Cantos de Maldoror

 

Canto Primeiro

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Assentemos em poucas linhas como Maldoror foi bom nos seus primeiros anos, em que viveu feliz; está dito. Reparou depois que tinha nascido mau: fatalidade extraordinária! Ocultou o seu carácter enquanto pôde, durante um grande número de anos; mas, por fim, por causa desta concentração que lhe não era natural, todos os dias o sangue lhe subia à cabeça; até que, não podendo mais suportar tal vida, se atirou resolutamente para a carreira do mal... doce atmosfera! Quem diria que, ao beijar uma criança de rosadas faces, gostaria de lhe arrancar as bochechas à navalha, e que muitas vezes o teria feito, se a Justiça, com seu longo cortejo de castigos, o não tivesse impedido sempre! Não era mentiroso, ele, confessava a verdade e dizia-se cruel. Humanos, ouvis?

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Durante toda a minha vida vi os homens, de ombros estreitos, fazerem, sem uma única excepção, actos estúpidos e numerosos, embrutecerem os seus semelhantes e perverterem as almas por todos os meios. Aos motivos das suas acções chamam glória. Ao ver estes espectáculos, quis rir como os outros; mas isso, estranha imitação, era impossível. Peguei num canivete, cuja lâmina tinha um afiado gume, e rasguei a carne nos sítios onde os lábios se reúnem. Por um momento julguei ter atingido o objectivo. Contemplei num espelho esta boca ferida por minha própria vontade! Era um erro! O sangue que abundantemente corria dos dois ferimentos não deixava aliás distinguir bem se era realmente aquele o riso dos outros. Mas, após alguns instantes de comparação, vi claramente que o meu riso não se assemelhava ao dos humanos, que eu não ria.

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Deve-se deixar crescer as unhas durante quinze dias. Oh! como é doce arrancar brutalmente da cama um menino que nada tem ainda sobre o lábio superior, e, de olhos muito abertos, fingir passar-lhe suavemente a mão na testa, puxando-lhe para trás os lindos cabelos! Depois de repente, quando ele menos espera, enterrar-lhe as unhas compridas no peito mole, de modo a que não morra; porque, se morresse, não se teria mais tarde o espectáculo das suas misérias. Seguidamente, bebe-se o sangue, lambendo as feridas; e, enquanto isto, que devia durar tanto como dura a eternidade, a criança chora. Nada é tão bom como o seu sangue, extraído do modo que acabo de descrever, e ainda quentinho; a não ser as suas lágrimas, amargas como o sal. Homem nunca provaste o teu sangue quando por acaso deste um golpe num dedo? É bom, não é verdade? - porque não tem gosto nenhum. Além disso, não te lembras de, um dia , nas tuas lúgubres reflexões, teres levado a mão em concha ao rosto enfermiço molhado pelo que dos teus olhos caía - mão que depois se dirigia fatalmente para a boca, a qual absorvia as lágrimas a grandes tragos, nesta taça tremente como os dentes do aluno que olha obliquamente aquele que nasceu para o oprimir? Como elas são boas, não é verdade? - porque sabem a vinagre. Dir-se-ia que são lágrimas da que mais amou; mas as lágrimas da criança são melhores ao paladar. Ela não trai, porque não conhece ainda o mal; a que mais amou trai mais tarde ou mais cedo... - adivinho-o por analogia, embora ignore o que é a amizade e o amor (é provável que nunca venha a aceitá-los; pelo menos na raça humana). Portanto, visto que o teu sangue e as tuas lágrimas não te causam nojo, alimenta-te, alimenta-te confiadamente das lágrimas e do sangue do adolescente. Venda-lhe os olhos enquanto lhe rasgas as carnes palpitantes; e, depois de teres ouvido durante longas horas os seus gritos sublimes, semelhantes ao agudo estertor que as gargantas dos feridos agonizantes soltam na batalha, então, depois de te teres afastado como uma avalancha, precipita-te do quarto ao lado e finge vir em seu auxilio. Irás desligar as mãos de nervos e veias inchados, farás que os seus olhos perdidos voltem a ver, e pões-te a lamber-lhe as lágrimas e o sangue. Como então é verdadeiro o arrependimento! A chispa divina que em nós habita e tão raramente aparece mostra-se; tarde demais! Como o coração rejubila por poder consolar o inocente a quem fizeram mal: "Adolescente, que acabas de sofrer cruéis dores, quem ousou cometer este crime que não tenho palavras para qualificar! Pobre de ti! Como tu deves sofrer! E, se a tua mãe soubesse disto, não estaria mais perto da morte, tão detestada pelos culpados, do que eu estou agora. Oh, que são então o bem e o mal? Serão uma só coisa pela qual testemunhamos com raiva a nossa impotência e a paixão de extinguirmos o infinito mesmo pelos meios mais insensatos? Ou serão coisas diferentes? Sim... devem ser uma e a mesma coisa... pois, senão, em que me tornaria eu no dia do juízo? Adolescente, perdoa-me; foi este que está diante do teu rosto nobre e sagrado que quebrou os teus ossos e rasgou as tuas carnes, agora pendentes em diversas partes do teu corpo. Terá sido um delírio da minha razão doente, terá sido um secreto instinto que não depende dos meus raciocínios, semelhantes ao da águia que dilacera a presa, que me levou a cometer este crime; e, porém, tanto como a minha vítima, eu sofria! Adolescente, perdoa-me. Uma vez saídos desta vida passageira, quero que fiquemos entrelaçados durante a eternidade; que formemos um único ser, que a minha boca fique colada à tua boca. E nem desta maneira será completo o meu castigo. Então serás tu a dilacerar-me, sem te deteres nunca, com as unhas e com os dentes. Enfeitarei meu corpo de grinaldas olorosas para este holocausto expiatório: e sofreremos os dois, eu por ser dilacerado e tu por me dilacerares... com a minha boca colada à tua boca. Ó adolescente de cabelos loiros, de olhos tão doces, farás tu agora o que te aconselho? Queiras ou não, eu quero que o faças, e tornarás feliz a minha consciência". Depois de teres falado assim, serás amado por aquele mesmo ser humano a quem fizeste mal: é a maior felicidade que se pode conceber. Mais tarde, poderás interna-lo no hospital; porque, imobilizado, não poderá ganhar a vida. Dirão que tu és bom, e coroas de louros e medalhas de oiro, esparsas sobre a grande pedra tumular, de aspecto envelhecido, virão cobrir-te os pés descalços. Ó tu, cujo nome não quero escrever nesta página que consagra a santidade do crime, eu sei que o teu perdão foi imenso como o universo.

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Fiz um pacto com a prostituição para semear a desordem nas famílias. Recordo-me da noite que precedeu esta perigosa ligação. Vi um túmulo à minha frente. Ouvi um pirilampo, tão grande como uma casa, que me disse: "Vou alumiar-te. Lê a inscrição. Não é de mim que vem esta ordem suprema". Uma vasta luz cor de sangue, em face da qual me bateram os dentes e me caíram, inertes, os braços, espalhou-se nos ares até ao horizonte. Eu encostei-me a um muro em ruínas, pois estava quase a cair, e li: "Aqui jaz um adolescente que morreu de mal do peito: bem sabeis porquê. Não oreis por ele". Talvez muitos homens não tivessem tido a coragem que eu tive. Enquanto isto, veio uma bela mulher nua deitar-se-me aos pés. E eu, para ela, de rosto triste: "Podes levantar-te". Estendi-lhe a mão com que o fratricida corta o pescoço à irmã. E disse-me o pirilampo: "Pega numa pedra e mata-a. - Porquê?", disse-lhe eu. E ele: "Toma cuidado contigo, tu és mais fraco, porque eu sou o mais forte. Esta chama-se Prostituição". De lágrimas nos olhos e raiva no coração, senti nascer em mim uma força desconhecida. Peguei numa grande pedra; depois de muitos esforços, erguia a custo à altura do peito; coloquei-a em cima do ombro com os braços. Subi a uma montanha até ao alto: dali, esmaguei o pirilampo. A cabeça enterrou-se-lhe na terra à profundidade da altura de um homem; a pedra ressaltou até à altura de seis igrejas. Foi cair num lago, cujas águas baixaram por um instante, revirando-se, cavando um imenso cone invertido. A calma voltou à superfície; a luz de sangue deixou de brilhar. "Oh!, gritou a bela mulher nua, que fizeste?" E eu para ela: "Prefiro-te a ele, porque tenho piedade dos infelizes. Não tens culpa por a justiça eterna te ter criado". E ela: "Virá o dia em que os homens me farão justiça; não te digo mais nada. Deixa-me partir, para ir esconder no fundo do mar a minha tristeza infinita. Só tu e os monstros repelentes que fervilham nesses negros abismos me não desprezam. Tu és bom. Adeus, a ti que me deste amor!" E eu para ela: "Adeus! Mais uma vez: adeus! Hei-de amar-te sempre!... A partir de hoje abandono a virtude".

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Vós que me olhais, afastai-vos de mim, pois o meu hálito exala um sopro envenenado. Ninguém viu ainda as rugas verdes da minha fronte; nem os ossos salientes do meu rosto magro, semelhantes às espinhas de um peixe ou aos rochedos que cobrem as costas do mar, ou às abruptas montanhas alpestres, que muitas vezes percorri, quando tinha na cabeça cabelos de outra cor. E quando rondo as habitações dos homens, pelas noites tempestuosas, de olhos ardentes, os cabelos flagelados pelo vento das tempestades, isolado como uma pedra no meio do caminho, cubro a minha face desbotada com um pedaço de veludo, negro como a fuligem que enche o interior das chaminés: importa que os olhos não sejam testemunhas da fealdade que o Ser supremo, com um sorriso de poderoso ódio, pôs em mim.

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Não julgueis que estou a morrer, pois não sou ainda um esqueleto, e a velhice não está colada à minha fronte. Afastemos, por consequência, toda a ideia de comparação com o cisne, no momento em que a existência lhe foge, e não vejais diante de vós mais que um monstro, cujo rosto, felizmente para mim, não conseguis distinguir; e isto ainda que o rosto seja menos horrível que a alma.

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Na minha hora extrema (escrevo isto no meu leito de morte) não me verão rodeado de padres. Quero morrer embalado pela vaga do mar tempestuoso ou de pé no alto do monte... não de olhos voltados para cima: sei que a minha destruição será completa. De resto, não tenho qualquer graça a esperar. Quem abre a porta da minha câmara funerária? Eu tinha dito que ninguém entrasse. Quem quer que sejas, afasta-te; mas, se julgas descobrir um sinal qualquer de doçura ou de temor no meu rosto de hiena (uso esta comparação embora a hiena seja mais bela do que eu, e de mais agradável aspecto), desengana-te: aproxima-te. Estamos numa noite de Inverno, quando os elementos por toda a parte se entrechocam, o homem tem medo e o adolescente medita um crime qualquer a praticar na pessoa de um dos seus amigos, se for o que eu fui na minha juventude. Que o vento, cujo assobiar dá tristeza à humanidade desde que o vento e a humanidade existem, me leve, alguns momentos antes da última agonia sobre os ossos das suas asas, através do mundo impaciente pela minha morte. Gozarei ainda, em segredo, dos exemplos numerosos da maldade humana (um irmão gosta de ver, sem ser visto, os actos dos seus irmãos). A águia, o corvo, o imortal pelicano, o pato bravo, o viandante grou, despertados, a tiritarem de frio, ver-me-ão passar à luz dos relâmpagos, espectro horrível e contente. Não saberão que significa aquilo. Sobre a terra, a víbora, os grandes olhos do sapo, o tigre, o elefante; no mar, a baleia, o tubarão, o peixe-martelo, a informe raia, o dente da foca polar, perguntarão que excepção é esta à lei da natureza. O homem, tremente, colará à terra a sua fronte, entre gemidos. "Sim, a todos vos supero pela minha inata crueldade, que não dependeu de mim apagar. É por isso que vos mostrais a mim desse modo prosternados? ou será antes porque vedes, fenómeno novo, percorrer como um cometa assustador o espaço ensanguentado? (Cai-me no vasto corpo uma chuva de sangue, como uma nuvem enegrecida que o furacão leva à sua frente). Nada temais, meus filhos, não quero maldizer-vos. O mal que me fizestes é demasiado grande, e demasiado grande o mal que vos fiz, para que seja voluntário. Vós seguistes o vosso caminho e eu o meu, e ambos semelhantes, e ambos perversos. Tivemos necessariamente de nos encontrar nessa semelhança de caracter; o choque que daí resultou foi-nos reciprocamente fatal". Então os homens irão reerguendo a pouco e pouco a cabeça, recobrando coragem, para verem aquele que fala assim, estendendo o pescoço como o caracol. De repente, o seu rosto ardente, descomposto, denotando as mais terríveis paixões, fará tais caretas que os lobos terão medo. Erguem-se ao mesmo tempo como uma imensa mola. Quantas imprecações! Que vozes lancinantes! Reconheceram-me. Eis que os animais da terra se reúnem aos homens e fazem ouvir seus estranhos clamores. Deixou de existir o seu recíproco ódio; os dois ódios viram-se contra mim, o inimigo comum; aproximam-se por um assentimento universal. Ó ventos que me sustentais, elevai-me mais alto; temo a perfídia. Sim desapareçamos a pouco e pouco dos seus olhos, eu mais uma vez testemunha das consequências das paixões e completamente satisfeito... Eu te agradeço, ó rinólofo, por me teres acordado com o movimento das tuas asas, tu, cujo nariz é encimado por uma crista em forma de ferradura; vejo agora que na verdade não passava de passageira doença, e, agoniado, sinto-me renascer para a vida. Há quem diga que vinhas a mim para me sugares o pouco sangue que o meu corpo tem: Porque não será esta hipótese verdadeira?

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- Eis que por vezes se ouvem gritos no silêncio das noites sem estrelas. Embora ouçamos esses gritos, aquele que os solta não está, contudo, aqui perto; pois podem ouvir-se estes gemidos a três léguas de distância, transportados pelo vento de cidade em cidade. Já muitas vezes me tinham falado deste fenómeno; mas nunca tinha tido a ocasião de por mim mesmo averiguar como é real. Mulher, tu falavas-me de desgraça; se alguma vez existiu desgraça mais real na longa espiral do tempo, foi a desgraça daquele que está agora perturbando o sono dos seus semelhantes...

Oiço ao longe prolongados gritos da mais pungente dor.

- Queira o céu que o seu nascimento não seja uma calamidade para o seu país, que do seu seio o expulsou. Vai de terra em terra, por toda a parte detestado. Dizem uns que está atacado de uma espécie de loucura originária, desde a infância. Outros julgam saber que é de uma extrema e instintiva crueldade, de que ele próprio se envergonha, e que os pais morreram de dor. Há quem pretenda que na juventude o desonraram com uma alcunha e que por isso ficou inconsolável para o resto dos seus dias, porque a sua dignidade ferida via nisso uma prova flagrante da maldade dos homens, que aparece nos primeiros anos para depois ir aumentando. Essa alcunha era vampiro!...

Oiço ao longe prolongados gritos da mais pungente dor.

- Dizem esses ainda que, de dia e de noite, sem trégua nem descanso, horríveis pesadelos o fazem sangrar da boca e dos ouvidos; e que se sentam espectros à cabeceira da sua cama e lhe deitam à cara, impelidos contra sua vontade por uma força desconhecida, ora com voz doce, ora com voz semelhante aos rugidos das batalhas, com implacável persistência, essa alcunha sempre vivaz, sempre hedionda, e que só com o universo há-de ter fim. Alguns chegaram a afirmar que foi o amor que o reduziu a este estado; ou que os seus gritos são testemunho do arrependimento por um crime qualquer amortalhado na noite do seu misterioso passado. A maioria, porém, pensa que é um incomensurável orgulho que o tortura, como outrora a Satã, e que gostaria de igualar-se a Deus...

Oiço ao longe prolongados gritos da mais pungente dor.

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O irmão da sanguessuga caminhava a passos lentos pela floresta. Detém-se por diversas vezes abrindo a boca para falar. Mas, de todas as vezes, a garganta fecha-se-lhe e repele o esforço abortado. Finalmente, grita: "Homem, quando encontrares um cão morto de pernas para o ar, encostado a uma represa que o impede de seguir, não vás, como os outros, pegar com a tua mão nos vermes que lhe saem do ventre inchado, olhar para eles com espanto, abrir uma navalha e depois esquartejá-los a muitos, dizendo para contigo que também tu não virás a ser mais do que aquele cão. Que mistério procuras tu? Nem eu nem as quatro patas natatórias do urso marinho do Oceano Boreal pudemos encontrar o problema da tua vida. Toma cuidado, que a noite aproxima-se e tu estás aí desde manhã. Que dirá a tua família, a tua irmãzinha, ao ver-te chegar tão tarde? Lava as mãos e retoma o caminho que te leva ao lugar onde dormes..."

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Canto Segundo

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Raça estúpida e idiota! Hás-de arrepender-te de te portares assim. Sou eu que to digo. Hás-de arrepender-te, olá, hás-de arrepender-te. A minha poesia não consistirá senão em atacar por todos os meios o animal feroz que é o homem, e o Criador, que nunca deveria ter engendrado semelhante escória. Os livros hão-de amontoar-se uns sobre os outros até ao fim da minha vida, e no entanto só encontrarão neles esta ideia, sempre presente à minha consciência!

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No meu passeio quotidiano, todos os dias passava numa rua estreita; todos os dias uma esbelta menina de dez anos me seguia a distancia, respeitosamente, ao longo dessa rua, olhando-me com pálpebras simpáticas e curiosas. Era alta para a idade e tinha um corpo bem lançado. Caíam-lhe sobre os ombros de mármore abundantes cabelos negros, separados no alto da cabeça em duas tranças independentes. Um dia em que ela ia a seguir-me, como de costume, o braço musculoso de uma mulher do povo agarrou-a pelos cabelos , como o turbilhão pega na folha, deu-lhe duas bofetadas brutais numa face altiva e muda, e fez voltar para casa aquela consciência perdida. Em vão me fingi indiferente; ela não deixava nunca de me perseguir com a sua importuna presença. Quando passava a outra rua para continuar o meu caminho, ela ficava-se, fazendo um violento esforço sobre si própria, no fim daquela rua estreita, imóvel como a estátua do silêncio, sempre a olhar em frente até eu desaparecer. Uma vez a menina chegou primeiro que eu à rua, e acertou o passo pelo meu, à minha frente. Quando eu andava mais depressa para a ultrapassar, ela quase corria para manter a mesma distância entre nós; mas, se eu abrandava o passo para que houvesse um intervalo grande entre ela e eu, então ela abrandava também, e punha nisso toda a graça da infância. Chegada ao fim da rua, voltou-se lentamente, de modo a impedir-me a passagem. Não tive tempo de me esquivar e achei-me cara a cara com ela. Tinha os olhos inchados e vermelhos. Era fácil ver que me queria falar e não sabia como consegui-lo. Tornou-se de repente pálida como um cadáver e perguntou-me : "Podia fazer o favor de me dizer as horas?" Disse-lhe que não usava relógio e afastei-me rapidamente. Desde esse dia, ó criança de imaginação inquieta e precoce, nuca mais voltaste a ver na rua estreita aquele jovem misterioso que pisava penosamente com pesadas sandálias o chão dos tortuosos cruzamentos. Não tornará a luzir a aparição deste cometa em chamas, como um triste motivo de fanática curiosidade, sobre a fachada da tua observação iludida; e pensarás muitas vezes, demasiadas vezes, e talvez sempre, naquele que não parecia inquietar-se nem com os males nem com os bens da vida presente, e ia andando ao acaso, com um rosto horrivelmente morto, de cabelo eriçado, passo vacilante e braços nadando cegamente nas águas irónicas do éter, como que para procurar nelas a presa ensanguentada da esperança, constantemente sacudida através das imensas regiões do espaço pelo implacável limpa-neve da fatalidade. Não me tornarás a ver e eu não te verei mais!... Quem sabe? Talvez aquela jovem não fosse o que parecia. Debaixo de uma aparência ingénua, talvez ocultasse uma astúcia imensa, o peso de dezoito anos e o encanto do vicio. Não é a primeira vez que vendedoras de amor abandonam alegremente as ilhas britânicas e atravessam o estreito. Estendem as asas, girando em doirados enxames na luz parisiense; e quando davas por elas dizias: "São ainda umas crianças; não têm mais que dez ou doze anos". Afinal, tinham vinte. Oh, nesta suposição, malditos sejam os meandros daquela rua escura! Horrível! horrível o que ali se passa! Creio que a mãe lhe bateu porque não exercia a profissão com suficiente destreza. É possível que não passasse duma criança, e então a mãe é ainda mais culpada. Por mim, não quero crer nesta suposição, que não passa duma hipótese, e prefiro amar, neste caracter romanesco, uma alma que se desvenda cedo de mais... Ah! estás a ver, menina, não quero que tornes a aparecer diante dos meus olhos, se eu voltar a passar pela rua estreita. Podia custar-te caro! Já o sangue e o ódio me sobem à cabeça em ferventes ondas. Eu, generoso a ponto de amar os meus semelhantes? Não, não! Resolvi que não no dia em que nasci. Também eles me não amam! Hão-de os montes destruir-se e o granito deslizar como um corvo marinho sobre as ondas, antes que toque na mão infame de um ser humano. Para trás... para trás, minha mão!... Ó menina, tu não és um anjo, e hás-de tornar-te, afinal, como as outras mulheres. Não, não, peço-te; não apareças de novo diante dos meus sobrolhos franzidos e vesgos. Num momento de desvario, poderia pegar-te nos braços, torcê-los como roupa lavada para lhe tirar a água, ou parti-los ruidosamente, como a dois ramos secos, e depois fazer-tos comer à força. Poderia, segurando-te a cabeça entre as mãos, com ar caricioso e doce, enterrar-te os dedos ávidos nos lóbulos do teu cérebro inocente, para extrair de lá, com um sorriso nos lábios, um unto eficaz que me lave os olhos, doridos da eterna insónia da vida. Poderia, cosendo-te as pálpebras com uma agulha, privar-te do espectáculo do universo, e pôr-te diante da impossibilidade de encontrares o teu caminho: e não seria eu a servir-te de guia. Poderia, erguendo o teu corpo virgem com braço de ferro, agarrar-te pelas pernas, fazer-te girar à minha volta como uma funda, concentrar as forças na última circunferência, e lançar-te contra o muro. Cada uma das gotas de sangue irá cair sobre um peito humano, para assustar os homens e pô-los diante da minha maldade! Não pararão de arrancar pedaços e pedaços da própria carne, mas a gota de sangue continua inapagável, no mesmo lugar, e brilhará como um diamante. Fica descansada, que eu darei ordens a meia dúzia de criados para guardarem os restos venerados do teu corpo, e os preservarem da fome dos cães vorazes. Claro que o teu corpo ficou colado ao muro, como uma pêra madura, e não caiu no chão;

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A multidão dispersa, e a noite não tarda a cobrir com suas sombras os muros do cemitério. Mas consolai-vos, ó humanos, desta perda dolorosa. Eis que avança a sua família inumerável, com a qual ele vos gratificou liberalmente, para que o vosso desespero fosse menos amargo, como que suavizado pela agradável presença destes quezilentos abortos, que mais tarde se tornarão magníficos piolhos, ornados de notável beleza, monstros que andam como sábios. Ele chocou várias dúzias de amados ovos, com a sua asa maternal, em cima daqueles temíveis estrangeiros. Chegou prontamente o tempo de os ovos abrirem. Não temais, eles não tardarão a crescer, esses adolescentes filósofos, ao longo desta vida efémera. Hão-de crescer tanto que vo-lo farão sentir com as suas garras e sugadouros.

Vós não sabeis porque é que eles não vos devoram os ossos da cabeça, e se contentam em extrair com sua bomba a quinta-essência do sangue. Esperai um instante e já vo-lo digo: é porque não têm força para isso. Podem ficar certos de que, se a sua mandíbula fosse conforme a seus desejos infinitos, os miolos, a retina dos olhos, a coluna vertebral, todos o vosso corpo por lá passaria. Como uma gota de água. Observai com um microscópio na cabeça de um jovem mendigo da rua um piolho a trabalhar, e depois me direis. Infelizmente, eles são pequeninos, esse salteadores dos cabelos compridos. Não seriam apurados para a tropa porque não têm o tamanho exigido pela lei. Pertencem ao mundo liliputiano dos de perna curta, e os cegos não exitam em classificá-los entre os infinitamente pequenos. Pobre do cachalote que se batesse com um piolho. Seria devorado num abrir e fechar de olhos, apesar do seu tamanho. Nem lhe sobraria a cauda para dar a noticia. O elefante deixa que lhe façam festas. O piolho, não. Não vos aconselho essa perigosa tentativa. Mal de vós, se tendes mão peluda, ou se a tendes só de carne e osso. Acabavam-se os vossos dedos. Estalariam como se estivessem nas torturas. A pele desaparece por estranho encanto. Os piolhos são incapazes de cometer todos o mal que a sua imaginação medita. Se encontrardes um no vosso caminho, segui em frente e não lhe aduleis as papilas da língua. Acontecia-vos um acidente. Já se tem visto isso. Não me importo: já me contenta a quantidade de mal que ele faz, ó raça humana; mas gostaria que ele te fizesse pior.

Até quando conservarás o culto carunchoso deste deus, insensível às tuas orações e às oferendas generosas que lhe apresentas em holocausto expiatório? Vês, ele não é grato, esse horrível figurão, pelas grandes taças de sangue e de miolos que derramas sobre os seus altares, piedosamente decorados com grinaldas de flores. Ele não te é grato... porque os tremores de terra e as tempestades continuam a grassar desde o princípio das coisas. E, no entanto (Espectáculo digno de contemplação!), quanto mais ele se mostra indiferente, mais tu o admiras. Vê-se que não confias nos seus atributos, que ele oculta; e o teu raciocínio apoia-se na consideração de que só uma divindade dotada de extremo poder pode mostrar tanto desprezo pelos fieis que obedecem à sua religião. É por isso que de país para país há diversos deuses: aqui o crocodilo, além a vendedora de amor; mas quando se trata do piolho, a este nome sagrado todos os povos, beijando universalmente as cadeias da sua escravidão, se ajoelham em multidão diante do pedestal do ídolo informe e sanguinário. Povo que não obedecesse aos seus próprios instintos de rastejar e que tentasse revoltar-se desaparecia mais tarde ou mais cedo da face da terra, como a folha de Outono, aniquilado pela vingança de deus inexorável.

Ó piolho de pupilas engelhadas, enquanto os rios derramarem a queda das suas águas nos abismos do mar; enquanto os astros giraram no caminho da sua órbita; enquanto o mundo vazio não tiver horizonte; enquanto a humanidade rasgar suas próprias entranhas com funestas guerras; enquanto a justiça divina precipitar seus raios vingadores sobre este globo egoísta; enquanto o homem desconhecer o seu Criador e se rir dele, não sem razão, com algum desprezo - o teu reinado sobre o universo estará seguro, e a tua dinastia estenderá os seus anéis de século para século. Eu te saúdo, ó sol nascente, libertador celeste, a ti, inimigo invisível do homem. Continua a dizer à porcaria que se una a ele em beijos impuros, e que lhe jure, por votos não escritos na areia, que permanecerá sua fiel amante até à eternidade. Beija de tempos a tempos o vestido desta grande impudica, em memória dos importantes serviços que ela te vai prestando. Se ela não seduzisse o homem com suas lascivas tetas, talvez não pudesses existir, te que és produto dessa união racional e consequente. Ó filho da porcaria, diz à tua mãe que, se abandonar o leito do homem e for deambular pelas ruas solitárias, só e sem protecção, verá comprometida a sua existência. Que as suas entranhas, que te trouxeram nove meses dentro das suas paredes perfumadas, se comovam por um instante ao pensar nos perigos que com isso correria o seu tenro fruto, tão delicado e tão tranquilo, mas já frio e feroz. Porcaria, rainha dos impérios, conserva perante os olhos do meu ódio o espectáculo do crescimento insensível dos músculos da tua prole esfomeada. Para isso, sabes que te basta colares-te mais estreitamente aos flancos do homem. Podes fazê-lo sem inconvenientes para o teu podor, visto que sois casados há muito tempo. Quanto a mim, se me for permitido acrescentar algumas palavras a este hino de glorificação, direi que mandei construir uma fossa de quarenta léguas quadradas e de proporcional profundidade. Ali jaz, em sua imunda virgindade, uma viva mina de piolhos. Ela enche a parte mais funda da fossa, e serpenteia depois, em largas veias densas, em todas as direcções. Eis como construí esta mina artificial. Arranquei um piolho fêmea dos cabelos da humanidade. Viram-me ir para a cama com ele três noites consecutivas, e deitei-o para a fossa. A fecundação humana, que em casos semelhantes teria sido nula, foi desta vez aceite, por fatalidade; e, ao fim de alguns dias, milhares de monstros, formigando num nó compacto de matéria, vieram à luz. Este nó horrendo tornou-se, com o tempo, cada vez mais imenso, adquirindo entretanto a propriedade líquida do mercúrio, e dividiu-se em diferentes ramos, que actualmente se alimentam devorando-se a si mesmos (a natalidade é maior que a mortalidade) sempre que não lhes atiro, para se saciarem, um filho ilegítimo recém-nascido me cuja morte seja desejada pela mãe, ou um braço que vou cortar a uma jovem qualquer, durante a noite, graças ao clorofórmio. De quinze em quinze anos, as gerações de piolhos, que se alimentam do homem, diminuem de maneira notável, e são elas que predizem, infalivelmente, a época próxima da sua completa destruição. Porque o homem, mais inteligente que o seu inimigo, consegue vencê-lo. Então, com uma pá infernal que me aumenta as forças, extraio desta mina inesgotável blocos de piolhos, tão grandes como montanhas, parto-os à machadada e levo-os, nas noites mais profundas, para as artérias das cidades. Ali, em contacto com a temperatura humana, dissolvem-se como nos primeiros dias da sua formação nas tortuosas galerias da mina subterrânea, cavam um leito no saibro e espalham-se em rios pelas habitações, como espíritos nefastos. O guarda da casa ladra surdamente, porque tem a impressão de que há uma legião de seres desconhecidos a perfurar os poros dos muros, e leva o terror à cabeceira do sono. Talvez já tenhais ouvido, ao menos uma vez na vida, esta espécie de ladrar doloroso e prolongado. Com seus olhos impotentes, ele tenta furar a obscuridade da noite, pois o seu cérebro de cão não compreende aquilo. Aquele zumbido irrita-o, e sente que está a ser traído. Milhões de inimigos se precipitam assim sobre cada cidade, como nuvens de gafanhotos. E é por quinze anos. Irão combater o homem, causando-lhe agudos ferimentos. Passado esse tempo, hei-de enviar outros. Quando esfarelo os blocos de matéria animada, pode acontecer um fragmento ser mais denso do que os outros. Os seus átomos tentam raivosamente separar a sua aglomeração para irem atormentar a humanidade, mas a coesão resiste na sua dureza. Numa suprema convulsão, produzem tal esforço, que a pedra, por não poder dispersar os seus princípios vivos se atira a si própria ao alto como que por efeito de um explosivo, e cai depois, enterrando-se solidamente no chão. Às vezes o sonhador camponês vê um aerólito fender verticalmente o espaço, descendo em direcção a um campo de milho. E não sabe donde vem a pedra. Aqui têm agora, clara e sucinta, a explicação do fenómeno.

Se a terra estivesse coberta de piolhos como as costas marinhas o estão de grãos de areia, seria aniquilada a raça humana, entregue a terríveis dores. Que espectáculo! E eu, com asas de anjo, imóvel nos ares, a contemplá-lo.

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Diz-me lá: será porque conheces o meandro do meu coração que, quando me acontece aparecer nos lugares onde velas, te apressas a denunciar a minha presença perniciosa e a chamar a atenção dos adoradores para o lado onde se vem mostrar o inimigo dos homens? Inclino-me para esta opinião; porque também eu começo a conhecer-te; e sei quem tu és, ó velha bruxa, que tão bem velas pelas mesquitas sagradas, onde se pavoneia, como crista de galo, o teu louca missão. Aviso-te: da primeira vez em que me denunciares à prudência dos meus semelhantes, aumentando os teus clarões fosforescentes, como não gosto deste fenómeno de óptica, que aliás não vem mencionado em nenhum livro de física, agarro-te pela pele do peito, colando as minhas garras às crostas da tua nuca tinhosa, e atiro-te ao Sena. Não pretendo que, não estando eu a fazer-te nada, te comportes deliberadamente de uma maneira que me prejudique. Ali te deixarei brilhar o tempo que me apetecer; ali farás pouco de mim com um sorriso inextinguível; ali, convencida da incapacidade do teu azeite criminoso, hás-de uriná-lo amargamente.

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É tempo de apertar os freios è minha inspiração e de deter na estrada por um instante, como quando se contempla a vagina de uma mulher; é bom examinar o caminho percorrido e lançar seguidamente num salto impetuoso os membros repousados. Não é fácil fazer uma caminhada de um só fôlego; e as asas cansam-se muito num voo alto, sem esperança e sem remorso. Não... não levemos mais ao fundo a feroz matilha das picaretas e escavações através das minas explosivas deste canto ímpio! O crocodilo não mudará uma palavra ao vómito que lhe saiu debaixo do crânio. Tanto pior, se alguma sombra furtiva, levada pelo objectivo louvável de vingar a humanidade por mim injustamente atacada, abrir sub-repticiamente a porta do meu quarto, roçando a parede como a asa de um albatroz, e cravar um punhal nas costas do salteador dos destroços celestes! É indiferente que a argila dissolva os seus átomos dessa ou de outra maneira.

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Canto Terceiro

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Contaram-me o que se passou; porque eu não estive presente ao acontecimento que teve por consequência a morte da minha filha. Se o tivesse estado, teria defendido aquele anjo pelo preço do meu sangue... Maldoror ia a passar com o seu buldogue; vê uma menina a dormir à sombra de um plátano, e a princípio toma-a por uma rosa... Não se pode dizer o que lhe veio primeiro ao espírito, se a visão daquela criança, se a resolução que foi sua consequência. Despe-se rapidamente, como quem sabe o que vai fazer. Nu como uma pedra, atirou-se sobre o corpo da menina e levantou-lhe o vestido para cometer um atentado ao pudor... à luz do dia! Sim, não se incomoda com isso!... Não insistamos naquele acto impuro. De espírito descontente, torna a vestir-se precipitadamente, deita um olhar de prudência para o caminho poeirento onde ninguém passa, e dá ordem ao buldogue para estrangular com as mandíbulas a menina ensanguentada. Indica ao cão da montanha o lugar onde a vítima sofredora respira e grita, e afasta-se para não ser testemunha da entrada dos dentes pontiagudos nas róseas veias. O cumprimento desta ordem talvez tenha parecido severo ao buldogue. Achou que lhe estavam a pedir aquilo que já fora feito, e contentou-se, aquele lobo de monstruoso focinho, em violar por sua vez a virgindade daquela criança delicada. Do ventre dilacerado, o sangue corre-lhe de novo pelas pernas abaixo, pelo prado fora. Os seus gemidos juntam-se ao choro do animal. A menina mostra-lhe a cruz de ouro que lhe enfeitava o pescoço, para tentar que ele a poupe; não tinha ousado mostrá-la aos olhos ferozes daquele que primeiro tinha tido a ideia de aproveitar da fraqueza da sua idade. Mas o cão não ignorava que, se desobedecesse ao dono, uma faca lançada debaixo da manga lhe abriria bruscamente as entranhas, sem prévio aviso. Maldoror (como repugna pronunciar este nome!) escutava as agonias da dor, e espantava-se de que a vítima tivesse a vida tão dura para não ter morrido ainda. Aproxima-se do altar do sacrifício e observa o comportamento do buldogue, entregue às más tendências, e que erguia a cabeça acima da da menina, tal como um naufrago a ergue acima das vagas iradas. Dá-lhe um pontapé e vaza-lhe um olho. O buldogue, enfurecido, foge pelos campos, arrastando consigo, durante um troço de caminho que sempre seria comprido por muito curto que fosse, o corpo suspenso da menina, que apenas se soltou por força dos movimentos sacudidos da fuga; mas teme atacar o dono, que nunca mais tornará a vê-lo. Este tira da algibeira um canivete americano, composto de dez a doze lâminas para diversos usos. Abre as patas angulosas daquela hidra de aço; e, munido de tal escalpelo, vendo que a erva não tinha ainda desaparecido sob a cor de tanto sangue derramado, apresenta-se, sem empalidecer, para esquadrilhar corajosamente a vagina da pobre criança. Daquele buraco alargado, vai retirando, uns a seguir aos outros, os órgãos interiores; os intestinos, os pulmões, o fígado e finalmente o próprio coração, são arrancados dos seus alicerces e trazidos à luz do dia, pela pavorosa abertura. O sacrificador dá-se conta de que a menina, frango esvaziado, morreu há muito tempo; cessa a crescente insistência da sua devastação e deixa que o cadáver readormeça à sombra do plátano.

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Ei-los que traçam círculos de concentricidade cada vez menor, espiando os seus recíprocos movimentos, antes de lutarem; fazem bem. O dragão parece-me mais forte; gostava que conquistasse a vitória sobre a águia. Vou experimentar grandes emoções, neste espectáculo em que está comprometida uma parte do meu ser. Ó poderoso dragão, eu te incitarei com os meus gritos, se for necessário, pois é do interesse da águia ser vencida. Por que esperavam eles para se atacarem? Estou em transes de morte. Vá lá, dragão, começa, primeiro tu, ataca. Acabas de lhe vibrar um seco golpe com as garras; não está lá muito mal. Garanto-te que a águia o sentiu; o vento leva-lhe a beleza das plumas, manchadas de sangue. Oh! a águia arranca-te um olho com o bico, e tu apenas lhe tinhas arrancado a pele; era preciso estar com atenção a isso. Bravo, vinga-te, e parte-lhe uma asa; não há nada a dizer, os teus dentes de tigre são muito bons. Se te pudesses aproximar da águia, enquanto ela volteja no teu espaço, descendo para o campo! Estou a notar que esta águia e inspira moderação mesmo quando cai. Agora que está no chão e não poderá tornar a levantar-se. Vai a voar à flor da terra è volta dela, e com golpes da tua cauda de escamas de serpente acaba com ela, se puderes. Coragem, belo dragão; crava-lhe as tuas garras vigorosas, e que o sangue se misture ao sangue, para formar regatos onde não haja água. É fácil dizer, mas não de fazer. A águia acaba de meditar um novo plano estratégico de defesa, tornado possível pelos malfadados acasos desta memorável luta; é prudente, ela. Sentou-se solidamente numa posição inabalável, na asa que lhe resta, nas duas coxas e na cauda que antes lhe servia de leme. Desafia esforços mais extraordinários do que aqueles que até agora lhe opuseram. Umas vezes volta-se tão depressa como o tigre, sem mostrar cansaço; outras, deita-se de costas, com as patas para o ar, e, com sangue-frio, contempla ironicamente o adversário. No fim de contas hei-de saber quem será o vencedor; o combate não pode eternizar-se. Imagino as consequências que disto resultarão! A águia é terrível e dá saltos enormes que abalam a terra, como se fosse levantar voo; mas sabe que isso lhe é impossível. O dragão não se fia; julga a cada momento que a águia vai ataca-lo pelo lado onde lhe falta o olho... Pobre de mim! É isso mesmo que acontece. Como é que o dragão se deixou apanhar pelo peito? Em vão utiliza a força e a astúcia; estou a ver a águia, colada a ele por todos os seus membros como uma sanguessuga, e que, apesar dos ferimentos que vai sofrendo, crava o bico cada vez mais fundo, até à raiz do pescoço, no ventre do dragão. Só se lhe vê o corpo. Parece estar à vontade; não tem pressa de sair. Está com certeza à procura de alguma coisa, enquanto o dragão de cabeça de tigre solta bramidos que acordam as florestas. Lá está a águia a sair daquela caverna. Ó águia, como estás horrível! Estás mais vermelha do que um charco de sangue! Embora segures no bico nervoso um coração palpitante, estás de tal modo coberta de feridas que mal te podes suster nas patas emplumadas; e cambaleias sem abrires o bico, ao lado do dragão que morre em medonhas agonias. Foi difícil, a vitória; mas não importa, foste tu que a conquistaste: ao menos, diga-se a verdade...

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Era um dia de Primavera. Espalhavam as aves os seus gorjeios, e os humanos, entregues aos seus diversos deveres, banhavam-se na santidade do cansaço. Tudo trabalhava para o seu destino: as árvores, os planetas, os esqualos. Tudo, excepto o Criador! Estava estendido na estrada, com as vestes rasgadas. O beiço inferior descaía-lhe como um cabo hipnótico; não tinha os dentes lavados e a poeira misturava-se-lhe às loiras ondas do cabelo. Entorpecido por um pesado sono, esmagado contra as pedras, o seu corpo fazia inúteis tentativas para se levantar. As forças tinham-no abandonado, e ali jazia, fraco como uma minhoca, impassível como uma carapaça. Ondas de vinho enchiam os sulcos cavados pelos sobressaltos nervosos dos seus ombros. O embrutecimento, de focinheira de porco, cobria-o com suas asas protectoras, e deitava-lhe um olhar de amor. As pernas, de músculos dispensas, varriam o chão, como dois mastros cegos. Corria-lhe o sangue nas narinas: na queda, tinha batido com a cara contra um poste... Estava bêbedo! Horrivelmente bêbedo! Bêbedo como um percevejo depois de ter mascado durante a noite três pipas de vinho! Ia enchendo o eco com palavras incoerentes, que nem por sombras repetirei aqui; se o supremo bêbedo não se respeita, eu tenho obrigação de respeitar os homens. Quem havia de dizer que o Criador... se embebedava! Piedade para aqueles beiços, manchados nas taças da orgia! O ouriço, que ia a passar, cravou-lhe os espinhos nas costas e disse: "Ora toma. O sol está a meio do caminho: trabalha, preguiçoso, e não comas o pão dos outros. Espera que já vais ver como eu chamo a catatua de bico adunco". O picanço e a coruja, que iam a passar, cravaram-lhe o bico todo na barriga e disseram: "Ora toma. Que vens tu fazer à terra? É para ofereceres aos animais esta lúgubre comédia? Mas juro-te que nem a toupeira, nem o causar, nem o flamingo, te hão-de imitar". O burro, que ia a passar, deu-lhe um coice nas têmporas e disse: "Ora toma. Que te tinha eu feito para me dares umas orelhas tão compridas? Todos, e até o grilo, me desprezam". O sapo, que ia a passar, atirou-lhe para a testa um esguicho de baba e disse: "Ora toma. Se não me tivesses feito os olhos tão grandes e eu não te tivesse visto no estado em que te vejo, teria castamente escondido a beleza dos teus membros debaixo de uma chuva de ranúnculos, de miosótis e de camélias, para que ninguém te visse". O leão, que ia a passar, inclinou a real face e disse: "Quanto a mim, respeito-o, embora o seu esplendor nos pareça por agora escondido. Vós que vos fazeis orgulhosos e não passais de uns cobardes, porque o atacaste quando ele estava a dormir, ficaríeis contentes se, no lugar dele, suportásseis de quem passa as injúrias que lhe não poupastes?". O homem, que ia a passar, parou diante do desprezado Criador; e, sob os aplausos do chato e da víbora, defecou-lhe durante três dias em cima do augusto rosto! Ai do homem, por causa desta injúria, porque não respeitou o inimigo, estendido naquela mistura de lama, de sangue e de vinho, sem defesa e quase inanimado!... Então, o Deus soberano, acordado finalmente por todos este mesquinhos insultos, levantou-se como pôde; a cambalear, foi sentar-se numa pedra, de braços caídos como os dois testículos do tuberculoso, e deitou um olhar vítreo, sem chama, à natureza inteira, que lhe pertencia. Ó humanos, vós sois meninos malcriados; mas, suplico-vos, poupemos esta grande existência que não acabou ainda de cozer o licor imundo, e que, não tendo ainda forças para se manter de pé, voltou a cair pesadamente em cima daquela pedra, onde se sentou, como um caminhante. Observai este mendigo que vai a passar; viu que o dervixe estendia o braço esfomeado e, sem saber a quem dava esmola, deitou um pedaço de pão naquela mão que implora misericórdia. O Criador exprimiu-lhe o seu reconhecimento abanando a cabeça. Ah! vós nunca haveis de saber como se torna difícil segurar constantemente nas mãos as rédeas do universo! Às vezes o sangue sobe à cabeça, quando nos pomos a tirar do nada mais um cometa com uma nova raça de espíritos. A inteligência, muito turvada de alto a baixo, retira-se como um vencido, e pode cair, uma vez na vida nos erros de que tendes sido testemunhas!

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Choravam lágrimas silenciosas; sentiam vagamente que eu já não era o mesmo, que me tinha tornado inferior à minha identidade. Gostariam de saber que funesta decisão me tinha levado a saltar as fronteiras do céu para me vir precipitar sobre a terra e saborear efémeras volúpias, que eles são os primeiros a desprezar profundamente. Notaram-me na testa uma gota de esperma, uma gota de sangue. A primeira tinha saltado das coxas da cortesã! A segunda tinha jorrado das veias do mártir! Odiosos estigmas! Inabaláveis rosáceas! Os meus arcanjos foram encontrar, pendurados nos silvedos do espaço, Os restos flamejantes da minha túnica de opala, que flutuavam sobre os povos boquiabertos. Não foram capazes da a reconstruir, e o meu corpo mantém-se nu diante da sua inocência; memorável castigo da virtude abandonada. Vê os sulcos que cavaram leito nas minhas faces descoloridas: são a gota de esperma e a gota de sangue, que me escorrem lentamente ao longo das rugas secas. Uma vez chegadas ao lábio superior, fazem um imenso esforço e penetram-me no santuário da boca, atraídas, como por um íman, pela garganta irresistível. E abafam-me, essas duas gotas implacáveis. Até agora julgava-me eu o Todo-Poderoso; mas não, tenho de baixar a cabeça diante do remorso que me grita: 'Não passas de um miserável!' Não dês esses saltos! Cala-te... cala-te... se alguém te ouvisse! eu torno a colocar-te no meio dos outros cabelos; mas deixa primeiro que o sol se ponha no horizonte, para que a noite te cubra os passos... Eu vi Satã, o grande inimigo, erguer a trama ossuda do arcaboiço acima do seu torpor de larva e, de pé, triunfante, sublime, arengar às suas tropas reunidas; meter-me a ridículo, como mereço. Disse que estava muito espantado por o seu orgulhoso rival, apanhado em flagrante delito graças ao êxito, finalmente conseguido, de uma perpétua espionagem, poder assim descer ao ponto de beijar o vestido do humano deboche, por uma viagem de longo curso, através dos recifes do éter, e dar a morte, entre sofrimentos, a um membro da humanidade. Disse ele que aquele jovem, esmagado na engrenagem dos meus suplícios requintados, talvez pudesse vir a tornar-se uma inteligência de génio e a consolar os homens deste mundo com admiráveis cantos de poesia, de coragem, contra os golpes da desfortuna. Disse ele que as freiras do convento-lupanar já não são capazes de dormir; rondam pelo pátio, gesticulando como autómatos, esmagando com os pés os ranúnculos e os lilases; enlouqueceram de indignação, mas não tanto que não se recordem da causa que lhes deu origem àquela doença do cérebro... (Ei-las que avançam, vestidas da sua mortalha branca; não falam entre si; vêm de mãos dadas. Os cabelos caem-lhes em desordem pelos ombros nus; um ramo de flores negras debruça-se-lhes do seio. Freiras, voltai para os jazigos, a noite ainda não chegou de todo; estamos ainda no crepúsculo da tarde... Ó cabelo, bem vês como de todos os lados me assalta o desenfreado sentimento da minha depravação!). Disse ele que o Criador, que se gaba de ser a Providência de tudo quanto existe, se conduziu com muita leviandade, para não dizer pior, dando tal espectáculo aos mundos estelares; pois afirmou claramente a intenção que tinha de ir contar pelos planetas orbiculares como eu asseguro, com o meu exemplo, a virtude e a bondade na vastidão dos meus reinos. Disse ele que a grande estima que sentia por um tão nobre inimigo se tinha evaporado da sua imaginação, e que preferia deitar a mão ao peito de uma donzela, embora isso seja um acto de execrável maldade, a cuspir-me na cara, coberta de três camadas de esperma e de sangue misturados, para não sujar o seu escarro babado. Disse ele que se julgava com razão superior a mim, não pelo vício, mas pela virtude e pelo pudor; não pelo crime, mas pela justiça. Disse ele que era preciso amarrarem-me a uma grade, em virtude das minha inumeráveis faltas; queimarem-me a lume brando num braseiro ardente, para seguidamente me deitarem ao mar, se o mar me quisesse receber.

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Canto Quarto

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Eu conheço ou concebo uma doença mais terrível do que os olhos inchados pelas longas meditações sobre o estranho caracter do homem: mas procuro-a ainda... Não consegui encontrá-la!

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Estou sujo. Roído de piolhos. Os porcos, quando olham para mim, vomitam. As crostas e pústulas da lepra escamaram-se na pele coberta de pus amarelado. Não conheço a água dos rios nem o orvalho das nuvens. Na nuca, como num fumeiro, cresce-me um enorme cogumelo, de pedúnculos umbelíferos. Sentado num traste informe, não mexi um membro desde há quatro séculos. Os pés tomaram raiz no solo e compõem até ao ventre uma espécie de vivaz vegetação, cheia de ignóbeis parasitas, que não deriva ainda da planta e que já não é carne. No entanto, o coração bate. Mas como haveria ele de bater se a podridão e as exalações do meu cadáver (não ouso dizer corpo) não o alimentassem abundantemente? Na axila esquerda, uma família de sapos fez a morada, e quando um se mexe faz-me cócegas. Cuidado, não vá fugir algum que me venha roçar com a boca no interior da orelha; era capaz de, depois, entrar no cérebro. Na axila direita há um camaleão que lhes dá caça incessante para não morrer de fome: todos têm de viver. Mas quando uma das partes frustra completamente as manhas da outra, acham que o melhor que têm a fazer é não se incomodarem, e chuparem a gordura delicada que me cobre as costas: já estou habituado. Uma víbora malvada devorou-me o pénis e pôs-se no seu lugar; tornou-me eunuco, a porca. Ah, se eu tivesse podido defender-me com os meus braços paralisados; mas creio antes que eles se transformaram em cavacos. Seja como for, importa verificar que o sangue já lá não vai passear a sua vermelhidão. Dois pequenos ouriços, que pararam de crescer, deitaram a um cão, que não recusou, o interior dos meus testículos: depois de cuidadosamente lavada a epiderme, meteram-se dentro dela. O ânus foi interceptado por um caranguejo; animado pela inércia, guarda a entrada com suas tenazes, e faz-me doer muito! Duas medusas atravessaram os mares, imediatamente atraídas por uma esperança que não foi iludida. Olharam com atenção as duas partes carnudas que formam o traseiro humano e, fixando-se no seu contorno convexo, esmagaram-nas tanto por uma pressão constante, que os dois pedaços de carne desapareceram, ficando lá dois monstros saídos do reino da viscosidade, iguais na cor, na forma e na ferocidade.

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Ó pai infortunado, prepara para acompanhar os passos da tua velhice o inapagável cadafalso que cortará a cabeça ao criminoso precoce e a dor que te mostrará o caminho do túmulo.

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A metamorfose nunca surgiu a meus olhos senão como a alta e magnânime retumbância de uma felicidade perfeita, que há muito tempo esperava. Chegou finalmente o dia de eu ser suíno!

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Canto Sexto

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Mervyn, de face cheia de lágrimas, pensava que encontrara, por assim dizer à entrada da vida, um precioso apoio para as futuras adversidades. Podeis ficar certos de que o outro não dizia nada. Eis o que ele fez: desdobrou o saco que levava, desatou a abertura, e, agarrando no adolescente pela cabeça, obrigou todo o seu corpo a entrar no invólucro de linhagem. Com o lenço, atou a extremidade que servia de entrada. Como Mervyn soltava gritos agudos, levantou o saco, como se fosse um embrulho de roupa, e bateu com ele diversas vezes no parapeito da ponte. Então, o paciente, dando-se conta de que os ossos lhe estalavam, calou-se. Cena única, que nenhum romancista votará a encontrar! Ia a passar um magarefe sentado nas carnes da sua carroça. Corre para ele um indivíduo e diz-lhe: "Está aqui um cão tinhoso fechado neste saco; abata-o o mais depressa possível". O interpelado mostrou-se complacente. O que interpelara, ao afastar-se vê uma jovem andrajosa que lhe estende a mão. Até onde irá o cúmulo da audácia e da impiedade? Dá-lhe uma esmola! Dizei-me se quereis que vos leve, algumas horas mais tarde, à porta de um matadouro afastado. O magarefe voltou e diz para os colegas, deitando um fardo no chão: "Vamos matar já este cão tinhoso". São quatro, e cada um deles agarra no martelo do costume. E, no entanto, hesitavam, porque o saco mexia-se com força. "Que emoção é esta que se apodera de mim?", gritou um deles, baixando lentamente o braço. "Este cão é como uma criança a soltar gemidos de dor, diz outro; parece que compreende a sorte que o espera".

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