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Literatura
O enigmático Lautréamont
Pernambucano escreve romance sobre o poeta francês
Edição Nº31 - julho de 2003
 
LITERATURA
O enigmático Lautréamont num romance de sombras
Romancista pernambucano lança obra perturbadora sobre o poeta francês a partir de um “nada biográfico”
O poeta, romancista, dramaturgo e sociólogo recifense, radicado há 20 anos no Ceará, Ruy Câmara, acaba de lançar na ABL um livro que vem suscitando grandes elogios dos leitores – nada mais nada menos do que um romance sobre a estranha vida do poeta francês Isidore Ducasse, que ficou conhecido como Lautréamont, após lançar sua opus magna Cantos de Maldoror e se matar com um coquetel mortífero aos 24 anos.
Cantos de Outono: o romance da vida de Lautréamont (Ed. Record, 400 pp., R$ 48) é fruto de uma guinada pessoal que o autor deu em 1990, quando abdicou da carreira de bem-sucedido empresário para dedicar-se à literatura e à semiótica. Cantos de Outono é, na realidade, sua obra de estréia. Após ser contratado pela maior editora da América Latina, Ruy já planeja outro romance, No Leito dos Gênios Malditos, que retoma a vida e a obra dos poetas malditos do século 19 e 20. Será publicado em 2004, também pela Record.
Nesses esplêndidos e perturbadores Cantos de Outono, Isidore Ducasse, o conde de Lautréamont (1846-1870), um dos mais estranhos e misteriosos vultos da literatura universal, ressurge vivo e bem mais enigmático do que nunca. É um romance aterrador e comovente, repleto de sombras. O relato de Ruy Câmara, que se diria visual, táctil e trágico, nos conduz por rumos surpreendentes. Se já é espantoso o que conseguiu reunir o romancista no que toca a um autor que influenciou tantas gerações de escritores e que jazia quase esquecido, mais espantoso ainda é como operou o milagre de conferir tamanha veracidade ficcional a todo esse frio, sombrio e distante resíduo biográfico. Nesse romance, Ruy Câmara faz uso de seu profundo conhecimento da obra e do universo do jovem poeta, nascido no Uruguai, para reconstituir - ou reinventar, de forma tocante, sua vida e seus tempos.
“De fato eu procurava um ente acuado no seu próprio dilema, um ser fatal, um vulgo sem espaço para se expressar, sem o recurso que se busca nas alturas celestes, um idealista genial, insubmisso às regras e à lógica vigente, um avantesma que se dispusesse a me fazer compreender algo que jaz no íntimo mais profundo de cada grande poeta e escritor”, explica à Continente Multicultural o próprio Ruy.
O romance deve ser compreendido e catalogado como uma ficção com fundamento histórico e biobibliográfico, fruto de uma pesquisa minuciosa que demandou anos e muitas viagens à Europa. “Em certa tarde, andarilhando com minha esposa no Montmartre, em Paris, após uma série de visitas aos túmulos dos grandes vultos da literatura francesa, cheguei casualmente ao prédio onde vivia Isidore Ducasse. Entramos, subimos a escadaria e conversamos com alguns moradores do prédio, que quase nada sabiam acerca de Isidore Ducasse. No térreo, transcrevi os dizeres de uma placa preta, localizada logo após o átrio e, ao fundo, havia um bistrô simpático. Lá, enquanto entornávamos umas taças de vinho, imaginei que poderia seguir o rastro de Isidore Ducasse”, explica Ruy, a gênese da obra.
Dessa forma, a aventura que começou no número 7 da Faubourg-Montmartre, estendeu-se para o sul da França, onde Ruy palmilhou as ruas de Biarritz, Bayonne, Pau, Tarbes, Bruxelas e, por fim, Montevidéu, onde passou sua infância Lautréamont, precursor do surrealismo. Ruy enfrentou a leitura de mais de quinhentos ensaios sobre a obra de Lautréamont, catalogados em diversas fontes, inclusive na Biblioteca Nacional de Paris. Contudo, quando se sentou para escrever o romance, experimentou na própria carne um sofrimento quase expiatório que – reza a lenda – já fez enlouquecer literalmente outros biógrafos. A causa era o “nada biográfico” de Lautréamont. “Só depois, quando a narrativa estava bem adiantada, percebi que, quando a arte precisava triunfar sobre a racionalidade seca e objetiva exigida numa dada circunstância, minha consciência escapava para a ‘ante-sala’ da razão e eu me via novamente perambulando em Paris, ora diante de uma tumba, ora encafuado naqueles cenários taciturnos, cercado de pensamentos e aflições, como se fizesse mesmo parte de todo aquele imaginário que recriava”, afirma Ruy, que teve originais de Lautréamont em mãos, hoje em poder de uma multinacional japonesa.
Decorridos mais de 150 anos do aparecimento dos Cantos de Maldoror, finalmente estamos começando a entender a importância desse personagem terrível por uma ótica muito diferente da que ele fora visto e confusamente desmerecido pela chamada crítica erudita francesa e belga. O “nada biográfico” de Isidore Ducasse, o real impedimento que levou grandes nomes da literatura mundial à total frustração, em suas buscas biográficas, acabou dando lume a um romance especial, tão enigmático quanto os próprios Chants. Numa das passagens mais interessantes de Cantos de Outono, Lautréamont chega a conversar com os espíritos de Baudelaire e Voltaire.
Enquanto escrevia e reescrevia, supostamente afetado pela liberdade do espírito de Lautréamont e ainda abalado pela morte recente da filha, Ruy Câmara reparou que, ao mesmo tempo em que o Olhar oculto revelava o “eu-essencial” de Isidore Ducasse, a Voz que narra a ação também se metamorfoseava com o que supôs estar submetido a uma duração temporal e espacial de sua própria circunstância. Após inúmeros exercícios de estilo, quando finalmente conseguiu burlar os próprios freios de linguagem e certos paradigmas narrativos, verificou que estava a um passo para reinventar, não um personagem submetido aos conflitos de sua época, mas um personagem múltiplo, engendrado a partir de unidades coesas e indissociáveis de uma consciência inteiramente desdotada do recurso que se busca nas alturas e também uma metáfora de usura de sua própria crise existencial. “Crise que procurei levar ao limite extremo da racionalidade preponderante para compreender as causas do desencanto de mundo que percebo não só na mentalidade de Lautréamont, mas também na contemporânea”, completa Ruy.
Em suma, Cantos de Outono já pode ser considerado como um dos principais romances que vieram à tona neste início de milênio. “Vale a leitura e, principalmente, a releitura”, como nos indica o poeta e imortal Ivan Junqueira, que assina as orelhas da obra.


 
 

André de Sena é jornalista, escritor e mestre em Literatura
(www.bosquesdamoira.cjb.net)

 
           
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