Então, com uma pá infernal que me aumenta
as forças, extraio desta mina inesgotável blocos de piolhos, tão grandes como
montanhas, parto-os à machadada e levo-os, nas noites mais profundas, para as
artérias das cidades. Ali, em contacto com a temperatura humana, dissolvem-se
como nos primeiros dias da sua formação nas tortuosas galerias da mina
subterrânea, cavam um leito no saibro e espalham-se em rios pelas habitações,
como espíritos nefastos. O guarda da casa ladra surdamente, porque tem a
impressão de que há uma legião de seres desconhecidos a perfurar os poros dos
muros, e leva o terror à cabeceira do sono. Talvez já tenhais ouvido, ao menos
uma vez na vida, esta espécie de ladrar doloroso e prolongado. Com seus olhos
impotentes, ele tenta furar a obscuridade da noite, pois o seu cérebro de cão
não compreende aquilo. Aquele zumbido irrita-o, e sente que está a ser traído.
Milhões de inimigos se precipitam assim sobre cada cidade, como nuvens de
gafanhotos. E é por quinze anos. Irão combater o homem, causando-lhe agudos
ferimentos. Passado esse tempo, hei-de enviar outros. Quando esfarelo os blocos
de matéria animada, pode acontecer um fragmento ser mais denso do que os
outros. Os seus átomos tentam raivosamente separar a sua aglomeração para irem
atormentar a humanidade, mas a coesão resiste na sua dureza. Numa suprema
convulsão, produzem tal esforço, que a pedra, por não poder dispersar os seus
princípios vivos se atira a si própria ao alto como que por efeito de um
explosivo, e cai depois, enterrando-se solidamente no chão. Às vezes o sonhador
camponês vê um aerólito fender verticalmente o espaço, descendo em direcção a
um campo de milho. E não sabe donde vem a pedra. Aqui têm agora, clara e
sucinta, a explicação do fenómeno.
Se a terra estivesse coberta de piolhos como as
costas marinhas o estão de grãos de areia, seria aniquilada a raça humana,
entregue a terríveis dores. Que espectáculo! E eu, com asas de anjo, imóvel nos
ares, a contemplá-lo.
...
Diz-me lá: será porque conheces o meandro do meu
coração que, quando me acontece aparecer nos lugares onde velas, te apressas a
denunciar a minha presença perniciosa e a chamar a atenção dos adoradores para
o lado onde se vem mostrar o inimigo dos homens? Inclino-me para esta opinião;
porque também eu começo a conhecer-te; e sei quem tu és, ó velha bruxa, que tão
bem velas pelas mesquitas sagradas, onde se pavoneia, como crista de galo, o
teu louca missão. Aviso-te: da primeira vez em que me denunciares à prudência
dos meus semelhantes, aumentando os teus clarões fosforescentes, como não gosto
deste fenómeno de óptica, que aliás não vem mencionado em nenhum livro de
física, agarro-te pela pele do peito, colando as minhas garras às crostas da
tua nuca tinhosa, e atiro-te ao Sena. Não pretendo que, não estando eu a
fazer-te nada, te comportes deliberadamente de uma maneira que me prejudique.
Ali te deixarei brilhar o tempo que me apetecer; ali farás pouco de mim com um
sorriso inextinguível; ali, convencida da incapacidade do teu azeite criminoso,
hás-de uriná-lo amargamente.
...
É tempo de apertar os freios è minha inspiração e
de deter na estrada por um instante, como quando se contempla a vagina de uma
mulher; é bom examinar o caminho percorrido e lançar seguidamente num salto
impetuoso os membros repousados. Não é fácil fazer uma caminhada de um só
fôlego; e as asas cansam-se muito num voo alto, sem esperança e sem remorso.
Não... não levemos mais ao fundo a feroz matilha das picaretas e escavações
através das minas explosivas deste canto ímpio! O crocodilo não mudará uma
palavra ao vómito que lhe saiu debaixo do crânio. Tanto pior, se alguma sombra
furtiva, levada pelo objectivo louvável de vingar a humanidade por mim
injustamente atacada, abrir sub-repticiamente a porta do meu quarto, roçando a
parede como a asa de um albatroz, e cravar um punhal nas costas do salteador
dos destroços celestes! É indiferente que a argila dissolva os seus átomos
dessa ou de outra maneira.
...
Canto
Terceiro
...
Contaram-me o que se passou; porque eu não estive
presente ao acontecimento que teve por consequência a morte da minha filha. Se
o tivesse estado, teria defendido aquele anjo pelo preço do meu sangue...
Maldoror ia a passar com o seu buldogue; vê uma menina a dormir à sombra de um
plátano, e a princípio toma-a por uma rosa... Não se pode dizer o que lhe veio
primeiro ao espírito, se a visão daquela criança, se a resolução que foi sua
consequência. Despe-se rapidamente, como quem sabe o que vai fazer. Nu como uma
pedra, atirou-se sobre o corpo da menina e levantou-lhe o vestido para cometer
um atentado ao pudor... à luz do dia! Sim, não se incomoda com isso!... Não
insistamos naquele acto impuro. De espírito descontente, torna a vestir-se
precipitadamente, deita um olhar de prudência para o caminho poeirento onde
ninguém passa, e dá ordem ao buldogue para estrangular com as mandíbulas a
menina ensanguentada. Indica ao cão da montanha o lugar onde a vítima sofredora
respira e grita, e afasta-se para não ser testemunha da entrada dos dentes
pontiagudos nas róseas veias. O cumprimento desta ordem talvez tenha parecido
severo ao buldogue. Achou que lhe estavam a pedir aquilo que já fora feito, e
contentou-se, aquele lobo de monstruoso focinho, em violar por sua vez a
virgindade daquela criança delicada. Do ventre dilacerado, o sangue corre-lhe
de novo pelas pernas abaixo, pelo prado fora. Os seus gemidos juntam-se ao
choro do animal. A menina mostra-lhe a cruz de ouro que lhe enfeitava o
pescoço, para tentar que ele a poupe; não tinha ousado mostrá-la aos olhos
ferozes daquele que primeiro tinha tido a ideia de aproveitar da fraqueza da
sua idade. Mas o cão não ignorava que, se desobedecesse ao dono, uma faca
lançada debaixo da manga lhe abriria bruscamente as entranhas, sem prévio
aviso. Maldoror (como repugna pronunciar este nome!) escutava as agonias da
dor, e espantava-se de que a vítima tivesse a vida tão dura para não ter
morrido ainda. Aproxima-se do altar do sacrifício e observa o comportamento do
buldogue, entregue às más tendências, e que erguia a cabeça acima da da menina,
tal como um naufrago a ergue acima das vagas iradas. Dá-lhe um pontapé e
vaza-lhe um olho. O buldogue, enfurecido, foge pelos campos, arrastando
consigo, durante um troço de caminho que sempre seria comprido por muito curto
que fosse, o corpo suspenso da menina, que apenas se soltou por força dos
movimentos sacudidos da fuga; mas teme atacar o dono, que nunca mais tornará a
vê-lo. Este tira da algibeira um canivete americano, composto de dez a doze
lâminas para diversos usos. Abre as patas angulosas daquela hidra de aço; e,
munido de tal escalpelo, vendo que a erva não tinha ainda desaparecido sob a
cor de tanto sangue derramado, apresenta-se, sem empalidecer, para esquadrilhar
corajosamente a vagina da pobre criança. Daquele buraco alargado, vai
retirando, uns a seguir aos outros, os órgãos interiores; os intestinos, os
pulmões, o fígado e finalmente o próprio coração, são arrancados dos seus
alicerces e trazidos à luz do dia, pela pavorosa abertura. O sacrificador dá-se
conta de que a menina, frango esvaziado, morreu há muito tempo; cessa a
crescente insistência da sua devastação e deixa que o cadáver readormeça à
sombra do plátano.
...
Ei-los que traçam círculos de concentricidade cada
vez menor, espiando os seus recíprocos movimentos, antes de lutarem; fazem bem.
O dragão parece-me mais forte; gostava que conquistasse a vitória sobre a
águia. Vou experimentar grandes emoções, neste espectáculo em que está
comprometida uma parte do meu ser. Ó poderoso dragão, eu te incitarei com os
meus gritos, se for necessário, pois é do interesse da águia ser vencida. Por que
esperavam eles para se atacarem? Estou em transes de morte. Vá lá, dragão,
começa, primeiro tu, ataca. Acabas de lhe vibrar um seco golpe com as garras;
não está lá muito mal. Garanto-te que a águia o sentiu; o vento leva-lhe a
beleza das plumas, manchadas de sangue. Oh! a águia arranca-te um olho com o
bico, e tu apenas lhe tinhas arrancado a pele; era preciso estar com atenção a
isso. Bravo, vinga-te, e parte-lhe uma asa; não há nada a dizer, os teus dentes
de tigre são muito bons. Se te pudesses aproximar da águia, enquanto ela
volteja no teu espaço, descendo para o campo! Estou a notar que esta águia e
inspira moderação mesmo quando cai. Agora que está no chão e não poderá tornar
a levantar-se. Vai a voar à flor da terra è volta dela, e com golpes da tua
cauda de escamas de serpente acaba com ela, se puderes. Coragem, belo dragão;
crava-lhe as tuas garras vigorosas, e que o sangue se misture ao sangue, para
formar regatos onde não haja água. É fácil dizer, mas não de fazer. A águia
acaba de meditar um novo plano estratégico de defesa, tornado possível pelos
malfadados acasos desta memorável luta; é prudente, ela. Sentou-se solidamente
numa posição inabalável, na asa que lhe resta, nas duas coxas e na cauda que
antes lhe servia de leme. Desafia esforços mais extraordinários do que aqueles
que até agora lhe opuseram. Umas vezes volta-se tão depressa como o tigre, sem
mostrar cansaço; outras, deita-se de costas, com as patas para o ar, e, com
sangue-frio, contempla ironicamente o adversário. No fim de contas hei-de saber
quem será o vencedor; o combate não pode eternizar-se. Imagino as consequências
que disto resultarão! A águia é terrível e dá saltos enormes que abalam a
terra, como se fosse levantar voo; mas sabe que isso lhe é impossível. O dragão
não se fia; julga a cada momento que a águia vai ataca-lo pelo lado onde lhe
falta o olho... Pobre de mim! É isso mesmo que acontece. Como é que o dragão se
deixou apanhar pelo peito? Em vão utiliza a força e a astúcia; estou a ver a
águia, colada a ele por todos os seus membros como uma sanguessuga, e que,
apesar dos ferimentos que vai sofrendo, crava o bico cada vez mais fundo, até à
raiz do pescoço, no ventre do dragão. Só se lhe vê o corpo. Parece estar à
vontade; não tem pressa de sair. Está com certeza à procura de alguma coisa,
enquanto o dragão de cabeça de tigre solta bramidos que acordam as florestas.
Lá está a águia a sair daquela caverna. Ó águia, como estás horrível! Estás
mais vermelha do que um charco de sangue! Embora segures no bico nervoso um
coração palpitante, estás de tal modo coberta de feridas que mal te podes
suster nas patas emplumadas; e cambaleias sem abrires o bico, ao lado do dragão
que morre em medonhas agonias. Foi difícil, a vitória; mas não importa, foste
tu que a conquistaste: ao menos, diga-se a verdade...
...
Era um dia de Primavera. Espalhavam as aves os
seus gorjeios, e os humanos, entregues aos seus diversos deveres, banhavam-se
na santidade do cansaço. Tudo trabalhava para o seu destino: as árvores, os
planetas, os esqualos. Tudo, excepto o Criador! Estava estendido na estrada,
com as vestes rasgadas. O beiço inferior descaía-lhe como um cabo hipnótico;
não tinha os dentes lavados e a poeira misturava-se-lhe às loiras ondas do
cabelo. Entorpecido por um pesado sono, esmagado contra as pedras, o seu corpo
fazia inúteis tentativas para se levantar. As forças tinham-no abandonado, e
ali jazia, fraco como uma minhoca, impassível como uma carapaça. Ondas de vinho
enchiam os sulcos cavados pelos sobressaltos nervosos dos seus ombros. O embrutecimento,
de focinheira de porco, cobria-o com suas asas protectoras, e deitava-lhe um
olhar de amor. As pernas, de músculos dispensas, varriam o chão, como dois
mastros cegos. Corria-lhe o sangue nas narinas: na queda, tinha batido com a
cara contra um poste... Estava bêbedo! Horrivelmente bêbedo! Bêbedo como um
percevejo depois de ter mascado durante a noite três pipas de vinho! Ia
enchendo o eco com palavras incoerentes, que nem por sombras repetirei aqui; se
o supremo bêbedo não se respeita, eu tenho obrigação de respeitar os homens.
Quem havia de dizer que o Criador... se embebedava! Piedade para aqueles
beiços, manchados nas taças da orgia! O ouriço, que ia a passar, cravou-lhe os
espinhos nas costas e disse: "Ora toma. O sol está a meio do caminho:
trabalha, preguiçoso, e não comas o pão dos outros. Espera que já vais ver como
eu chamo a catatua de bico adunco". O picanço e a coruja, que iam a
passar, cravaram-lhe o bico todo na barriga e disseram: "Ora toma. Que
vens tu fazer à terra? É para ofereceres aos animais esta lúgubre comédia? Mas
juro-te que nem a toupeira, nem o causar, nem o flamingo, te hão-de
imitar". O burro, que ia a passar, deu-lhe um coice nas têmporas e disse:
"Ora toma. Que te tinha eu feito para me dares umas orelhas tão compridas?
Todos, e até o grilo, me desprezam". O sapo, que ia a passar, atirou-lhe
para a testa um esguicho de baba e disse: "Ora toma. Se não me tivesses
feito os olhos tão grandes e eu não te tivesse visto no estado em que te vejo,
teria castamente escondido a beleza dos teus membros debaixo de uma chuva de
ranúnculos, de miosótis e de camélias, para que ninguém te visse". O leão,
que ia a passar, inclinou a real face e disse: "Quanto a mim, respeito-o,
embora o seu esplendor nos pareça por agora escondido. Vós que vos fazeis
orgulhosos e não passais de uns cobardes, porque o atacaste quando ele estava a
dormir, ficaríeis contentes se, no lugar dele, suportásseis de quem passa as
injúrias que lhe não poupastes?". O homem, que ia a passar, parou diante do
desprezado Criador; e, sob os aplausos do chato e da víbora, defecou-lhe
durante três dias em cima do augusto rosto! Ai do homem, por causa desta
injúria, porque não respeitou o inimigo, estendido naquela mistura de lama, de
sangue e de vinho, sem defesa e quase inanimado!... Então, o Deus soberano,
acordado finalmente por todos este mesquinhos insultos, levantou-se como pôde;
a cambalear, foi sentar-se numa pedra, de braços caídos como os dois testículos
do tuberculoso, e deitou um olhar vítreo, sem chama, à natureza inteira, que
lhe pertencia. Ó humanos, vós sois meninos malcriados; mas, suplico-vos,
poupemos esta grande existência que não acabou ainda de cozer o licor imundo, e
que, não tendo ainda forças para se manter de pé, voltou a cair pesadamente em
cima daquela pedra, onde se sentou, como um caminhante. Observai este mendigo
que vai a passar; viu que o dervixe estendia o braço esfomeado e, sem saber a
quem dava esmola, deitou um pedaço de pão naquela mão que implora misericórdia.
O Criador exprimiu-lhe o seu reconhecimento abanando a cabeça. Ah! vós nunca
haveis de saber como se torna difícil segurar constantemente nas mãos as rédeas
do universo! Às vezes o sangue sobe à cabeça, quando nos pomos a tirar do nada
mais um cometa com uma nova raça de espíritos. A inteligência, muito turvada de
alto a baixo, retira-se como um vencido, e pode cair, uma vez na vida nos erros
de que tendes sido testemunhas!
...
Choravam lágrimas silenciosas; sentiam vagamente
que eu já não era o mesmo, que me tinha tornado inferior à minha identidade.
Gostariam de saber que funesta decisão me tinha levado a saltar as fronteiras
do céu para me vir precipitar sobre a terra e saborear efémeras volúpias, que
eles são os primeiros a desprezar profundamente. Notaram-me na testa uma gota de
esperma, uma gota de sangue. A primeira tinha saltado das coxas da cortesã! A
segunda tinha jorrado das veias do mártir! Odiosos estigmas! Inabaláveis
rosáceas! Os meus arcanjos foram encontrar, pendurados nos silvedos do espaço,
Os restos flamejantes da minha túnica de opala, que flutuavam sobre os povos
boquiabertos. Não foram capazes da a reconstruir, e o meu corpo mantém-se nu
diante da sua inocência; memorável castigo da virtude abandonada. Vê os sulcos
que cavaram leito nas minhas faces descoloridas: são a gota de esperma e a gota
de sangue, que me escorrem lentamente ao longo das rugas secas. Uma vez
chegadas ao lábio superior, fazem um imenso esforço e penetram-me no santuário
da boca, atraídas, como por um íman, pela garganta irresistível. E abafam-me,
essas duas gotas implacáveis. Até agora julgava-me eu o Todo-Poderoso; mas não,
tenho de baixar a cabeça diante do remorso que me grita: 'Não passas de um
miserável!' Não dês esses saltos! Cala-te... cala-te... se alguém te ouvisse!
eu torno a colocar-te no meio dos outros cabelos; mas deixa primeiro que o sol
se ponha no horizonte, para que a noite te cubra os passos... Eu vi Satã, o
grande inimigo, erguer a trama ossuda do arcaboiço acima do seu torpor de larva
e, de pé, triunfante, sublime, arengar às suas tropas reunidas; meter-me a
ridículo, como mereço. Disse que estava muito espantado por o seu orgulhoso
rival, apanhado em flagrante delito graças ao êxito, finalmente conseguido, de
uma perpétua espionagem, poder assim descer ao ponto de beijar o vestido do
humano deboche, por uma viagem de longo curso, através dos recifes do éter, e
dar a morte, entre sofrimentos, a um membro da humanidade. Disse ele que aquele
jovem, esmagado na engrenagem dos meus suplícios requintados, talvez pudesse
vir a tornar-se uma inteligência de génio e a consolar os homens deste mundo
com admiráveis cantos de poesia, de coragem, contra os golpes da desfortuna.
Disse ele que as freiras do convento-lupanar já não são capazes de dormir;
rondam pelo pátio, gesticulando como autómatos, esmagando com os pés os
ranúnculos e os lilases; enlouqueceram de indignação, mas não tanto que não se
recordem da causa que lhes deu origem àquela doença do cérebro... (Ei-las que
avançam, vestidas da sua mortalha branca; não falam entre si; vêm de mãos
dadas. Os cabelos caem-lhes em desordem pelos ombros nus; um ramo de flores
negras debruça-se-lhes do seio. Freiras, voltai para os jazigos, a noite ainda
não chegou de todo; estamos ainda no crepúsculo da tarde... Ó cabelo, bem vês
como de todos os lados me assalta o desenfreado sentimento da minha
depravação!). Disse ele que o Criador, que se gaba de ser a Providência de tudo
quanto existe, se conduziu com muita leviandade, para não dizer pior, dando tal
espectáculo aos mundos estelares; pois afirmou claramente a intenção que tinha
de ir contar pelos planetas orbiculares como eu asseguro, com o meu exemplo, a
virtude e a bondade na vastidão dos meus reinos. Disse ele que a grande estima
que sentia por um tão nobre inimigo se tinha evaporado da sua imaginação, e que
preferia deitar a mão ao peito de uma donzela, embora isso seja um acto de
execrável maldade, a cuspir-me na cara, coberta de três camadas de esperma e de
sangue misturados, para não sujar o seu escarro babado. Disse ele que se julgava
com razão superior a mim, não pelo vício, mas pela virtude e pelo pudor; não
pelo crime, mas pela justiça. Disse ele que era preciso amarrarem-me a uma
grade, em virtude das minha inumeráveis faltas; queimarem-me a lume brando num
braseiro ardente, para seguidamente me deitarem ao mar, se o mar me quisesse
receber.
...
Canto
Quarto
...
Eu conheço ou concebo uma doença mais terrível do
que os olhos inchados pelas longas meditações sobre o estranho caracter do
homem: mas procuro-a ainda... Não consegui encontrá-la!
...
Estou sujo. Roído de piolhos. Os porcos, quando
olham para mim, vomitam. As crostas e pústulas da lepra escamaram-se na pele
coberta de pus amarelado. Não conheço a água dos rios nem o orvalho das nuvens.
Na nuca, como num fumeiro, cresce-me um enorme cogumelo, de pedúnculos
umbelíferos. Sentado num traste informe, não mexi um membro desde há quatro
séculos. Os pés tomaram raiz no solo e compõem até ao ventre uma espécie de
vivaz vegetação, cheia de ignóbeis parasitas, que não deriva ainda da planta e
que já não é carne. No entanto, o coração bate. Mas como haveria ele de bater
se a podridão e as exalações do meu cadáver (não ouso dizer corpo) não o
alimentassem abundantemente? Na axila esquerda, uma família de sapos fez a
morada, e quando um se mexe faz-me cócegas. Cuidado, não vá fugir algum que me
venha roçar com a boca no interior da orelha; era capaz de, depois, entrar no
cérebro. Na axila direita há um camaleão que lhes dá caça incessante para não
morrer de fome: todos têm de viver. Mas quando uma das partes frustra
completamente as manhas da outra, acham que o melhor que têm a fazer é não se
incomodarem, e chuparem a gordura delicada que me cobre as costas: já estou
habituado. Uma víbora malvada devorou-me o pénis e pôs-se no seu lugar;
tornou-me eunuco, a porca. Ah, se eu tivesse podido defender-me com os meus
braços paralisados; mas creio antes que eles se transformaram em cavacos. Seja
como for, importa verificar que o sangue já lá não vai passear a sua
vermelhidão. Dois pequenos ouriços, que pararam de crescer, deitaram a um cão,
que não recusou, o interior dos meus testículos: depois de cuidadosamente
lavada a epiderme, meteram-se dentro dela. O ânus foi interceptado por um caranguejo;
animado pela inércia, guarda a entrada com suas tenazes, e faz-me doer muito!
Duas medusas atravessaram os mares, imediatamente atraídas por uma esperança
que não foi iludida. Olharam com atenção as duas partes carnudas que formam o
traseiro humano e, fixando-se no seu contorno convexo, esmagaram-nas tanto por
uma pressão constante, que os dois pedaços de carne desapareceram, ficando lá
dois monstros saídos do reino da viscosidade, iguais na cor, na forma e na
ferocidade.
...
Ó pai infortunado, prepara para acompanhar os
passos da tua velhice o inapagável cadafalso que cortará a cabeça ao criminoso
precoce e a dor que te mostrará o caminho do túmulo.
...
A metamorfose nunca surgiu a meus olhos senão como
a alta e magnânime retumbância de uma felicidade perfeita, que há muito tempo
esperava. Chegou finalmente o dia de eu ser suíno!
......
Canto Sexto
...
Mervyn, de face cheia de lágrimas, pensava que
encontrara, por assim dizer à entrada da vida, um precioso apoio para as
futuras adversidades. Podeis ficar certos de que o outro não dizia nada. Eis o
que ele fez: desdobrou o saco que levava, desatou a abertura, e, agarrando no
adolescente pela cabeça, obrigou todo o seu corpo a entrar no invólucro de
linhagem. Com o lenço, atou a extremidade que servia de entrada. Como Mervyn
soltava gritos agudos, levantou o saco, como se fosse um embrulho de roupa, e
bateu com ele diversas vezes no parapeito da ponte. Então, o paciente, dando-se
conta de que os ossos lhe estalavam, calou-se. Cena única, que nenhum romancista
votará a encontrar! Ia a passar um magarefe sentado nas carnes da sua carroça.
Corre para ele um indivíduo e diz-lhe: "Está aqui um cão tinhoso fechado
neste saco; abata-o o mais depressa possível". O interpelado mostrou-se
complacente. O que interpelara, ao afastar-se vê uma jovem andrajosa que lhe
estende a mão. Até onde irá o cúmulo da audácia e da impiedade? Dá-lhe uma
esmola! Dizei-me se quereis que vos leve, algumas horas mais tarde, à porta de
um matadouro afastado. O magarefe voltou e diz para os colegas, deitando um
fardo no chão: "Vamos matar já este cão tinhoso". São quatro, e cada
um deles agarra no martelo do costume. E, no entanto, hesitavam, porque o saco
mexia-se com força. "Que emoção é esta que se apodera de mim?",
gritou um deles, baixando lentamente o braço. "Este cão é como uma criança
a soltar gemidos de dor, diz outro; parece que compreende a sorte que o
espera".
...