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A ETERNA MALDIÇÃO

O Conde de Mecejana

Sylvia Leão

 Quem conhece o mundo, descobre um cadáver. 

Mas o mundo não é digno daquele que descobre um cadáver.

 (Logion 56, Evangelho de Tomé)

São Cantos. E é Outono (pelo menos no livro). O canto de outono é próprio da cigarra. A formiga labora, enquanto isso. Entre o fazer e o cantar põem-se o próprio dos cimos e o próprio das profundidades. Ali a imanência grudada, aqui a transcendência desgarrada.  E entre ambos, o espetáculo do existir humanamente. À luz do “Cantos de Outono”, de Ruy Câmara, pode-se vivenciar, a cada página, aquela (hoje, tão rara!) conjunção espiritual  do clássico ideal da unidade do Saber, invertendo-a: a unidade do Bem, do Belo e da Verdade. A habilíssima pena do Ruy invade a alma do leitor, arranca-o da condição de leitor e o eleva ou o degrada à própria existência, digna ou miserável, conforme os tempos e as consciências de cada um. Em O romance da vida de Lautréamont, há algo que assombra o que era de ser terno não fosse corrompido de há muito e esquecido quase o guardasse entre as mais graves urgências do nosso tempo, as exigidas pelas necessidades históricas dos nossos dias. Vivemos, como pequeno-burgueses,  contraditados pelo estômago e pela fantasia. Sob a forma burguesa de existência- que é a nossa, a existência realmente digna é impossível! Somos então tragados por seculares reflexões de natureza filosófica, teológica, sociológica, política, literária, ocasiões em que o autor nos convida a romper com a rasura cotidiana do made in, do fast food, do marketing e a tornar a própria vivência menos indigente, a própria mente menos escassa e o próprio desespero menos banal. São mais de quatrocentenas  páginas nas quais dá-se o acolhimento de um espírito vasado por destinações avessas à expectação dos retos.  Sucumbiria à mesmice  não fosse a ”chaga da solidão” a supurar as mais requintadas imagens do espírito, luzindo de metáforas a condenação dos dias iguais: não às alturas celestes enviando-se, mas às monstruosas cavernas da alma descendo, empurrado pelas perdas na alma tênue imprecadas. À base dos desfazimentos primeiros, conjugam-se à força o extenuar raciocinativo da própria comiseração.  São grandes as forças da destruição, maiores ainda as das rupturas necessárias ao existir. As memórias rompem as amnésias, ambas necessárias à vivência.  O tranceado melancólico, de culminância trágica, denuncia a severidade interrogativa que à consciência do leitor ex-põe o aprendizado visceral do que nele há de ter-se corrompido, quiçá.  O que há entre as duas Mortes- a que abre e a que suspende o romance  da vida de Lautréamont, é a Vida que  cada um haverá de autobiografar.   Ainda  acrescente-se a fina ironia do autor,  a quem cabe o privilégio inteligente de reconhecer o falseamento, a hipocrisia da haute culture e, por ela, exercer a crítica ao mais soberbo fruto da separação entre trabalho manual e intelectual – a raça dos intelectuais! Quanto mais desgraçados os tempos, mais se multiplicam os idiotismos, já nos advertira Diderot! Contra a fúria publicista hodierna, alimentadora da  confusão desmedida entre informação e conhecimento, ler os Cantos de Outono,  assemelha-se àquela  diligente consulta oracular hoje em desuso – o exercício sem desfaçatez do conhece-te a ti mesmo. Através daquilo que poderiam ter sido os dias de Isidore Ducasse, deslinda-se aquilo que poderão ser os nossos dias. A leitura se presta a vários alcances do Olhar: o leitor-hematófago se compraz em sugar das letras humanas a lição da brevidade da própria carne; o leitor-coruja há de argüir o estatuto da humanidade, prescindindo ou não de um Absoluto transcendente, e o leitor-águia, baixará seu vôo nas partes podres da existência humana. Seja como for, ler os “Cantos” fez-me sentir melhor e feliz!  Quero dizer: ler o Ruy Câmara e, não o Isidore Ducasse! Eis as prestezas lógica, ética, e estética com que aquelas linhas-  reais a propósito de nós e fictícias a propósito de Isidore Ducasse, podem  alargar e aprofundar o nosso modo de ser, ora dilacerando-o, ora afagando-o, em boa medida, como bem compete ao exercício verdadeiro e nobre da Escrita, sobre cujos caminhos o nosso Olhar se exercita no mais  verdadeiro de Nós.      


Sylvia Leão é doutora em Filosofia e professora titular da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade de Fortaleza.

 
           
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