ENTREVISTA CONCEDIDA PELO ESCRITOR RUY CÂMARA
JORNAL DA PARAÍBA
Rio de Janeiro 19 de maio de 2003.
1. Poderia nos contar a gênese de Cantos de Outono?
Ruy: A gênese dessa obra se confunde com a minha decisão de
abdicar de uma promissora carreira empresarial para me dedicar exclusivamente
ao ofício literário, que é dos mais difíceis. Isso ocorreu em 1992. Em verdade
eu sempre quis realizar um sonho antigo: escrever livros de ficção. Hoje, posso
dizer que o sonho de me tornar escritor começou na infância, em Messejana, subúrbio de Fortaleza, naquelas tardes mornas em
que eu fugia do colégio para ler Monteiro
Lobato, Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos e Cruz e Sousa, no sítio
onde nasceu o pai do romance brasileiro, José de Alencar, um dos meus autores
de referência na infância.
Mas
há um fato relevante que merece ser lembrado: em 1992 eu ainda me contorcia de
dor com a perda de um ente muito querido quando decidi dar uma guinada na vida
para dotá-la de algum sentido. O
fascínio literário se configurava real e eu acreditava piamente que poderia
fazer da ficção, não apenas o refúgio da minha fuga, mas um projeto real de
vida. O problema era o repúdio às abordagens superficiais do dilema
humano. Quando intentei me aprofundar nesse terreno pantanoso, vi, claramente,
que me faltava uma compreensão mais ampla do tema e para abordar algo tão
complexo eu precisava de um personagem incomum que encarnasse em si o
desencanto que se observa no mundo, sobretudo na juventude mundial. De fato eu procurava
um ente acuado no seu próprio dilema, um ser fatal, um vulgo sem espaço para se
expressar, sem o recurso que se busca nas alturas celestes, um idealista
genial, insubmisso às regras e à lógica vigente, um avantesma
que se dispusesse a me fazer compreender algo que jaz no íntimo mais profundo
de cada grande poeta e escritor. Com o olhar voltado para o passado, compreendo
hoje que eu talvez andasse à procura de mim mesmo em
cada aventura que empreendia ou mesmo em cada parágrafo que escrevia.
No início de
1995 resolvi me recolher para garimpar noutras fontes bibliográficas e poder
colher o que buscava noutras instâncias dos sentidos. A necessidade de escrever
um romance trágico se tornou insuprimível com a leitura d’As Flores do Mal, de
Baudelaire. Mas a idéia só se materializou com a leitura de um livro
terrível, sem precedente no mundo das letras, intitulado Les Chants de
Maldoror, de Lautréamont, “surrupiado” por um amigo poeta de uma
importante biblioteca, que prefiro não mencionar, e que caiu em minhas mãos no
inverno de 1996.
2. Como se deu a
pesquisa para escrever o romance?
Ruy
– Em primeiro lugar preciso dizer
que Cantos
de Outono não é propriamente uma biografia de Isidore Ducasse. O
romance deve ser compreendido e catalogado
como uma ficção com fundamento histórico e biobliográfico, fruto
de uma pesquisa minuciosa que demandou anos
e muitas viagens à Europa. O início se deu em 1996. Certa tarde,
andarilhando com Rossana no Montmartre, em Paris,
após uma série de visitas aos túmulos dos grandes vultos da literatura
francesa, chegamos casualmente ao prédio onde vivia Isidore Ducasse. Entramos,
subimos a escadaria e conversamos com alguns moradores do prédio, que quase
nada sabiam acerca de Isidore Ducasse. Meia hora depois descemos um tanto e
quando desolados com a descortesia do síndico. No térreo transcrevi os dizeres
de uma placa preta, localizada logo após
o átrio e lá ao fundo havia um bistrô simpático. Lá, enquanto entornávamos umas
taças de vinho, imaginei que poderia seguir o rastro de Isidore Ducasse. A
aventura que começou no número 7 da Faubourg-Montmartre, se estendeu para o sul
da França, onde palmilhei as ruas de Biarritz, Bayonne, Pau, Tarbes, Bruxelas
e, por fim, Montevidéu. A ousadia exigiu-me empreender outras viagens de
pesquisas à França e também tive de enfrentar a leitura de mais de quinhentos
ensaios sobre a obra de Lautréamont, catalogados em diversas fontes, inclusive
na Biblioteca Nacional de Paris. Contudo, quando sentei para escrever o
romance, experimentei
na própria carne um sofrimento quase expiatório. A causa era o “nada biográfico”
de Lautréamont. Nos momentos de absoluta incriatividade
pensei em desistir de levar adiante a estratégia previamente planejada. Noutro
momento, quando surgia uma idéia, uma sacação
mais ousada, o ofício literário era retomado com uma euforia
tão grande, que ficava difícil conter o ímpeto. Só depois, quando a
narrativa estava bem adiantada, percebi que, quando a arte precisava triunfar
sobre a racionalidade seca e objetiva exigida numa dada circunstância, minha
consciência escapava para a anti-sala da razão e eu me via novamente
perambulando em Paris, Pau, Tarbes, Bruxelas, Montevidéu, ora diante de uma
tumba, ora encafuado naqueles cenários taciturnos, cercado de
pensamentos e aflições, como se fizesse mesmo parte de todo aquele
imaginário que recriava. Dias ou mesmo semanas num parágrafo que não se
resolvia. E quantas vezes me vi só, inteiramente só
perdido nas abstrações mais complexas, sem saber que rumo tomar para conduzir o
leitor a uma conclusão.
3. É verdade que você conheceu de perto
todos os lugares onde viveu e se matou o jovem poeta francês?
Ruy – Não só estive in loco nos lugares onde viveu
Isidore Ducasse, como também tive o cuidado voltar lá outras vezes para
fotografar e filmar cada locação visitada. Claro que todos aqueles cenários
sofreram modificações e melhorias ao longo de um século. Tenho em meu poder
dezesseis horas de filmagem em VHS. Brevemente esse material será reutilizado
para me orientar na adaptação do romance para o cinema. Tenho planos de levar
adiante esse projeto a partir de 2004, quando sair o meu segundo romance, No
leito dos gênios malditos, que é uma espécie de makingoff
de Cantos de Outono, tão terrível quanto.
4. Quais
foram os momentos mais fortes em sua jornada de busca a Lautréamont?
Ruy
- O primeiro impacto foi precisamente quando decidi iniciar a aventura. Ainda
hoje me lembro do rosto de espanto da Rossana (minha
mulher) quando me decidi. De fato foi uma empreitada
audaciosa, dificílima e, em termos financeiros, caríssima. O segundo
momento impactante foi quando tive a certeza do “nada
biográfico” desse poeta estranhíssimo. Ele deixou poucos registros da sua
curtíssima existência. O que recolhi, confesso que com muito sacrifício, se
resume a uma certidão de nascimento, encontrada na catedral de Montevidéu, um
livro terrível, intitulado Les Chants de Maldoror, publicado em 1868, um
livro inacabado, intitulado Poesie-Préface à un livre futur, sete cartas manuscritas, hoje
em poder de uma multinacional japonesa, uma foto da sua formatura, no antigo liceu
de Pau, e um atestado de óbito expedido pela prefeitura do Sena. Apesar da
escassez de material, o que me inibiu no início da composição literária foi a
dificuldade de encontrar o momento certo para penetrar no universo do
personagem, um anti-universo obscuro e aterrador, que
se encolhia a cada tentativa minha de sondar as suas profundezas para entender
melhor a obra e a sina de um gênio, que pode ser a sina de muitos neste mundo
louco. Agora que Lautréamont está ao alcance dos leitores, posso dizer que fui
ao ponto culminante em termos de ousadia literária. Nesses Cantos de outono
o que procurei fazer além de exprimir fielmente a estética ducasseana e
abranger os pormenores da sua vida, foi dotar de sentido os seus pesadelos, o
seu imaginário, sempre em confronto com o racionalismo de uma época, para ao
final realçar seus medos e suas angústias.
5. Como
avalia a presença de Lautréamont na literatura mundial?
Ruy – Ele tem
grande importância nas altas esferas da literatura mundial por duas razões fundamentais:
o Mito e a Obra. O mito, que até bem pouco tempo permanecia encafuado no seu
ocultismo ou talvez na escuridão do século XX, clamava por ser reinventado num
cenário supra-real com testemunha isolada das atrocidades que ocorrem no
cotidiano; e sua obra merece ser compreendida pela ótica do tempo traumático em
que vivemos, tempo de supra-valia das coisas em
detrimento da prioridade humana. Na atual conjuntura mundial a obra de
Lautréamont é ainda mais importante para a minha geração, de autores quarentões,
porque sozinha é uma rebelião contra esses deuses da casta humana que pretendem
controlar os nossos destinos. George Bush não é muito diferente de um Napoleão
ou de um Bismarck naquela época. Por outro lado, a inconformação
juvenil é uma necessidade social para o surgimento das vanguardas, para o
confronto direto contra a chamada sub-cultura da
auto-ajuda, e também contra tudo o que ilude e contribui para engessar grande
parte de uma sociedade despreparada num casulo de miséria intelectual e lá a mantém
como refém acabrunhada de uma docilidade secularizante
e oportunista. Decorridos mais de 150 anos do aparecimento dos Cantos de
Maldoror, finalmente estamos começando a entender a importância desse
personagem terrível por uma ótica muito diferente da que ele fora visto e
confusamente desmerecido pela chamada crítica erudita francesa e belga.
6. Tanto
Baudelaire quanto Lautréamont foram expulsos de casa por seus pais ainda muito
jovens. Terão sido esses exílios forçado um dos motivos para se tornarem
"malditos"?
Ruy
- Expulsão não é a palavra mais apropriada para expressar a cultura de uma
época em que as famílias aristocráticas e burguesas se orgulhavam de manter
seus filhos nos cárceres educacionais da Europa, geralmente sob a pedagogia das
ordens crucíferas, onde os pedófilos saciavam suas taras subvertendo
consciências inocentes. Como diz Rousseau, numa sociedade de castores a família
é uma jaula mal-defendida. Não podemos negar que a apartação entre pais e
filhos contribuiu e continua a produzir os efeitos nocivos que tão bem
caracterizam a depressão familiar. Não há nada que afete tanto a uma criança em
formação quanto os excessos de rigores exigidos pela família tradicional.
Incoerência maior é forçar uma mente em fase de expansão lúdica a aceitar e
compreender o que nem sempre pode ser compreendido, como por exemplo, decidir
sobre uma carreira profissional a seguir. Quem entre nós escapou ileso desse
terror? Por que me queriam general do exército ou engenheiro se a minha vocação
se inclinava para a literatura? Como os pais exigem uma decisão precipitada, os
filhos se tornam vítimas acabrunhadas da lógica vigente, que é o reino da
deformação das vocações. Claro que aqui devemos considerei também um fundamento
retirado de Gaston Bachelard: “A experiência comum, da vida comum, é como toda
experiência unitária, uma monomania. Viver uma vidinha simplesmente humana,
seguindo uma carreira socialmente determinada, equivale, mais ou menos, ser
vítima de uma idéia fixa.” Ora, deve ser tedioso viver sem inovar, sem poder se
arriscar, sem sentir o furor de uma rebelião interior.
7. Como Verlaine e Mallarmé, também discípulos do grande
Baudelaire, se posicionaram na época, acerca dos "Cantos de
Maldoror"?
Ruy -
Simplesmente não se posicionaram. A aparição da obra de Lautréamont foi, do
ponto de vista editorial, um desastre sem precedentes. Não houve comentários na
imprensa, nem mesmo de repúdio à obra, exceto um, que também passou
despercebido. Os Cantos de Maldoror surgiram e desapareceram de
circulação completamente ignorados. André Gide, no início do século XX foi o
primeiro a chamar a atenção para a importância dessa obra. Em 1923 foi a vez de
Breton, que logo tratou de dar a Lautréamont o título de poeta maior da
modernidade.
8.
Lautréamont também fez parte do "Clube dos haxixeiros"?
Ruy – Esses clubes
eram freqüentados por burgueses e literatos importantes, senhores da sociedade
e Isidore Ducasse não tinha tantas regalias nem amigos em Paris para fazer
parte desses grupos fechados. No entanto, nos seus momento de solidão, ele
recorria aos alucinógenos para suportar o tédio dos meses de invernias
intensas, trancado num quarto. Fugir do real é uma necessidade humana e não há
nada que possa conter essa disposição. Em cada tempo o homem se serviu de
alucinógenos para se suportar vivo. Heródoto conta que os citas amontoavam
sementes de cânhamo sobre pedras em brasas e aquilo era para eles um banho
de vapor tão perfumado que alguns chegavam a soltar gritos histéricos
de alegria. Baudelaire foi um dos primeiros a levantar a
questão nociva da droga, publicando em 1851, Do vinho e do haxixe, que se tornou mais
tarde, em 1869, juntamente com O
poema do haxixe, a terceira parte de Paraísos artificiais, tema que
o escritor Aldoux Huxley
levaria adiante um século depois, com o a publicação de As portas da percepção.
Baudelaire, em 1843, então com 22 anos, era bastante conhecido no Clube
dos haxixeiros de Paris.
9. Será que
foram necessários 150 anos, para que, enfim, os "Cantos de Maldoror"
possam hoje ser assimilados, desde o seu aparecimento, em todo o seu potencial
lírico e estético? Ou a obra continua a assustar os leitores menos preparados?
Ruy - Nenhum
autor de idéias elaboradas pode ser compreendido em sua totalidade, sobretudo
quando o leitor, na pressa de voltar a se ocupar com os negócios do mundo, faz
uma abordagem superficial da obra de um gênio pensante. A obra de Isidore
Ducasse continuará sendo estranha e terrível para um espírito tímido porque no
plano real suas inquietações são as mesmas inquietações da juventude mundial,
que olha pacificada para a fundura celeste e não vê horizonte. Para quem se vê
por exclusão no outro, o que perdura é uma sensação esquisitíssima de vazio, de
inutilidade, uma falta eterna, a ausência de uma luz que insiste em não alumiar
e ele se pergunta; Porquê? Eis uma causa das mazelas psíquicas, que forçam o
sujeito para as manipulações químicas, para as drogas, os fármacos, as
substâncias etílicas, as quais, em verdade, são os sintomas agrupados em Braille
da depressão juvenil que se observa. Nesse aspecto, Isidore Ducasse é o mais legítimo representante dessa misoginia.
10. É verdade
que você teve que esquecer a pesquisa do atormentado Lautréamont para poder
conviver melhor com sua família e com os amigos?
Ruy - Em parte é verdade, mas logo cuidei
de separar os angustiantes momentos de convivência com meu personagem para
poder conviver melhor com minha família e com os amigos que estimo. Enquanto escrevia e reescrevia, supostamente
afetado pela liberdade do espírito de Lautréamont, reparei que, ao mesmo tempo
em que o Olhar oculto revelava o “eu-essencial”
de Isidore Ducasse, a Voz que narra a ação também se metamorfoseava com o que
supus estar submetido a uma duração temporal e espacial da minha própria
circunstância. Após inúmeros exercícios de estilo, quando finalmente consegui
burlar os próprios freios de linguagem e certos paradigmas narrativos,
verifiquei que estava a um passo para reinventar, não um personagem submetido
aos conflitos de sua época, mas um personagem múltiplo, engendrado a partir de
unidades coesas e indissociáveis de uma consciência inteiramente desdotada do recurso que se busca nas alturas e também uma
metáfora de usura da minha própria crise existencial, crise que procurei levar
ao limite extremo da racionalidade preponderante para compreender as causas do
desencanto de mundo que percebo na mentalidade contemporânea. O que está
ocorrendo em nosso tempo, principalmente com as mentes que governam os destinos
sociais, é terrivelmente cruel e assustador.
11. Até que
ponto é real a história de que outros biógrafos de Lautréamont ficaram
altamente transtornados durante suas pesquisas?
Ruy - Em
Paris eu soube, muito vagamente e sem acreditar no que ouvia, de autores que
enlouqueceram durante suas pesquisas ducasseanas.
Conversei com um importante alfarrabista em Lisboa que me contou histórias
inacreditáveis sobre dois jovens escritores que se ocuparam com a vida íntima
de Isidore Ducasse. Mas nada que se possa provar. Por experiência própria,
creio que foi o “nada biográfico” de Isidore Ducasse o real impedimento que
levou grandes nomes da literatura mundial à total frustração. Como quase nada
há de concreto acerca dele, alguns autores se extraviaram logo no início das
pesquisas. Outros, por questões elementares de rigor e ortodoxia, simplesmente
desistiram da empreitada. Contudo, não ouso negar que passei por momentos
terríveis quando me lancei na empreitada de reinventar Lautréamont. É um
personagem muito forte e mimético, que ora se obumbra,
ora recomeça a vagar como um espectro sem rumo no solilóquio do
próprio destino. Isso é o que nos assusta e nos seduz.